sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

NAS ÁGUAS

Nas águas tranquilas que cobrem esse solo
isolo a tristeza que pesa nos ombros
em dores prováveis, possíveis assombros
que escondem o sorriso que sempre foi seu

Nas águas tão calmas, mergulho meu colo
consolo a verve que andava arredia;
pedinte de um vento, brisa ou poesia
espera voltar o que sempre foi seu

Nas águas serenas, meus versos, imolo
tentando acalmar a alma em estado bruto
para que, tranquila, num tom resoluto
retorne ao caminho que sempre foi seu

NAS ÁGUAS - Lena Ferreira -

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

CORTE


Debruçada na beirada das lembranças
chorosa contempla a imagem do tempo
que corre, indiferente ao seu lamento,

...e não para

Eram tantas, lembra bem, e por horas
brindavam a vida com xícaras de brisa morna
e gargalhavam com as cócegas do vento

Assistiam, reflexivas, ao degradê da tarde
e à noitinha, respiravam estrelas e vagalumes
brincavam de fazer o dia, a vida e a sorte

Debruçada na beirada das lembranças
arqueou-se pelo peso da saudade
daquelas que foram levadas por um corte

...que não sara

CORTE - Lena Ferreira - dez.13

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

DECANTAÇÃO

Escorre desesperada do leito,
caminha aflita e forma um denso rio;
a água amarga que vaza do peito
desliza da fonte estreita em fio...

Desloca-se da fonte tão pequena,
e, diminuindo, decanta das águas
os desenganos, lamentos e penas,
e, desfilando, destila o que amarga

Na trajetória, nem pouca, nem tanta,
modifica seu gosto enquanto escorre
tornando doce a água que envenena

Alaga o peito e destrava a garganta
afogando a mágoa que, enfim, morre
e a fonte estreita, se alarga, serena

DECANTAÇÃO - Lena Ferreira – out.13

domingo, 15 de dezembro de 2013

SUAVE

Senti a dor de cada letra nua
expondo a alma; de tristeza, morta
vestida de verdade, dor tão crua
daquela fina que, por pouco, corta

Senti  as lágrimas rolando - as duas -
batendo desde cedo à tua porta
quisera, mesmo, transmutar-me e  lua
alteraria as bases da comporta

E a noite, silenciosa como a brisa,
acalmaria a dor que aterroriza
vestindo-te com flores e sorrisos

Perfumaria-te com puro nardo
suave, como as nuvens que resguardo
para curar-me, sempre que preciso

SUAVE  - Lena Ferreira –

PRETENSÃO

Ah, Mário, se por aqui ainda andasses
com pés de passarinho e letras aladas
quintaniando o teu silêncio, confirmarias
o alvo certo do teu aforismo sobre o tempo
que com passos assustadoramente fungíveis
engole fatos, fotos, ventos, velas, elementos
vulneráveis sentimentos; bem dissestes
 tanto tempo e o dito permanece imutável
a não ser pelo próprio espaço que, caduco
não consegue acompanhar a avalanche
de informações que chegam de toda parte
e reparte a mente em tantos pedaços
sem que, cada parte partida, absorva
verdadeiramente, o que há em cada fato

Os tempos são outros, Mário, são sim;
adornam a distância com  a própria distância
entornam à inconstância mais inconstância
em toques progressivamente superficiais
porém tranquilizo-te, poeta:  como tu, deitei-me
nas citações dos outros sobre mim e assim,
sereníssima, tranquila, calma e equilibrada
andarei sob essas impressões atemporais
sob a promessa de não levar para o túmulo
o acúmulo do tudo que posso fazer no agora

PRETENSÃO - Lena Ferreira -

CÍCLICA

Há vezes, abro-me ao sol que cirandeia pelo oceano suspenso
esquecida das noites despertas entre as nuvens estéreis
A luminescência do dia acelera o meu pensamento
que salta, saltita e orbita pela mente em euforia de cores
vibrantes sorrisos, canções e canções em ondas e ondas

“Tenho fases...”

Há vezes, fecho-me, aberta aos cíclicos pensares
segundos e segundos em variantes variáveis
sem resumos e sem cálculos; solução salobra
escorre pela face desbotada e sem ser sol
trovejo, abalando os alicerces da alma inquieta

“...como a lua.”


Reveses...E o ciclo das marés avoluma a angústia
de um vazio que nada é capaz de preencher
O sorriso salgado afasta as estrelas; sei bem
mas o céu é imenso e essas luas madrugadas
trazendo a brisa da inconstância me apavoram

“Perdição da minha vida!”

Mas há de vir um vento, um dia ou noite qualquer,
que arraste essa instabilidade a um precipício
assassinando, em mim, a inércia agigantada
diante da poeira soprada pela rua escura e fria
devoradora da calma que jamais me acariciou.

E então, eu serei minha...

CÍCLICA  -  Lena Ferreira -

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

RE-CREIO

Dentro de um poema,
dormem outros poemas
aguardando serem despertos.

Leio e releio. Recrio, re-creio;
acordamos...

RE-CREIO - Lena Ferreira -

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

INTERMITENTES

Certas verdades, intermitentes,
bordadas por gazes finas, transpassadas
perpassando as fases de uma vida em cela
revelam o vício dos vínculos convenientes

Ingenuamente, trazem o fim para o início
fundam precipícios nos verbos contritos
acordando atritos no poro indisposto;
desgosto em arrepios, anunciam conflitos

Certas verdades, intermitentes,
atadas por nós mudos, surdos e cegos
confrontam o ego de um mundo absurdo
e deixam escapar o que ia na palma...

(...diante de tantas mentiras calmas)

INTERMITENTES – Lena Ferreira – dez.13

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

DE PASSAGEM

No curso da longa estrada
vou traçando meu destino
cansativa é a caminhada
muitas vezes, vou sozinho
desbravando esse caminho
sem escudo, sem espada
atravesso as correntezas
carrego poucas certezas
pra bagagem ser mais leve
na passagem que é breve
vou bebendo da beleza
que a paisagem me oferece
tenho o sol que me aquece
tenho a chuva no meu rosto
e a brisa, prima-irmã do vento
revigora esses meus passos
e amenizando o cansaço
tranquiliza o pensamento
do muito que acontece
porque os olhos não esquecem
do que corre pelo mundo
coração em disparada;
pouca coisa sendo nada
muita coisa sendo tudo

...no curso da longa estrada
vou seguindo, quase mudo

DE PASSAGEM - Lena Ferreira - dez.13

ZELO

E enfim, o silêncio dos dias solitários
cedeu lugar ao alvoroço pela volta
enfim, a ventania transformou-se em brisa mole;
felicidade é pra se beber de gole em gole

Olhos sorrindo tateando tudo em volta
lábios abrasados, se abraçando
e a cada toque, uma porta era entreaberta;
se zelo existe, haverá redescobertas

Caminhando, calma, a mesma lua, leve
suspirava e, talvez, por inveja breve,
escondeu-se nas nuvens raras dessa noite

E nós, sob juras secretas, em suavidades
cobertos de pele e de intimidades
inauguramos estrelas onde o céu fez greve

ZELO – Lena Ferreira –

IMENSURÁVEL


Já era tarde e o meu silêncio, a companhia
além da lua, grávida de vãs promessas
bisbilhotavam o quarto inteiro à procura
de algum resquício do passado já dormente

Mas estampado estava, há muito, em cada canto
em cada foto e nas ranhuras das paredes
e a velha rede balançava com as lembranças
de um presente, vivo e intenso, entre sóis

Então, sozinhos, eu, a lua e esse silêncio
dialogamos; entrelinhas, fio a fio:
não é um vazio, é só um poço imensurável
dessa saudade de quem parte e quer ficar

IMENSURÁVEL - Lena Ferreira -

domingo, 8 de dezembro de 2013

PREFIXO

Trago de berço o prefixo de um céu líquido
E a imensurável inconstância dessas ondas
sempre me sonda e me remete a vazantes;
gotas, poças, lagos, rios, mares, oceanos...

Não é um plano arquitetado; é o efeito
do que no peito roça e arranha em agonia
Nascidas frias, rimas batem nos rochedos
e morrem cedo, amênicas de maresia

Verso com limo, pedras, algas verde-musgo
e no quê profundo do raso mundo que alcanço,
avanço e a calmaria, com um beijo, me azuleja

Que assim seja; apaziguo-me com o vento
que, neste momento, sopra leve, quase brisa
e me avisa, num vaporoso e eterno abraço

Que esse cansaço que, às vezes, me abate
é pelo embate inglório, por noites e dias
entre as suadas ventanias e as águas de mim


PREFIXO – Lena Ferreira – dez.13

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

TANGENDO NUVENS


Enquanto um vento-menino, brandindo o seu chicote de plumas, suave, brinca de tanger as nuvens esparsas de um céu azulejado, permito-me um observar quase sensato sobre as imagens diversas que se me apresentam em impacto. Figuras das mais várias formas se formam em poucos instantes e, quase no mesmo instante, outra forma e outra vez. Talvez só para lembrar que, da mesma forma que as nuvens, na vida tudo muda, tudo é transformação e, muitas vezes, independe de mim...de ti ou de voz...
Então, re-corro ao maço de folha em branco e com o pensar franco, abraço essa inspiração como sendo uma tábua de  salvação. E apontando impressões, escrevo, rabisco e escrevo de novo o que devo e não devo, o que penso, o que sinto, o que invento e o extinto; fotografo emoções.
Sensações que, percorrendo as veias, geram memórias cheias, esvaziando a razão. Onde a solução? Onde me fiz refém? Ah, coração...Aquieta-te no peito e daremos um jeito nessa nossa questão: ou freamos o vento-garoto que, brincando, tange as nuvens do nosso destino ou mudamos também...


TANGENDO NUVENS - Lena Ferreira - 

SACODE


Não sem aviso, veio forte e cego
e laminado, arrancou-me telhas,
tirando o chão do eu, do id e o ego
virou poeira que não se espelha

Temi, tremendo - isso eu não nego -
perder o todo que se assemelha
à calma, à paz e tudo o que carrego
dentro do peito em ínfima centelha

- o céu trincado em grandes estrias
lembravam as rugas dos passados dias
e as trovoadas, gritos de improviso -

Não sem aviso, sacudiu-me o vento;
tombou certezas do antigo tempo
e fez-me chuva no instante preciso


SACODE - Lena Ferreira – dez.13

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

SONHO

Enquanto a noite anda, vagarosa,
de braços dados com uma leve brisa
o pensamento dorme e concretiza
a viagem mais perfeita e esplendorosa

É quando, em veste fina e vaporosa,
compromissadas almas, sintonizam
os fios de promessa e minimizam
a espera, demorada mas zelosa

Enquanto a noite, com seus passos lentos,
caminha, almas com o peso do vento,
flutuam e partem pr'esse encontro breve

Marcado com suas almas prometidas
- quando acordadas, vagam adormecidas
e só despertam quando dormem leves -

SONHO – Lena Ferreira – dez.13

domingo, 1 de dezembro de 2013

SOU-TE

E quando vens, me abraças com palavras mansas, ternas como a brisa levemente salmourada, quase, quase maresia- essa mesma que me beija quando em mares, poesia. -
Tanto orgulho de ser seu mar, assim, idêntico em conflito...Marés tantas, ondas fartas; falta-me o ar, confesso, muitas vezes, mas não resisto a esse amar intenso e insano, tão inteiro e tão distinto...
Há vezes, penso tanto, penso muito...Um pensar inconcluso, tão confuso que nem sei se um de nós é o infinito ou se é somente pelo atrito da areia entre os dedos que a razão, que julgo vasta, escasseia e, pelos vãos, vão os segredos...
Mas quando vens entre sussurros tão macios e alarmas meus verões, cobrindo-me com suados arrepios, mudando o fuso, o eixo e o mundo, acordando outras estações já dormentes no meu peito, que livres da clausura, incitam variadas explosões, deliro!
Ah...Não sou a última nem a primeira, sei bem, mas te digo, despida de pudores e vestida de ternura: dia e noite, noite e dia, sou-te, inteira, sem escudo ou armadura...


SOU-TE - Lena Ferreira- dez.13

AMOR PRÓPRIO

Quando digo que me amo
não é por capricho ou vaidade

Quando digo que me amo
não é por falta de humildade

Quando digo que me amo
é por compreender essa verdade:

Se eu, que sou eu, - me conheço -,
não me der o amor que mereço
não saberei dar amor a ninguém

E que amor darei a quem desconheço
se não souber amar a quem conheço?
responda-me essa questão, meu bem

AMOR PRÓPRIO - Lena Ferreira - dez.13

DENSOS


Há quem diga que o que distancia
nos separa mas não acredito
pois com o toque de uma poesia
alma, mente e corpo teus, eu sinto

Há quem diga que essa lonjura
marmoriza o sentimento a dois
leio os versos, todos de ternura;
e a distância, deixo pra depois

Entre nós, há um largo oceano
e profundo, isento de enganos,
em pensares densos de desejos

Suas ondas, calorosas, quentes,
vindo à tona, todas displicentes,
dão-te, longe, imaginados beijos

DENSOS - Lena Ferreira – nov.13