sábado, 30 de novembro de 2013

DEZEMBRO-ME


Dezembro-me
pois Ipanema me chama
para dourar os meus pelos
e beijar a minha face morena

E a brisa morna convida
a um passeio distinto
entre os beijos discretos
da areia com as ondas amenas

Dezembro-me
pois o Arpoador me acena
 para admirar o por do sol
de mãos dadas com a cena

E as pedras úmidas de maresia
puxam conversas idosas
entre um sopro de vento
e um gole de noite plena

Dezembro-me
antecipando, verão
Oxum conclamando
bela, amorosa e sirena:
desfila tua felicidade, Serena

DEZEMBRO-ME - Lena Ferreira -

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

COMBINADO?

Então fica combinado que, a partir de agora, não voltaremos ao passado inutilmente.
Que sejamos, tão somente, visitantes breves dos fatos que mereçam ser repetidos e não seus hóspedes permanentes.
Que sejamos honestos ao olhar os acontecimentos que nos causaram decepções com maturidade suficiente para reconhecer que nem sempre o erro foi do outro; assimilar, aprender e seguir em frente com o autoperdão.
Que não sejamos meros expectadores do nosso futuro, nem de leve, e sim, trabalhadores árduos neste merecido presente. Combinemos que, com sutilezas, ergueremos pontes e derrubando muros, alargaremos horizontes. Retirando o pó das palavras construtivas – ouvidos atentos aos detalhes que o vento nos traz – iremos além.
Que sejamos, de fato, presentes - modo e adjetivo - e tenhamos motivos de sobra para comemorar o simples fato de estarmos vivos.

COMBINADO? - Lena Ferreira - abr.13

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

ALÉM DA FACHADA


Ao andar pelas ruas do meu bairro, vejo casas diversas. Algumas velhas, bem antigas, caindo aos pedaços, jardins mal tratados. Outras, reformadas, exibem um certo luxo. Outras, poucas, novas, aparentam alegrias...Umas com suas portas e janelas trancadas por esse ou outro motivo. Outras, com frestas convidativas e sorridentes. Mas esses detalhes são apenas sobre suas fachadas. Não podemos ver o que acontece lá dentro, só de passagem.
Quem sabe na casa em ruínas, residam riquezas...
Quem sabe na casa-sorriso, residam tristezas...
Quem sabe na casa trancada perderam uma chave; a da confiança..
Para sabermos, é preciso que, consentidos, entremos e convivamos por um mínimo de tempo em cada ambiência. Avaliando somente por fora e à distância, corremos o risco da mera ilusão que nos faz reféns da aparência; não raro, desprezamos a essência.
Ao andar pelas ruas do meu bairro, como num vai e vem, penso na vida e nessa analogia: somos casa também...

ALÉM DA FACHADA – Lena Ferreira – nov.13

AMARCURA

Olhei pro alto e lá estava ela
a censurar a tola atitude
com um tom tão doce, tão suave e bela;
tão diferente do meu tom que, rude,

Faz deslizar, em suposta esparrela,
minh'alma que, por bem pouco, se ilude
e iludida, tem como sequela
distanciamento em fuga amiúde

Mas a censura tem seu fundamento
fechando os olhos, mudo o pensamento:
pra alma ferida, somente amar cura

Tão belo e doce é esse ensinamento
que a lua deu-me e não muda com o vento:
bem pouco vale a vida sem ternura

AMARCURA - Lena Ferreira - nov.13

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

SILENCIAMENTO


Prenuncio o precipício do que foi um terno início. E o indício mais que claro é o diálogo difícil.
Um passo a mais e é o abismo . Um a menos, o conformismo. Um ou outro, engolindo o sentimento que, por tempos, pensei nós.
Mas...
Muitos nós alargaram os hiatos entre os sóis...e os sós.
Eu, que nasci com impulsos na ponta dos dedos e gritos na ponta da língua, surpreendentemente, sentencio-me ao silenciamento.

Deixa assim...

Se mais tempo permaneço falando e falando e gritando e gritando, insistentemente reclamando pelo que, mostra, não me pertence, certamente estarei condenando o verbo bendito a qualquer coisa mendicável, volúvel e hemorrágica , capaz de sangrar além da amenia. Deste modo, distantes os corpos e os ditos, blindado no canto esquerdo e na mente, resguardo, intactas, as memórias sonhadas vívidas por mim.

Deixa assim...

E pra não dizer adeus, brindemos com um velho e bom Bourbon.

(é quando esqueço alguns detalhes pra lembrar:
o meu olhar de maresia sobre o seu azul-mar
um verso sincero escrito à batom
e esse morno vento-nostalgia;
o que fechará a porta atrás de mim.)

Deixa assim...
...que é pra não passarmos do bom tom...

SILENCIAMENTO - Lena Ferreira – nov.13

sábado, 23 de novembro de 2013

DEIXA ASSIM


Não foi por falta de amor, foi por zelo que me distanciei. Se mais tempo permanecesse, ele, o amor, teria se transformado em qualquer coisa dolorida e odiosa e hemorrágica. Desse modo, distanciados os corpos e os verbos, ele, o amor, continuará intacto. Deixa assim, pra não passar do ponto(final)...


DEIXA ASSIM - Lena Ferreira - nov.13

POEMEU


Nasci com algumas vírgulas; no in'pulso
exclamações dançam na ponta da língua
e as interrogações, num ato convulso,
saltam da boca com a saliva à míngua

Às vezes, os hiatos tomam meu posto
e, assim como as vírgulas, de tempo em tempo,
parênteses e aspas, a contragosto,
explicam o que logo se esvai com o vento

Esses detalhes, conto eu em displicência
sem intenção de comover quem quer que seja
pois, normalmente, vou espalhando reticência
onde o bendito ponto final, seu posto almeja

POEMEU – Lena Ferreira – nov.13

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

SUA

Tal qual um vento matutino
lábios-menino, soprando leve
nas cinzas do peito em greve
acorda a chama julgada morta

A porta, deixei entreaberta
desde que choveu lá fora...

- sobre a demora, dispenso explicação -

Agora, enfim, reconheço:
o que mais importa
no calor da chama nua
é que a alma, minha e sua,
sua e sua e sua e sua

...não com ares de recomeço;
beirando a sublimação...

SUA - Lena Ferreira - nov.13

NA ORLA


Chegar juntinho com sol e inaugurar a areia fina e fofa dessa praia, é impagável. É quando o embate inglório entre as ondas de seu mar cristalino e os rochedos são mais belos. É quando o vento prestativo acalma a fúria de um sol que prenuncia um verão escandalosamente quente. É quando o céu, de um azul anil de encanto, estéril de nuvens mais se assemelha a um oceano suspenso. É quando o ar é limpo e puro ainda e leve. É quando tudo é mais bonito e nenhum instante é breve. Os sentidos se aguçam...
Por toda extensão da beira-mar, um comitê de robustas rochas parecem brotar da areia fina e clara e limpa. Umas se embriagam com o recuo das ondas leves. Outras paqueram a maré cheia para fartarem-se em goles espumantes. No intervalo, trocam segredos seculares, inaudíveis aos ouvidos sensatos; não os meus. Do outro lado da estrada estreita, um morro verdejante e imponente, observa prazenteiro, o farfalhar das copas das amendoeiras que parecem gargalhar com as cócegas que o vento faz. Pouco a pouco, já não somos só nós. Pouco a pouco o sol gira e girando, chega ao meio do céu. E chegando já fortalecido pela pausa do vento, bronzeia almas, corpos e mentes. É quando meus olhos, bêbados de maresia, olhando pra dentro, enxergam mais além...

NA ORLA - Lena Ferreira -

terça-feira, 19 de novembro de 2013

FLORESÇO


Sigo a seta que acerta o alvo no escuro
e nem mira , tão clara é a sua alma
e admirando o riso que nasce fácil, alvo e puro
de quem vai à guerra desarmada,
tão senhora de si, emudeço...

Teço um verso do avesso...

Lavando as vestes da alma num azul, profundo e manso
bebo da calma que, gentilmente, me oferece
- que tanto preciso... e que, penso, mereço -
e, descansando na imensidão das marés de mim,
armada com um silêncio breve, floresço...

FLORESÇO - Lena Ferreira -

VELHO TEMA


Melhor voltar, urgente, ao velho tema
versando sobre o amor que engrandece
a alma, com palavras que enternece
o coração que, preso num dilema,

Enxerga, em toda lida, um problema
nos braços da tristeza, se esquece
alimentando a mágoa que entristece
e contamina as letras do poema

Melhor voltar, urgente, ao tema antigo;
parece pouco mais que um mendigo
pedinte das migalhas de atenção

Escute bem o que agora digo:
exercitando o velho tema, amigo,
acalmará sua alma e coração


VELHO TEMA - Lena Ferreira -

NÁUFRAGO


É difícil o trajeto que percorro
navegando nessas águas sempre frias
- de saudade, de tristeza, de agonias -
 distante dos teus braços em socorro

 Eu me afogo em ondas de tristes lembranças
onde o teu silêncio já calou meu grito
onde o amor, que parecia tão bonito
viu  morrer a força e a esperança

É difícil o trajeto e os detalhes
que deixaste na memória em entalhes
- marcas fundas, doloridas, de desprezo -

  É difícil... Não há possibilidade
  - sem teus braços, nessas ondas de saudade,
impossível que eu ainda saia ileso... -

NÁUFRAGO - Lena Ferreira -

PRECISO

Enquanto a noite ensaia sua estréia, cuidadosa, a mente, nada cautelosa, saltita em descompassados passos arranhando o piso liso da razão que se dissolve no ar a cada piscar desses olhos já pesados que, a essa altura, bem pouco enxergam.
Passaram, à tarde, nuvens rubras, tensas, grávidas de alarde, reclamando-me postura. Passaram ventos prestes a parir torturas, ventanias arrancando-me a ternura. Pássaros, voos, urdiduras; já pressinto temporais. Nada preciso...
Preciso, urgentemente, de uma brisa leve e quente a limpar a alma, a mente e o rosto e o gosto desse dia. Deitar num chão de nuvens costuradas com estrelas e admirar o sol nascer bem manso no entreabrir desses seus lábios tão macios enquanto, suave, amanhece em minha noite.

PRECISO - Lena Ferreira - nov.13

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

BENDIGO

Bendigo o dia quando ele amanhece
e agradeço a oportunidade
com uma curta e silenciosa prece;
simples mas plena em sinceridade

Bendigo os passos e também tropeços
as pedras, as flores e bendigo o vento
a chuva, o sol, o fim e  o recomeço;
bendigo  todo e qualquer momento

Bendigo a força que me leva à luta;
com muito amor e correta conduta
vou bendizendo cada hora do dia

Bendigo a tarde que a noite traz
bendigo cada instante de paz
que encontro ao me entregar à poesia.

BENDIGO - Lena Ferreira – nov.13

LÍQUIDOS


O céu, coalhado de nuvens alaranjadas, anunciava mais um dia de calor infernal mas eles, que vinham de uma noite transpirada, não se importavam com o que estava por vir; abasteceram-se de líquidos madrugados, saciando sedes para mais de um dia...E embora a promessa desse sol que se levantava fosse de inferno, dois sorrisos cúmplices se abriram, satisfeitos e certos de mais uma lua no paraíso.

LÍQUIDOS - Lena Ferreira -

SOLFERINOS


Suaves sensações socorrem a pele
se sopra sutilmente seus segredos
nos sussurros suspirados, me excedo
respira os movimentos e lhe impele

Secretos, os silêncios são despertos
sibilam solfejadas sinfonias
em sopros solferinos, são libertos
sussurros, suavidades, poesias

Silencioso, o solo sacrossanto
segrega sensações; todas dormentes
suspiram as sedas, sorrindo no canto
saciando os segredos mais frementes

SOLFERINOS - Lena Ferreira -

ESTAÇÕES

Quando meu peito inverna
chovo forte
- trovejando ventanias
alago o leito em prantos -

Nessas horas,
seu sol-riso vem, mansinho
e dissolve as nuvens gris
do meu pensamento-temporal

Sopra seu hálito de brisa morna
secando todos os cantos

Recolhe as folhas do meu outono
semeando com tanta ternura

Cuida do meu território inteiro
para receber a sua primavera

ESTAÇÕES – Lena Ferreira –

A VIA

Havia o som dos silêncios aflitos
que divisava o espaço entre a boca e a pele
suspiros suspensos causando arrepios
e alguns segredos macios prestes a desabrochar

Havia o abismo infundado e arredio
que separava o voo do seu arremesso
em linha tão tênue, em sede-precipício
e o avesso da calma querendo queimar

Havia o desejo incontido, fremente
que inflava o peito em batidas fatais
em descompasso à razão; rarefeito
e muitas gotas a nos encharcar

Havia, e a via, do meio ao princípio
recomeçava até que, ao final
entre espasmos, sussurros, sem frio
morremos, plenos, dentro de um olhar

A VIA - Lena Ferreira

AOS PURISTAS


Os catorze que aqui vão, sem disciplina,
rasgam regras e não prestam continência
no quartel da academia de excelência:
mancos, pobres, loucos; babam na rotina

São catorze desafetos às retinas
embotadas e com pouca paciência;
logo deitam o selo de incompetência
no soldado que faz o que não domina

São catorze e mesmo presos pela rima
são tão livres por fazerem o que primam
mesmo com dura censura nessa forma

São catorze! Livres, sim, da pretensão
de alcançarem, seja um dia, o escalão
almejado pelos presos a uma norma

AOS PURISTAS - Lena Ferreira - abril/13

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

PERFUME


Faltou-me falar desse silêncio que, estagnado, paralisa as águas de um límpido lago enquanto penso, num tom quase amargo, nas coisas frias que ainda me cercam...nas coisas tristes que ainda me abraçam.
Esse silêncio mordisca o meu orgulho enquanto, teimosa, revisito insossos planos do insano mundo onde, acho, me perco em inúmeras e fúteis considerações...rodando e rodando em círculos sofríveis.
Faltou-me falar desse silêncio profano que, calando aquela brisa tão confortante, aponta-me erros vários, improváveis, impalpáveis, na tentativa de desviar o foco de si e, num tom intrigante, sisudo e assaz, arranca-me as folhas da memória, quase confusa...
Esse silêncio, tão moço, fossiliza-me as veias e, no confronto com essas letras tortas, tenta levar consigo o melhor do meu sorriso. Duelo inútil...Desiste, deixando-me às margens do lago límpido onde enfim decido afogar essas palavras inaudíveis e moucas...Vedo meus ouvidos para as falácias fúteis. Deito os meus olhos no espelho d'água e sem nenhum resquício de mágoa, verto o perfume mais puro da alma e, finalmente, desafogo...

PERFUME - Lena Ferreira -

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

VISUAL


Jamais
se iluda com a aparência;
nela não encontrará a
essência
que, em verdade, reside nos
atos

Correndo,
vivemos num mundo
profundo, profano
e imundo
onde fotos já não revelam
fatos
VISUAL – Lena Ferreira- nov.13


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

CHOVIA

Silente, ela observava o rio que a conduzia mas não sorria. Deixava-se levar simplesmente. E o rio corria, calmamente. Enquanto ia, lembranças infantes esbarravam pelas duas margens e calavam fundo. Que mundo... - pensava arredia... - Enquanto torcia chegasse o seu porto seguro, pedia que o céu, tão ardente, bebesse o estio, a dor, a agonia e a morte. Vem, sorte! - dizia - E, sem covardia, chore, inclemente no solo dos órfãos sedentos. E de seus rebentos. E enquanto pedia, era ela quem chovia...

CHOVIA - Lena Ferreira -

LUA NOVA

Semicerrados, olhares se observam
arteiros, em promessas absurdas
invadem os meios inteiros e se instalam
nos tantos cantos escusos, recatados


Semioculta, a lua, cheia em fases
bisbilhota esse comportamento infante:
quatro olhinhos brincando de verdades
duas bocas salivando diálogos silentes


Nascem promessas avessas e caras
florescem gramas nas areias da praia
e uma brisa mole e morna destila o ar
ouvindo o suspiro da noite em quases

Pausando no vão dessas frases não ditas
brindam com olhares na taça da calma
e seguindo o universo na alteração da rota
mudam a fase cheia para uma lua nova

LUA NOVA – Lena Ferreira -

LEGADO

Admirava aquele velho. Carregava uma bagagem de vida sem peso e sem poeira e diante de uma desfeita, sempre dizia: - um copo d'água, por favor. Preciso molhar a palavra.
Durante algum tempo aquela expressão me inquietou mas observando suas atitudes sensatas nessas horas, foi que entendi. Molhar a palavra para que não saiam ásperas, para que elas deslizem, para que não firam; uma pausa, um pretexto, talvez, para uma rápida reflexão. Passei a admirá-lo ainda mais. Era mestre nas contações de causos, sempre análogos, sempre reflexivos, sempre deixando lições grandiosas. Já por fim, abandonou o presente, refugiando-se num passado confortável. Foi triste vê-lo assim, ausente de tudo, de todos, do mundo...Partiu, nem cedo nem tarde, mas deixou este legado que hoje procuro empregar: um copo d'agua, por favor...Preciso molhar a palavra!

LEGADO - Lena Ferreira -

IMPULSO

E a distração das noites intermináveis e vazias
era nomear os detalhes frágeis dessa trama:
lágrimas de ensaio, risos em disfarce, desculpa sem nexo
e o plexo, drama em pulso avulso

Impulso...

Quase nada disso ressoava ou convencia
solidão e melancolia, indesejáveis, alargavam o quarto
vasculhado a fundo pelos olhos rasos
na busca infinda pelos detalhes estáveis

IMPULSO - Lena Ferreira –

ASFIXIA

Sob os hiatos excessivos e aflitos
vão os conflitos recolhidos pela estrada
e não há nada, por enquanto, que amenize
a agonia que esta lua sempre traz

Paira no ar o peso dO ser inconstante
num tom cortante, o pensamento atrofia

Por covardia, os pés miúdos desta noite
caminham, calmos, pra não acordarem o sol.

ASFIXIA – Lena Ferreira – 

PERDÃO

Eu peço perdão por te amar desse jeito
que, ao mesmo tempo, te atrai e repele
é que há um mar aqui dentro do peito
que, por rebeldia, vem à flor da pele

Em toda maré, da mudança, o efeito
se mostra mais claro e então me impele
a mil desvarios - loucura ou defeito? -
alterando rotas, por mais que se apele

E quando te afastas, eu corro a procura
com os olhos molhados, cheios de ternura
e, usando palavras suaves, de paz,

Te peço perdão mas dispenso a cura
aceite ou não, nessa minha loucura
encontro razão pra te amar mais e mais


PERDÃO – Lena Ferreira -

LUA

Sonhei-me vento
no arrepio da pele morena
onde, nua, bronzeava-me com seus dedos de sol

Sonhei-me vento
na fogueira que anima o peito
onde, nua, embolava-me nos seus pelos-lençol

Sonhei-me vento
neste verso que sai sem medo
onde, nua, deliro abrasando-nos além do arrebol

Sonhei-me vento...
Mas a razão me acorda e avisa:
És só lua...Aceita, é tempo; jamais beijarás o sol...


LUA – Lena Ferreira –

PERMITO-ME

Aprendi com a primavera, sem descaso,
a me deixar cortar, perdendo as folhas:
mesmo ficando com esses olhos rasos
aceito as consequências das escolhas

Inútil é insistir ser flor num vaso
que presta a sufocar nossas raízes
entenda, não foi obra do acaso;
eu tenho consciência dos deslizes

Assim, me deixo ir pelas estações
outono invernos e também verões
como se fossem, sempre, as primeiras

Sempre fiel às minhas emoções
permito-me provar das sensações
gozosas a quem sempre volta inteira


PERMITO-ME - Lena Ferreira -

CULTIVO

Na esquina
das desconhecências íntimas,
um campo largo de tímidos sorrisos
se insinua às sementes de silêncios
semeados pelas outras estações.
Cultivo.
É primavera.
Logo, logo, verão
o desabrochar do verbo.

CULTIVO - Lena Ferreira -

SÍNCOPE

Vou...
aconchegar-me-ei no teu cansaço
que, de tanto divagares, andas farto
e falta-te o ar no peito inteiro, todo

Vou...
e dar-te-ei um pouco do meu muito vento
que, cá, rega os meus impulsos em galopes extremados
cardiovascularizando a pele; penso

...que assim serias meu, bem como já sou tua
e suo na subida da colina, longe, alta, horizonte ensolarado
- tanto, tanto que, fechando os olhos, me atiro -

Voo...
e pouso nesses braços fortes, destino escolhido, apalpo a calma
- novidade nesta vida - que exala das tuas mãos e boca e pele
tateio as bordas do sossego tão sincero que ofereces


...acarinhando a tua face, sinto que, silenciosamente,
a alma minha se despede
purpurinada à brisa vaga, calmamente, desfaleço...


SÍNCOPE - Lena Ferreira -

VOO

É na voragem beirando a ingenuidade
que hoje confesso alguns temores bobos, tolos:
altura, escuro, vãs promessas e lonjura
correndo o risco de expor-me; fútil e frágil

Essas tolices fazem-me tremer a alma
e, se abalam fortemente a estrutura
desconsertando os passos momentaneamente,
ao mesmo tempo servem-me de desafio

Pois se a vida solicita mais coragem
esses temores dão asas ao meu impulso
e quando avisto o meu medo inconfessável,
mesmo tremendo convulsivamente, voo

VOO – Lena Ferreira –

RIO MANSO

No leito de um manso rio
deito as horas, deito os dias
pensamentos, agonias
saudades, mortes, tristezas
deito dúvidas e certezas
num misto de calor e frio

Eu sou mar e ele é rio...

Vou fazendo o que o rio faz
deixo que vá, deixo ir embora
vãos momentos, vãos agoras
seguem com a mansa corrente
libertando a minha mente
de tudo o que ficou pra trás

Eu sou mar e ele é rio...

Vendo a vida com mais brio
invertendo o curso das águas
limpando as margens das mágoas
retomo os remos do barco
e o meu destino, demarco
sem tremor ou arrepio

Sendo mar, me penso rio...


RIO MANSO – Lena Ferreira –

SEDUÇÃO

A lua, sedutora, toda encanto,
desfila, pela noite - um negro véu -
dependurada e nua, lá no céu;
destila o breu de todo desencanto.

Ao longe, ouço um lindo e terno canto
num tom de voz tão doce quanto mel
que invade o ambiente além do léu;
sem ter um rumo certo, me levanto.

Caminho a esmo pela noite fria
buscando alento, sondo a poesia
que está escrita na ponta da lua.

A voz de longe chega a mim - tão perto -
e preenchendo o meu canto deserto
derrama a alma totalmente nua.

SEDUÇÃO - Lena Ferreira -

sábado, 9 de novembro de 2013

VIVÊNCIA


Era dessas que, a qualquer ruído, se punha inquieta a busca o motivo e, sem nenhum motivo, buscava a razão. Não se achava enquanto se perdiam o som, o sussurro ou a estridência no ar que, pesado e estagnado por questionamentos, dificultava o seu respirar.
Até que, um dia, um pássaro raro e discreto pousando em seu dedo, num canto tão terno e tão manso como um acalanto, cantou-lhe uma estória tão linda, tão viva, tão doce e veraz, semelhante a canção de ninar em notas macias, tão claras; vivência em cantar. E ninando toda a ansiedade, serenando toda a aflição, explicou-lhe que só se ouve bem com os ouvidos da alma, repousando o peito no silêncio da calma.
Desde então, quando escuta o suspiro da brisa ou um vento formando temporal, abre bem os ouvidos da alma e para ponderar, se cala...

VIVÊNCIA - Lena Ferreira -

ABRIGO


Abrigo de tormenta e calmaria, diriam que, por isso, sou uma atriz. Eu fiz por merecer essa bagagem - aragem passadiça, desconforto - Meu porto é inconstância permanente. Agente em céus de organza nessas fases. E as frases que me lançam em desvio são fios que, mais ais, cumularão.
Se o teu senão dissesse claramente o que na mente escondes, que alegria! Mas não, só sugestão; calo em meu peito; é o jeito de seguir sem temporais. Abrigo de tormenta, calmaria e alguns ais;
aguenta, alma minha, somente um pouco mais...

ABRIGO - Lena Ferreira -

PERMANÊNCIA


Há quem parta e, mesmo assim, permanece
há quem se despeça mas jamais vai embora
certo é que, nossa alma nunca se esquece
do que lhe toca e o passado é vivo no agora

Em fotos e fatos, cenários importantes
em palavras ouvidas, trazidas pelo vento
volta o tempo em memórias confortantes
como carícias doces para o pensamento

Há quem parta e deixe em nós, um pedaço
há quem vá, levando um pedaço de nós
há, no agora, recordações dos abraços
e a certeza de nunca estaremos sós

PERMANÊNCIA – Lena Ferreira – nov. 13

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

INEVITÁVEL


E por mais prazeroso que seja o convívio amigo
entre risos e conversas e partilhas solidárias
chega o tempo, inevitável, da busca solitária
por uma meta necessária; um encontro comigo.

Então, a desbravar o meu próprio oceano, parto
sei das chances, bem prováveis, de enfrentar tormentas
se os remos não bastarem, meus braços, sim, aguentam;
nessa busca, comprometo-me e não me aparto.

Não sei nada, quase nada do que me espera a frente
desse mar que só transborda em natos segredos
pode ser que me engula ao me lembrar dos medos
pode ser que me afogue, me confronte, enfrente.

Sal e areia, travando a garganta no confronto,
tentarão impedir que a voz saia clara e calma
mas não mais pensarei no provável; irei com a alma
carregada com a coragem necessária para esse encontro.



INEVITÁVEL -Lena Ferreira - nov.13

VENTURAS


Em torrente de sussurros infinitos
dou-te a alma e convido a alma tua
a venturas no entorno irrestrito;
posto-me, disposta, inteiramente nua

Mas é teu silêncio e esse ar contrito
que responde o verso e a rima pobre, sua;
já não sei, ao certo, o que mais te dito
mas, querendo, dou-te livre acesso à lua

Dou-te estrelas; cometas constelações
far-te-ei provar distintas sensações
nas viagens pelas venturosas águas

Se quereis, mergulhes, dar-te-ei a prova
de que o verbo explicitado se comprova
neste verso transbordante que deságua

VENTURAS - Lena Ferreira - out.13

NINHO


Na alvorada dos seus olhos tão macios
deito um olhar de estio, manso e enternecido
pra descansar o desvario do mormaço

Nos braços-rede, teço um ninho de aconchego
e quase chego a trocar de alma contigo
tão terno abrigo é a calma desse seu abraço

O dia passa, a tarde acena e traz a lua
eu sou só sua, nesse ninho - amor crescente -
onde, contente, o tempo não dá nenhum passo

NINHO – Lena Ferreira – out.13

NUVEM


Quando fui mar, tentei rasgar dois oceanos
e com esse plano, me perdi nas muitas rotas
das densas ondas de espumas fractais
que, urgentemente, devolviam os meus ais

Regurgitava o que do fundo revolvia
e dissolvia a razão tão de repente
sinceramente, não sabia mais se via
ou imaginava o que estava à minha frente:

Mais de dez vultos, embaçados, e falavam
em uma língua que, entender, não conseguia
mas insistiam com um sorriso convincente
e a viagem, a grosso modo, prosseguia

Quando fui mar, ralei a alma em rochedos
por aceitar a incitação de qualquer vento
- evaporei e aguardo, num céu de estio,
pra deslizar no curso de um perene rio. -


NUVEM - Lena Ferreira - março/13

ENQUANTO


Enquanto recolho o rastro das últimas estrelas, desembaraço os fios do pensamento em arrepio que um forte vento soprado na madrugada fez o favor de emaranhar. Caminho numa calma aparente pela areia com os pés descalços e mãos despreocupadas e a brisa que o mar respira, me abraça como entendesse a multidão que me habita nesse instante. É vasto o mundo que, em segundos, percorro e horas são caras no agora que me aflige, Sobram sombras que me assombram; são as sobras de um nada que insistia visitar. Desisto...Espraio-me na areia quase morna enquanto o mar inteiro escorre pelos meus olhos ressacados em arrastão. Embriagada de maresia, uma sonolência breve anestesia a mente aquietando temporariamente o alvoroço desses pensamentos-fios. Adormeço e sonho azul...Enquanto, de leve, os dedos do sol me fazem cafuné...

ENQUANTO - Lena Ferreira - out.13

NOVEMBRO


A tarde, caminhando mansa e fresca, parecia esquecida do encontro marcado com a lua. Pássaros empoleirados nos galhos, ruflavam suas asinhas, acomodando o doce canto em seus ninhos sem penas. Enquanto isso, uma brisa leve e alegre farfalhava as folhas das árvores grávidas de sabores e aromas. Um sol alaranjado, morno e preguiçoso olhava para o horizonte com olhinhos de tristeza. Queria demorar-se um pouco mais - desejo de todos os dias, pobrezinho - esperançoso por encontrar a amada sua.
Pouco a pouco, passos e gritos silenciavam suas vozes para, calmamente, poderem beber, gota a gota, toda essa cena. Vagarosamente, percebiam, um véu fino e quase negro estendendo-se na imensidão de um céu estéril de nuvens mas fértil em promessas. Era novembro chegando... E da pequena janela do quarto podia-se ver, claramente, a boca da noite cuspindo estrelas.

NOVEMBRO – Lena Ferreira – nov.13

AMA


Ama de tal forma que possas enxergar através e além dos defeitos; ninguém é perfeito. Não permitas que estes bloqueiem a tua visão de amor sobre o outro...Ama de tal forma que o motivo desse amor seja o amor que em ti reside e transborda, nada mais. Ama, sem cobranças, sem palavras, sem receita; simples gestos...Ama e ama e ama até que te transformes no próprio amor...

AMA – Lena Ferreira – nov.13

PESCA


Dependurada e súplice aos pés do vento
roguei levasse as nuvens do meu pensamento
que, monocromático, agonizante e em torturas,
movimentava as atitudes mais sombrias.

Prece atendida em completude, uma ternura,
mansa e serena, acorda a calma adormecida.

Agradecida e já com a alma em vestes de gaze
dedos de nuvens lilases, colhem estrelas e cometas
dos olhos úmidos que se abrem num amplo sol-riso
aquarelando todo entorno ao sabor da morna brisa.

Não há palavra precisa nesse instante...

Então, flutuante, com a língua imersa
num mar salivado por declarações silentes,
nas ondas quentes, em perfume de maresia,
pesco o nome soletrado pela alma - minha e tua -
e que logo vem à boca, num gole só; poesia.

PESCA – Lena Ferreira – nov.13