quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

SÓ POR HOJE

Recolha, só por hoje,
as aflições que te agoniam
coloque-as num canto
sem água, comida ou vento


Estenda, então, teus braços
a quem te pede um abraço
e o nó que está no peito,
logo  se torna um laço


Visita o teu espelho
e ensaia um  sorriso
não pense ser conselho
é beirada de egoísmo


- também dele preciso,
sem sentimentalismo,
pra me sentir feliz, meu bem -


Recolha, só por hoje;
por hoje, amanhã e depois
e depois e depois também




SÓ POR HOJE - Lena Ferreira - dez.14


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

GRATIDÃO

Nem todo julgamento que condena
É feito por juiz ou júri honesto
Então, não se apoquente; vai pequena,
E leva esse sorriso em protesto


E a sensação de ter valido a pena
Cada palavra e cada um dos gestos
- como o frescor de uma  brisa amena,
tão boa que compensará o resto -


E assim, tranquila, abrace o novo ano
Sem juras nem promessas, só um plano:
Por tudo o que vier ter gratidão


Ciente do que o que nos acontece
Tem um motivo que se desconhece
E traz consigo sempre uma lição



GRATIDÃO  - Lena Ferreira - dez.14


AMPULHETA

Qual um punhado de farelo de centeio
o tempo escorre fino pelos vãos dos dedos
e não há como desvendarmos o segredo
- se existisse -, para colocar-lhe um freio


O vento sopra mesmo e, sem nenhum receio,
espalha o pó dos grãos do tempo e os seus medos
são semeados junto aos enganos ledos
em solo vasto e produtivo - e alheios


à essa trama, ao desperdício, aos desenganos,
andamos todos , insensíveis, sub-humanos
tentando refrear a areia da ampulheta...


...para ganhar grãozinhos dessas horas úteis
depois gastá-las com assuntos bobos, fúteis
enquanto, o que de fato importa, obsoleta -




AMPULHETA - Lena Ferreira - dez.14

sábado, 20 de dezembro de 2014

NO CENTRO COMERCIAL

Venho planejando, sem sucesso, um dia poder antecipar as compras de natal em, pelo menos, três meses. Sim, meu sonho de consumo! É que toda essa correria para os festejos de fim de ano sempre me afligiram. Lojas repletas, alvoroço, empurra-empurra, gritarias, dúvidas sobre o que comprar para cada um e o cuidado de não me esquecer de ninguém.  Passava sempre a  responsabilidade para terceiros, quartos, quintos. Qualquer um, desde que não fosse eu a  enfrentar a barbárie da comercialização pontual.
Este ano, apesar do mesmo tumulto, das mesmas situações, resolvi encarar todo o processo com boa vontade e disposição. Saí de casa cedo e sozinha, sem hora pra voltar e pude observar  em cada rosto a mesma ansiedade que carregava comigo. E como me fez bem saber que não estava sozinha em meio aos conflitos sobre o que comprar, se vou acertar na escolha, se o preço é justo, se, se, se...
 Mas sempre se tira algo de proveitoso em qualquer situação, basta treinar os olhos de ver, não é?  Pois bem, ontem foi um dia de treinamento intensivo.  E de aventuras pra lá de surreais, até para alguém acostumada com realidades inventadas, mirabolantes, como eu.  
Relato a título de memória, duas delas no mínimo inusitadas para estes tempos em  que vivemos, de tão poucos diálogos e econômicos gestos:


I -


 Numa dessas lojas de roupas femininas, lotada, passei do jeito que a condição me permitia, por um grupo de senhoras nervosas que disputavam uma camiseta branca já para o réveillon. Eu, corpanzil, esbarrei numa delas que irritadíssima, bradou: esse povo não tem educação! Podia pedir licença, né, minha filha? Cruz credo! Eu, hein... tsc tsc.
 Apesar da barulheira na loja, pude ouvir perfeitamente e consciente que a senhorinha, e com razão, se referia a mim. Poderia deixar pra lá e seguir meu caminho mas... Voltei o rosto em direção a ela que me encarou com um olhar fuzilante, armado e preparado para atirar ao meu revide. Que não veio. Olhei calma bem dentro dos olhos dela, me desculpei pelo ocorrido e falei que ela também não precisava ter falado daquela maneira comigo. Nem com ninguém. Ela, espantada com minha reação, desarmou-se e também se desculpou pelo tom usado, me desejou um feliz natal e tudo seguiu na mais perfeita desordem dentro daquela loja. Saí de lá sem levar nada comigo além da experiência, inédita até aqui. Não. Não fui beatificada pelo espírito natalino, não. É que se eu desse ‘corda’ à irritação dela, quem estaria irritada, remoendo a situação possivelmente até agora, seria eu.


II -


Já quase finalizando minha missão, com algumas sacolas na mão, entrei numa lojinha de bijuterias à procura de um colar vermelho para compor o visual do natal. Ousaria usar vestido depois de anos e anos repetindo a conveniência confortável  e acertada da calça jeans.  Mas o vestido me paquerou tão lindo e não resisti e até que ficou legal! Pois bem. Tarefa que parecia fácil, escolher um simples colar, rendeu-me a maior parte do tempo e, cheia de sacolas, era inevitável esbarrar em algo...Ou alguém. Eu e meus esbarrões.  Dessa vez, uma senhora muito gentil, delicada e educada, fina mesmo, recebeu o ‘encontrão’ com muito bom humor através do qual estabelecemos um agradável diálogo. Falou-me de sua  aventura no garimpo de ‘lembrancinhas’ para todos da família e amigos, vizinhos chegados. Costumava dar presentes bons mas este ano seria diferente, visto que sua neta casará em março e instaurara até lá o sistema de contenção de despesas.  E mostrou-me satisfeita o que conseguira na sua empreitada.  Mimos delicados e significativos. E pra completar, olhando-me nos olhos com doçura de avó, sentenciou: filha, o que importa não é o valor do presente. É o fato de fazer isto que estamos fazendo. Enquanto procuramos o presente, ou lembrancinha, estamos pensando na pessoa que será presenteada. Isso é o que importa de fato.
Pagamos nossas comprinhas e saímos juntas da loja. Ela, sorrindo sempre, desejou-me felicidades para o ano vindouro e retribuí com palavras de carinho acompanhadas pelo meu melhor sorriso.  Despedimo-nos com um beijo em cada mão e fomos, cada uma, para um lado da rua.

...

Poucas  horas mais, voltava para casa. Cansada, confesso. Missão quase cumprida. Certas pendências ficarão para a última hora. Sempre ficam. Como estas vivências aqui relatadas também ficarão e para sempre.  Deixei aquele centro comercial com a sensação de que estava aprendendo muito mais de vida, da sua simplicidade e grandeza, neste finalzinho de ano. E de maneira atípica; sem pressa, desarmada, leve e paciente. Santa? Louca? Ingênua? Não.  Aprendiz.  De ser gente, simplesmente.




NO CENTRO COMERCIAL - Lena Ferreira - dez.14


CONVITE

Agende isso:
a vida
lhe convida
para ser
viço




CONVITE - Lena Ferreira - 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

BORDADO

Sob o olhar de uma lua adversa
tecemos um bordado com nova postura
com fios finos de cores várias, diversas
e alinhavamos novos sonhos com ternura


Com um terno beijo, entre uma e outra conversa,
reafirmamos a antiga e eterna  jura
enquanto a noite, sem  sinalizar sua pressa,
recebe a madrugada, mansa, que murmura


Suas canções suaves, doces, tão macias
em notas calmas, de perfeita harmonia,
sopradas por um céu todinho estrelado


Também sem pressa, acordamos mais um dia
finalizando, ponto a ponto, a poesia
que bem combina com os detalhes do bordado




BORDADO - Lena Ferreira  - dez.14

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

ALÉM DO HORIZONTE

Amanhecer  vendo o  calmo  semblante
e esse  seu sorriso espontâneo e franco
me alegria, me faz confiante
e me reanima pra enfrentar o tranco


E esse compasso, bonito, sonante
e tão cuidadoso que imprime na fala
é como um mantra, é tão contagiante
que a passarada, pra ouvir, se cala


Permita o universo, que conspira
- para quem labuta, transpira - inspira
conserve sua vida por bom tempo


E um pouco mais e mais  porque é preciso
espalhar  a luz do seu  franco  sorriso,
além desse  horizonte que contemplo



ALÉM DO HORIZONTE  - Lena Ferreira -


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

DE NOVO

Falta bem pouco para que o ano termine e com essa 'deixa' do calendário, as promessas logo se assanham: parar de fumar, perdoar um desafeto, retomar a dieta, fazer mais exercícios, menos tempo nas redes sociais, sair mais, falar menos, ouvir mais, se estressar menos, dar, doar e doar-se  mais...
E vão se acumulando, engordando a fila, infinitas e infinitas promessas sob a jura de que serão cumpridas no ano que vem.
Promessas protocolares que aos milhares sabemos que não serão pagas a curto prazo. Nem a longo, pensando bem. É no passo a passo que a coisa acontece e uma, sem querer, vai puxando a outra e quando menos percebemos, deixamos de ser como não queríamos para sermos os mesmos, mas diferentes, melhores para nós e, consequentemente, para os outros.
Falta bem pouco para 2014 ir embora. Pouquíssimo mesmo. Mas, não precisamos deixar que ele se vá levando essa impressão de nós; meros espectadores, esperando que promessas, como num passe de mágica, resolva nossas questões. Sejamos ações. Sejamos mudança diária e contínua. Sejamos, nós, o novo agora para que na hora da virada possamos dizer sorrindo: feliz ano, de novo.




DE NOVO - Lena Ferreira - dez.14

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

VILLE BOLOGNA (à Ana Amélia)

Parti logo depois de ter partido
sem ao menos ter podido
deitar o meu olhar no teu olhar


Tão puro, tão negro e tão limpo
tão lindo e...tão lindo, lindo
luzindo mais do que o luar


Por ele, sim, quisera ter sido engolido


Parti partido por não ter podido mergulhar
nessa negritude pura e linda e limpa e pura
indo, indo, indo, indo, indo, indo...


- nos teus olhos de oceano naufragaria antes mesmo de zarpar -



VILLE BOLOGNA (à Ana Amélia) - Lena Ferreira - dez.14

NA SERRA

Daqui do alto
tudo embaixo se apequena
corpo e alma se asserenam
e a visão se torna clara


Daqui do alto
contemplo a paisagem amena
nada em volta me condena
e o meu coração dispara


Daqui do alto
tudo visto é poesia
tudo é troca e a energia
recebida é joia rara




NA SERRA - Lena Ferreira - dez.14 *

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

SINAIS

Era tarde. Horas altas. Após apontar as tantas faltas, abriu a porta gradeada que dava para a varanda e com passos decididos, cruzou o curto espaço que a separava do portão de ferro, preso ao muro já sem reboco, prestes a cair. Firme, empurrou a tramela e alcançou a rua comprida e escura. Consigo, levava somente a roupa do corpo e uma breve sensação de liberdade que há muito não experimentava.  Deixou a chave pendurada na porta, por dentro. A mala, desfeita, jogada aos pés da cama e, encostada à mesa do canto da sala, uma história incompleta a qual decidira não escrever mais. Respirou fundo e seguiu em frente sem olhar para trás. A cada passo dado, rememorava os dias, os meses e os anos entre planos desperdiçados e desenganos com os quais, consciente, permitia, pouco a pouco, se anular. 
Uma única lágrima ensaiou alisar o seu rosto magro por todo desgosto passado. Mas, passou e porque sobrevivera até ali, engoliu. Não seria a vez primeira. Mas, a última, jurara.  
Com os pés pesados pelo desgaste das idas e voltas, das tentativas inúteis de reescrever os capítulos e de alguns descuidos com certas grafias, as mãos tremiam e os passos eram diminutos. Assim, não conseguira chegar muito longe. Parou logo na esquina, diante de uma encruzilhada.
Enquanto descansava os pés, o pensamento caminhava na velocidade dos carros que, pelo adiantado da hora, ultrapassavam os sinais.
 Os sinais. Foram eles que a empurraram àquela decisão: palavras ao vento, frases secas, sem sentimento, muitos ‘sim’ querendo ser ‘não’, discursos vazios, em vão, desprovidos de gestos. E o resto, nem valeria a pena mencionar. Não mais.

(...)

Os sinais. Ficaram vermelhos; para os carros e para a velha história. Fim da linha. Ponto final.
Para ela, sinal verde. O sentido? Sentir e ir, além do papel, escrever um novo enredo e, sem medo, permitir-se à entrega ao papel principal.



SINAIS - Lena Ferreira - dez.14



*

meu versejar, entenda, não é diário
de adolescente, moça, que despeja
tristezas, frustrações e o que deseja
e, longe de ser extraordinário,


é verso que a mente fértil cria;
após observar certos semblantes
invento alguns enredos relevantes
que, tola, penso eu ser poesia


porém, não pense que, por isso, minto;
enquanto escrevo, é vivo o que sinto
desde o início até a assinatura


meu versejar é imaginativo
e mesmo dispensando qualquer crivo
aceito de bom grado o da loucura



- Lena Ferreira -




domingo, 14 de dezembro de 2014

AUSCULTA

Quando te pressinto auscultando o esquerdo  espaço,
já não mais me  disfarço; visto o meu melhor sorriso
e, de improviso, lanço mão de infantes gestos
como se fosse um maestro em testes de iniciação


Tonta em emoção,  revisto o antigo álbum de discos
e, sem temer maiores riscos, escolho o que mais aprecias
Em sintonia, escuto o sopro das mesmíssimas cifras
- as que nos decifram -, nos teus lábios e, tão de perto...


...que aperto os meus, enquanto idealizo o nosso beijo
tamanho é o desejo de  ver-me envolta nos teus braços




AUSCULTA  - Lena Ferreira – dez.14

sábado, 13 de dezembro de 2014

DÁDIVA

Dai o pão de cada dia
e a poesia que alimenta
dai o sol que acorda o dia
dai a fé que nos sustenta

Dai a força e a coragem
para seguir a jornada
que seguir sem ter bagagem
é ser livre na estrada

Dai a gota do sereno
dai o viço dos Teus olhos
dai amor em peito pleno
dai o viço nos meus olhos

Dai, à vida, a nova vida
dai, à morte, a nova morte
dai certeza à nova lida
dai firmeza à nova sorte

Dai o pão de cada dia
dai, à nossa poesia...




DÁDIVA  - Lena Ferreira - 

HASTE

à Celia Domingos - 


E por ser feita de verdades
conseguiu sair inteira
de onde  brotavam tempestades
e não foi a vez primeira

Onde a metade da vontade
rendeu a vida, carcereira,
ventou com graça e suavidades
e ternuras - tão brejeira -

Envergando as adversidades
quebrantou a seta certeira
que tentava ferir a felicidade
de quem não possui fronteira




HASTE - Lena Ferreira - 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

ASPIRANTE

Sentou-se com os cílios cerrados
para enxergar bem por dentro
tudo que corria por fora


E embora a pensassem
dormindo
acordava assim o seu centro


Sentou-se com sua alma de andanças
tão natural em leveza
- mas que o caos diário agita - 


Assim, sentiu bem no meio da palma
o seu frescor e a pureza
que a luz adentro  possibilita


- sentou-se esperança
e, aspirando toda a calma,
levantou-se criança -



ASPIRANTE - Lena Ferreira – dez.14


OUTROS TEMPOS

Houve um tempo em que uns precipícios
convidando-me a um cego salto,
seduziam-me (e eu, um ser incauto,
me lançava num  fim sem princípios)


Houve um tempo também em que uns abismos
atraentes com os seus tantos vãos
acenavam-me (e eu, poupando os nãos,
me entregava qual no romantismo)


Entre um tempo e outro, chuva forte
alagou estes olhos  - por sorte,
clareou-os e enxergar já consigo -


Outros tempos, é certo, virão
mas já posso contar com a visão
de que em mim é que mora o inimigo



OUTROS TEMPOS - Lena Ferreira - dez.14 *


CLICHÊ

Desconheço a receita de amar
a dose certa; colherada, gota, litros
mas nunca fui de homeopatias


Desobedeço prescrições
desconsidero
possíveis contraindicações


Sei do seu peso; leve
e com sua leveza, cabe até no descabido
e, onde encontra brecha, faz seu abrigo


Não sei ao certo se ou o quanto sou amada
esta é uma dúvida que não me arrasta


- o simples fato de sentir que estou amando 
é o que, verdadeiramente, me basta -



CLICHÊ - Lena Ferreira - dez.14



quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

ELEITOS

Líquidas, as canções da madrugada
deslizam perenes pelo escuro do quarto
e, com seus sussurros ternos, muitos, vários,
acariciam levemente cada canto oculto


Acordam as lembranças já dormentes
conversam com os poros, peles e pelos
e, despertando os instintos verdadeiros,
desatam os nós dos sóis; juntos, e sós


E, enluarando-os, espraiam pela cama
a chama que, nos dois peitos, andava fria
- e, apagando os passinhos dos ponteiros,
elegem os primeiros nessa nova sinfonia - 





ELEITOS - Lena Ferreira - dez.14

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

VIGÍLIA

Por quanto tempo mais, eu me pergunto,
cultivaremos esse absurdo hiato
esse silêncio indiscreto, essa distância segura
que mais aproxima do que nos afasta


Por quanto tempo mais? Penso que basta...
Há tanta espera daquelas frases benditas
e nós permanecemos nesse bobo impasse:
se nada lhe digo, nada, nada me fala


Por quanto tempo ainda em solo impróprio
se apropriará do meu melhor verbo?
Talvez me canse, talvez se canse
talvez o meu alcance seja limitado


Tão distintos, sim. Tão mais profuso
e tão diverso; rimas, eufemismo, dicionário
eu, de tão rasa e confusa, me policio
temendo esbarrar nos seus cristais


Então, seguirei minha sina, secretamente
catarseando hipérboles em versos vagos
e, tropeçando em certos verbos brancos,
vigiarei a semente, silente e discreta


- aguardando o instante em que a casca se rompa  
e de lá verdejem falas macias e abertas -



VIGÍLIA - Lena Ferreira - dez.14



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

DO QUE DISTA

Do parto até o nascimento
há chegadas e partidas
há vãos estacionamentos
há acenos sem despedidas


Há tentativas e fracassos
há silêncios e fala excessiva
de  braços querendo abraços
mas, do orgulho, não se privam


Há chuvas e tempestades
há terremotos, poças d’água
há céu limpo, em claridades
enxugando a gota-mágoa


Há caminhos e descaminhos
há frutas, flores e folhas
há cheiros, gostos, espinhos
há dúvidas, certeza, escolhas


 Há sombra para o descanso
há escaldantes desertos
há recuo e passos em avanço
há sábios, ingênuos e espertos


Há brisa e há forte vento
há guerras e também há lutas
há paz - a que nasce de dentro
e não se conquista à força bruta -


Há tantas palavras inúteis
como estas que agora digo
que ganham o status ‘fúteis’
se não lhes faço de abrigo


(...)


Há fagulhas de entendimento
dando-me a noção da medida
que dista o parto do nascimento:
a maneira de olhar  para a vida



DO QUE DISTA - Lena Ferreira  -  dez.14



VENTO VELHO

Vento, velho aventureiro,
com seus pezinhos miúdos
vai cortando, ao meio, mundos
lançando um olhar zombeteiro


Pela estrada, vai certeiro
vai levantando do fundo
sentimentos tão profundos
e suspiros derradeiros


Deixa rastros no caminho
deixa marcas, sinais tantos
- deixa vincos, sulca risos -


Vento, velho, não tem ninho
mas, ao longe, escuto o canto
numa voz que não preciso



VENTO VELHO  - Lena Ferreira -

sábado, 6 de dezembro de 2014

A PORTA

Há tempos, a porta do armário do quarto dava sinais de desgaste. Rangia, travava, recusava a chave e ameaçava cair. Ela, fingindo que estava tudo bem, não recorreu ao marceneiro, amigo que ofereceu serviço gratuito. Recolhia as roupas do varal, dobrava-as sem grandes cerimônias e entulhava-as pelas gavetas abarrotadas. Os cabides pediam clemência, tantas peças em desuso. Fechada a porta, nada era visto afinal. E assim, seguia nesse adiamento. Até que...
Ao tentar abrí-la, como num ato de revolta, a porta caiu pesada no seu pé direito. Um urro estridente e dolorido ecoou pelo quarto. Pela casa. Pela rua. Quase arrancou-lhe uma das unhas, a do dedão. Deixou no ar uma palavra que recuso pronunciar. Não por castidade.
Aliviada a dor primeira, colocou a bendita num canto e só então percebeu, de verdade, a desordem de dentro. Caos. Absurdo. Descuido. Desleixo.
Deu as costas a tudo aquilo e foi cuidar do dedo que sangrava. E muito. Enquanto isso, pensava em como seria olhar para aquele cenário sem disfarces pois o amigo não estaria disponível por um longo tempo e ela não dispunha de recursos para contratar um outro profissional. Cogitou em colocar uma cortina mas...Refletiu. Já era hora de por ordem em tudo aquilo de dentro. Livrar-se dos excessos. Reorganizar as gavetas. Dar o que não mais servia. Doar o que até ainda queria mas como apego a um passado que não mais valia. Para outros, sim.
E assim o fez. Com um tanto de dor, é certo, pois a pancada era muito recente. Mas, não fez-se refém. Antes assim. Há males que vem para o bem.



A PORTA - Lena Ferreira - dez.14

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

BASTANTE

Que me baste
essa brisa mole, leve
que  beija, breve, meu rosto
suavizando a insana vontade
de agarrar cada ponta do vento


Que me baste
esse sol matutino
a temperar minha pele
sufocando a necessidade
de provocar vulcões adormecidos


Que me baste
este verso mal escrito
a acariciar o meu pensamento
silenciando esse desejo incontido
de fazer ouvir os meus rasos lamentos


Que me baste
esse instante breve
sussurrando baixinho
que quando se perde uma batalha
nem sempre significa que fomos vencidos



Que me baste...


BASTANTE   - Lena Ferreira - dez.14

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

VENTANTE

Vento vasto, varre e verte
vozes de sonhar ao longe
leva meu pensar, e breve,
a atingir picos e montes


Vento vibra, a voz inverte
arremessando promessas
atingindo a mente em greve
açoitando vãs remessas


Vento venta, fortemente
assassinando torturas
libertando toda mente
que se esquece na clausura


Vento avisa e brisa a folha
sacudindo o pó da escolha




VENTANTE - Lena Ferreira -

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

OS OLHOS DE BIA

- à Bia Cunha -


Os olhos de Bia
liam Mia, de Barros, Clarice
liam tudo aquilo que vissem
liam a vida na vaga do verso


Os olhos de Bia
viam tudo de dentro pra fora
viam tudo; chegando, indo embora
e faziam, de ver, um universo


Os olhos de Bia
eram olhos de um verde outono
nem por isso criam no abandono
e o vento ventava-lhe a paz


Os olhos de Bia
tinham um brilho assim, transbordante:
eram dois risos contagiantes
era um olhar de querer  sempre mais




OS OLHOS DE BIA – Lena Ferreira – dez.14

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

FREE

Saí de casa com uma única intenção: ir à padaria comprar quatro pãezinhos e dois maços de Free, a liberdade que me prendia. Atravessei o portão da vila e o céu de dezembro me recebeu inteiro prometendo um verão escaldante. Aproveitei o embalo e respirei fundo, esquecida das tarefas mesquinhas deixadas pra trás: almoço por fazer, roupas no varal e escolher o guarda-roupa para a reunião à tarde. Distraí-me contando as árvores da calçada que foram plantadas no ano passado e já nos brindavam com cachos e cachos de floração arroxeada, lindos. Seguia tranquila e já próxima ao mercadinho da esquina, lembrei que faltavam algumas frutas e legumes. Entrei e estava razoavelmente vazio. É daquele tipo de comércio onde todos se conhecem pelo nome; dos funcionários aos clientes. Cumprimentei o gerente que tem um lugar cativo numa bancada perto da entrada. Digiri-me à seção de hortifruti e rapidamente escolhi o que precisava. Pouco, pois ali o preço exorbita, aproveitando a facilidade e a  proximidade da clientela.
Enfim, a fila do caixa. Três pessoas na minha frente. Espero. Enquanto isso, uma voz calminha comentava: tão cedo e já tão quente. Virei-me para identificar a figura por trás da voz e uma senhorinha de baixa estatura, mais baixa até do que eu - vi que é possível - me sorriu mostrando os poucos dentes que restavam. Nunca havia visto um sorriso tão franco como aquele. Falante, era do tipo que contava a vida inteira em menos de dez minutos e assim, fiquei sabendo de onde trabalhou, de como conheceu o marido, de onde morava e de quantos anos tinha. Nessa parte, seus olhos brilharam ao me apresentar a pergunta: quantos anos você me dá, mocinha? Arrisquei uns 80, mas temendo ser menos porque, de fato, não parecia. Pois bem, sacou sua identidade e me mostrou com orgulho o documento onde constava a extraordinária e inacreditável data - 13/05/1891. 103. Cento e três anos! Dizia alto e com mais orgulho ainda: meu filho mais velho tem 81! Mas confessou-me uma tristeza. Uma vontade insistente em morrer e que fosse dormindo, sem sentir. Perguntei o motivo e respondeu-me que estava cansada de ir a funerais de entes queridos. Sua expressão eufórica se transformou ao relatar isso. Deixei que ela retomasse o papo, no tempo dela. A fila andava devagar porque, mercados assim sempre rendem conversas entre as operadoras de caixa e clientes. Uns comentando sobre o tempo, outros reclamando do preço, outros trocando receitas...
Refeita, dona Nice - era assim que gostava de ser chamada - contou-me da última perda familiar. Sua irmã caçula, embolia pulmonar. Morrera no colo do marido a caminho do hospital, dormindo. Fumava muito, dizia. Fumava, não. Comia cigarros!  As últimas frases me incomodaram. Não que desconhecesse os malefícios do fumo mas dito assim e justo naquela hora... Confessei-lhe meu vício. Ela me olhou com um arzinho de doce censura dizendo: mocinha, não faça mais  isso. Já fumei também e sofri os seus efeitos. Parei. Pare também.
Baixei minha cabeça. Não por vergonha mas para não encarar aquele rostinho tão meigo e tão vivido e tão cheio de razão.
A fila andou mais um pouco e chegou a minha vez. Cedi a ela que agradeceu. Carregava alguns biscoitos, macarrão, duas latas de sardinha e três pacotinhos de pó para refresco. Disse que não era para ela. Ia levar aos seus amigos do Clube dos Paraplégicos que fica ao lado da padaria. Era para lá que se dirigia todos os dias pela manhã para distraí-los e distrair a sua própria solidão. Pagou a conta e antes de sair, deu-me um abraço calmo e um beijo demorado na testa. E ao pé do meu ouvido, disse: se quer parar de fumar, basta não comprar. E se foi sob meu olhar atônito e admirado. Passei meus itens pelo caixa, coloquei-os na sacola e paguei. Saí do mercadinho em direção à padaria. De lá, trouxe um pacotinho com quatro pãezinhos. Hoje, a liberdade não foi comprada. Hoje, não.




FREE - Lena Ferreira - dez.14

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

OLHAR DESCALÇO

Com um  olhar descalço e desnudo
andava livre por este mundo afora
umas vezes falante, em outras, mudo
vez ou outra estacionava e, com demora,
bebericava os detalhes da paisagem
de gole em gole, sorvendo as delícias
desses lugares e guardava na bagagem
juntamente com as anteriores notícias


Embriagado, sentava quieto num canto
e rabiscava todas as suas impressões
em versos vários e distribuía um tanto
pra que o vento ventilasse suas emoções
-somente então outro porto escolhia   
para embarcar em mais uma viagem
onde seu olhar desnudo em tudo via  poesia
e descalço, lambia, inteirinha, a paragem-



OLHAR DESCALÇO – Lena Ferreira – dez.14


domingo, 30 de novembro de 2014

NO QUINTAL

 Desde muito pequenina que esta mente, campo fértil, pegou delírio. Deitada na grama estreita que quarava roupas no fundo do quintal, contava as inúmeras vezes que as nuvens mudavam de forma e ficava por incontáveis minutos, distraída e só, imaginando danças de núpcias, funerais, vida e festas, folguedos e muito mais...
De quando em quando, o vento mudava o enredo e lá ia eu para outro delírio. E, só.
 Voava em pensamento com as pipas coloridas que salpicando o céu de dezembro, lambia-o com suas rabiolas-bailarinas e quando eram ‘cortadas’ após um duelo coreográfico, meu pensamento ia encontrá-las no suposto lugar da queda, acarinhando as ‘feridas’. Mas logo seguia em outra viagem.
Olhava para o jardim ralo que, cercado por um canavial, assustava muita gente. Para mim,  nunca foi um jardim somente. Era o mundo inteiro que eu  conhecia e era imenso e me pertencia. As árvores eram minhas irmãs e confidentes. Ouviam pacientes, segredos e medos infantes e respondiam sempre solidárias, com frutas e flores e silêncios.
 A cerca em frente ao quintal, feita de bambu, era meu limite. Poucas vezes, ultrapassei sozinha. O máximo era me esticar para espiar os piques e as  gudes dos meninos.  Não me apetecia o além daquele espaço conquistado pouco a pouco, dia a dia. Naquele quintal, todos me conheciam, desde a pedra que descansava ao lado do poço até as borboletas dos fins de tarde. Saudavam-me cordialmente e eu cordialmente respondia.
Tecíamos comentários e impressões diversas sobre tudo um pouco do que acontecia naquela vidinha agitada só nossa e inspirados inventávamos histórias, estórias,  romances, finais felizes.
Quem ouvia nossas conversas, corria a contar para os quatro ventos: essa menina endoideceu de vez!
Então, vovó Binda que cuidava de mim e de mais seis netos, preocupada, contava para o papai que, nervoso, falava com mamãe que, atarefada com suas encomendas de costura, dizia: deixa a menina. Crescendo, passa.


(...)


- ...quem sabe, um dia. –




NO QUINTAL  - Lena Ferreira  - nov.14

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

SEM MAIS

Um dia, saberás dos desmotivos
e quando o acaso acontecer  pressinto-te em espanto
ao concluirdes que a loucura que supunhas habitar-me
vai muito além do que pudeste pressupor


Não encontrarás nenhuma pontinha de orgulho ou medo
ou pretensão no labirinto que, calado, adentrarás
ou nesse nada raso e vasto como me julgas  em vazio
à imensidão dos que consentem. - um dia, saberás dos desmotivos;
teus olhos vívidos logo verão e identificarão os raros sinais –


Sem mais por hora, o que me resta é essa espera  sem ais.




SEM MAIS - Lena Ferreira- nov.14

CONFIA

- Em memória ao meu ''vô'' José Ferreira -



Possuía o dom inexplicável de aquietar-me a ansiedade. Sentava-se ao meu lado e, como quem nada quisesse, recolhia minhas mãos ao seu peito e com um jeito particular e delicado, roçava os seus magros dedos no vão dos meus. Ficávamos assim por horas, num silêncio oportuno, desprecisados de palavras e gestos. Às vezes, um vento estranho e torto passeava pelos quintais da minha distraída mente, despertando medos vazios e tolos. Era o suficiente para que brotassem estrelas pequeninas e cintilantes nos meus olhos, prestes a escorrer pelos cílios. Ele intuia sempre esse tal vento em desvario vário e antes que a constelação despencasse, rompia seu silêncio solidário com sua voz de algodão que enchia o ambiente  numa só palavra: confia.
Com essa sinalização, respirava largo e fundo e engolindo a cintilância das estrelas, extinguia o gosto amargo do pensar no que não devia. O silêncio então voltava a se sentar entre nós dois e com as mãos dormindo no seu peito via, em tudo, um novo jeito. Despida de agonias e vestida de confiança, fui bordando no tecido da lembrança, o silêncio tão preciso que propôs.
Hoje, seu silêncio é luz. E o vento, o mesmo vento em desvario, sopra ainda e ainda canta e, às vezes, grita. Mas, quando o ouço, levo as duas mãos ao peito do mesmo jeito que ele fazia. Respiro fundo e bebo em pensamento um gole largo da palavra que me oferecia: confia.



CONFIA - Lena Ferreira - nov.14

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

ROGO

(...)aflição de te amar, se te comove e sendo água, amor, querer ser terra" - Hilda Hilst -


E sendo mar, assim tão inconstante, adormeço nas ondas densas de afagos enquanto rogo aos deuses, santos e pagãos:  - Misericórdia, misericórdia! Faz-me terra, um porto um tanto mais seguro. Asseguro-vos que assim sendo, sendo assim, entenderei a pulsação que vai na palma. E que amar é qual  sereno, leve, leve. É  brisa, brisa fresca  e constante. É alma mansa e não essa tempestade febril e enfermiça  que cansa e eriça os  nervos em alarde. E arde à flor da pele. E inflama a calma, tornando irritadiça toda a lava que ia adormecida, afastando possibilidades; as possíveis e as improváveis.
Misericórdia... Faz-me terra e, devotada, apagar-se-ão as chamas que consomem este meu mar. Faz-me terra, passos firmes, resolutos, já que luto pela calma em tanto amar...




ROGO – Lena Ferreira – nov.14

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

CONCEPÇÃO

Hei de fazer-te um poema
mesmo que, quando o leias, desidentifique-te
absurdando pelas imagens propostas
supondo-me em loucura ao concebê-las


Terão estrelas, como esses teus  olhos de enigma
que gotejam em cada um dos cheios versos
seduzindo as nuvens macias
enfeitiçando toda a passarada


Serão aladas todas as letras
e voejando, soltas e leves
circundarão o teu pensamento
percorrerão artérias e veias


Terão sereias, tritões, ondas e ondas
e no mergulho em vivas águas
respirarás um ar mais do que puro
expirarás mais e mais poesia


Será o dia mais que perfeito
o dia em que este poema conceba
somente assim asserena este peito
mesmo que ao lê-lo, nada  percebas


Hei de fazer-te um poema...




CONCEPÇÃO – Lena Ferreira - nov.14



RIMAS SECRETAS

 As coisas que não dissemos
- supondo-as subentendidas -
descansam nas entrelinhas
dos versos engavetados


- mas, na vaga da alma, roçam -


Pergunto se há quem possa
destrancar essas gavetas
e, em minuciosa e sã leitura,
esmiuçar as secretas rimas


- só um silêncio extenso me responde -


Pergunto, então, quando e onde
perdemos a sintonia:
-Perdemos a sintonia?
mas a resposta se esconde


Pudesse, trocava as chaves
por beijos de maresia
e, despida de garantias,
deitaria as rimas mais secretas
nesses teus lábios finos de gosto grave




RIMAS SECRETAS – Lena Ferreira – nov.14

COMUNHÃO

O verso ouviu o vento e estremeceu
temendo ser levado a um canto escuso
temendo pelo modo inconcluso
com o qual a pena frágil o escreveu


O vento, percebendo o medo tanto
do verso, se achegou e mansamente
soprou em suas letras docemente
aquietando a febre e o quase pranto


Dizendo, com cuidado e com carinho:
te levarei comigo por caminhos
distintos, diferentes; bem diversos


Dá-me tua mão sem medo; só confia
assim como quem ama, a poesia
é comunhão, pertence ao Universo


COMUNHÃO – Lena Ferreira – nov.14


ESTERNO

É com os dedos delicados de reserva
que asseguras o pulsar no teu esterno
tão secreto e tão bem cuidado
quase, quase, quase indecifrável
não fosse essa calma de ensaio
e esses olhos moles, moles, moles
afogados numa espera eterna
- eterna, eterna e terna espera -
por quem partiu em suave desaviso
e numa dessas noites de lua adversa
seguindo os passos das dúvidas certas
levou sua sombra, deixando úmidos rastros:
um poema manuscrito e inacabado,
o vento solícito dos desassossegados,
o pó suspenso e irritadiço da saudade
e o caos instaurado no esquerdo canto


- que o teu externo quase bem disfarça -



ESTERNO - Lena Ferreira  - nov.14



ELA

 Em cada alvorecer, caminhava
como se flutuasse por um céu gentil
emprestando, ao caminho ternura
distribuindo sorrisos amenos
aos que passassem por ela


Saudava os passarinhos em voo pleno
beijava o perfume das flores entreabertas
e quieta, espalhava o pólen, fértil,
em outros quintais desnutridos


Ao sol do meio-dia, breve pausa
para embriagar-se de vento


Descansada, leve então seguia
à tarde, ao encontro da brisa
distraindo-se entre os arvoredos
com seus medos infantes e segredos


E seguia, sempre nua, sempre lua
ao encontro da noite e, serena,
bordava sonhos no manto escuro
até a próxima alvorada




ELA – Lena Ferreira – nov.14

ABISMO

Há um abismo imensurável que nos separa
e no seu fundo, desliza um rio límpido e largo
águas de curso perene
onde as margens se debruçam silentes
e observam o desfile de secretas vontades


Vez por outra me precipito e sorvo fartos goles
de sua nascente virgem e tão tranquila
na tentativa aflita de acalmar a ânsia
que me priva de saliva a língua

Em vão...

-só faz alimentar-me a sede. –




ABISMO – Lena Ferreira – nov.14

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

INTIMIDADE

A primeira vez que o vi,  foi um espanto;
suas ondas atritando com rochedos
despertaram um misto de fascínio e medo
e a maciez em espumas, quanto encanto!


A segunda vez que o vi, como um acalanto
suas ondas iam e vinham ao meu encontro
e ninavam o pensamento ainda não pronto
que agitava a pulsação do esquerdo canto


A terceira vez que o vi e as outras tantas
numa intimidade que só se agiganta
mergulhei nas suas águas sem receio


Das marés que lhe visitam em alternância
e das luas que lhe ditam a inconstância;
faço meu o seu princípio, o fim e o meio



INTIMIDADE - Lena Ferreira - nov.14


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

SUPOSIÇÕES

Tentou adivinhar o meu desejo
embora estivesse tão distante
alheio ao que eu sinto e ao que vejo
sem precisar o que me é constante


E nessa tentativa, o julgamento
pesado veio a me cobrir os ombros
mas a benevolência de um vento
o espantou e junto, foi o assombro


E na leveza que o vento me deixa
deslembro o motivo do qual se queixa
e sigo o meu caminho como quero


Inútil é insistir provar o que seja
a alguém que os meus olhos nunca veja
e só suponha o que da vida espero



SUPOSIÇÕES - Lena Ferreira - nov.14

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ETERNAMENTE

Ouvi chamar pelo meu nome e era o vento.
E era o vento com sua voz macia e doce.
E era o vento, mas quisera tanto fosse
Um outra voz; a que preciso no momento.
                                      
Ao seu chamado, respondi: volte mais tarde
E por favor, traga consigo a presença
Dessa outra voz que necessito e que me pensa
Já esquecida de nós dois e assim resguarde

Suas palavras, seu olhar, silêncio e gesto.
E é por isso que meu nome eu lhe empresto
Para que sopre mansamente em seu ouvido

Estes meus versos que, nascidos num rompante,
Me denunciam a eternamente amante
Que morreria antes de tê-lo esquecido...




ETERNAMENTE – Lena Ferreira – nov.14

domingo, 16 de novembro de 2014

CONTROVERSO

Enquanto escrevo, traço itinerários diversos
onde rabisco soluções aos descaminhos
nas entrelinhas dos pretensiosos versos.

Em pensamentos quase sempre tão dispersos
letras tortas dizem o que não adivinho;
que só residem num inverso controverso.

Enquanto escrevo, embora acordada, sonho.
E quando durmo, a realidade recomponho.



CONTROVERSO – Lena Ferreira – nov.14


sábado, 15 de novembro de 2014

NO ATO

Na cadência de suados suspiros
o aroma de uma primavera inteira
exala pelos poros dos corpos-de-lírios...

...que, no ato, desabrocham.



NO ATO - Lena Ferreira -

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

REDESCOBERTAS

Ah, esses seus olhos de coberta
Emprestam-me o calor de dois verões
Quando transitam pelas minhas estações
Até re-pousarem no fundo dos meus, quietos


Ah, esses seus olhos de coberta
Quando bendizem a palavra sacrossanta
Num afago cílio a cílio, me imantam;
Flutuo num cômodo conforto aberto


Até re-pousar nos seus braços
E nesses olhinhos de coberta
Que põem os meus instintos em alerta
Despindo cada um dos meus pedaços


Ah, esses seus olhos de coberta
Aquecem-me em tantas redescobertas...



REDESCOBERTAS – Lena Ferreira - nov.14

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

SOLIDÁRIO

É com os ouvidos na palma que escuta,
atento, as confidências e os lamentos
quando essa alma enluarada se agita;
se o discurso é sangria, pra quê contê-la?


Então, com os braços da alma, acalma
as tensões de mais um dia entre conflitos
no seu colo manso, tempestade e ventania
logo se esvaem; pra quê retê-las?


E enquanto a madrugada em passos leves
passeia entre as calçadas de estrelas,
instaura em mim a calma, ainda que breve...
- logo adormeço sonhando em mantê-la -



SOLIDÁRIO - Lena Ferreira -

terça-feira, 11 de novembro de 2014

SEU NOME


Seu nome tamborila no meu mar inteiro.

Saltitando nessas ondas de frágeis espumas,
constela-me estrelas com seu hálito de maresia
num afago aos cabelos recobertos de luas minguantes.

Bronzeia-me a pele da alma com seus dedos delicados de sol
e, sorrindo ao meu bobo sorriso, descongela-me a timidez.

Então, ousa...

Na sensatez de um oceano vasto em marés que me consomem,
abraça-me os lábios antes mesmo que eu consiga pronunciar...

...seu nome.



SEU NOME – Lena Ferreira – nov.14

domingo, 9 de novembro de 2014

VALSA

É doce e aflito o pulsar que ora me chega
por esse vento que me vem de longe e, leve,
vem e reclama as feitas frases fracionadas
vem insistente num compasso claro e vivo
vem sussurrando em sibilantes aliterações

Como orquestrasse uma valsa vienense
os seus acordes rodopiam pelos rubros salões,
incitam intensas vibrações nas doidas cordas
e acordando as sensações então dormentes
valsam-me enquanto verto em verso ebulições


VALSA – Lena Ferreira – nov.14

sábado, 8 de novembro de 2014

DESSAS NOITES

É dessas noites que eu te falo, arfante,
quando, em galopes sussurrados e macios,
fundamos vales e escalamos colinas
bebendo a sede descoberta em cada curva

É dessas noites em que o suor é quase chuva
e, lavando o cansaço da rotina em linha reta,
desperta as ousadias mais secretas que te falo
arfante, coberta por um sol que nunca dorme

É dessas noites em o desejo é enorme
que falo, arfante, acordando instintos esquecidos
para que a calma, vez ou outra, perca o juízo
e, sem prejuízo, morra no vão do nosso abraço



DESSAS NOITES - Lena Ferreira - *

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

CIRANDA

Despeço-me acenando para a tarde
Nas mãos, levo um tecido leve e fino
Com o qual um vento, livre tal menino
Brincando, agita-o com enorme alarde.

Meus olhos, vivos, cheios de sorrisos
Assistem, alegres, a infante cena
A alma, pouco a pouco, se asserena.
-um bem que, há muito tempo, eu preciso-

A noite vem descendo em tom suave
Permitindo que a cena inteira grave
Pra reprisá-la paulatinamente.

Então, meus olhos fecham as cortinas
Enquanto as estrelinhas, tal meninas
Cirandam a lua cheia, alegremente.


CIRANDA - Lena Ferreira - nov.14

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

COMPROMISSO

Por cada riso e cada ponto
por cada lágrima vertida
por cada vírgula e cada encontro
por cada dúvida invertida

Por cada nó e cada abraço
por cada ‘nós’ em cada aperto
por cada linha e cada traço
por cada certo e desacerto

Por cada longe feito perto
por cada passo e descompasso
por cada cumprimento aberto
por cada antigo e novo laço

Por cada dobra de conquista
por cada vinco ultrapassado
por cada presente na lista
por cada um que esteve ao lado

Por cada cisma e cada sismo
por cada abalo e cada tombo
- bem na beirada do abismo,
pra cada susto, houve-me um ombro

Por cada vida em cada vida
por cada risco e cada corte
por cada adeus sem despedida
por cada desrumo do norte

(...)

Por cada um de tudo isso
e um pouco mais de desrazão,
é que entendi o compromisso
de agradecer sem distinção




COMPROMISSO - Lena Ferreira - nov.14 *re



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

NÓS

Eu, coberta de ausências claras,
descubro-te nas faltas raras
desnudo de explicações.

Tu, liberto da desculpa frágil,
descobre-me em excesso ágil
desnuda de ponderações.

Nós, distintas linhas, em sequência
cobrimo-nos com as consequências
das mais desnudas sensações.


NÓS - Lena Ferreira - mai.14

terça-feira, 4 de novembro de 2014

VELHO MOÇO

Conheço-te somente de vista
de uma vista que bem pouco alcança
é certo
mas
o que não vejo perto me entristece tanto;
magro, seco,estéril e impotente
incapaz de alimentar a sua prole
e não pelo peso da idade


Não tenho conhecimento de causa
-dirão-
mas sei do orgulho que te movia
desfilando vasto e fértil
e hoje muito me comove
vê-lo à míngua
sem língua e, sem fala,
calou-se a fartura do leito
onde a margem é toda falta


Ah, Chico, velho moço
que antes corria solto no fundo de tantos quintais
hoje, apenas, a penas, se arrasta;
é onde se alastram a fome,
a sede, o descaso, a penúria
alimentadas por secas lágrimas
...e muitos ais



VELHO MOÇO - Lena Ferreira - nov.14

MAIS QUE VERSOS

Ele caminha sob a noite enluarada
tem como abrigo um céu coberto de estrelas
no pensamento, nada mais que sua amada
e o desejo de poder, nos braços, tê-la


Caminha calmo na certeza do encontro
sem se importar com a distância percorrida
leva no peito um poema quase pronto
onde o desfecho é, da amada, a acolhida

Ele caminha e a noite também caminha
e a cada passo, a certeza mais se aninha
na alma que no amor distante ainda confia:

Quando chegar, nem notarão o seu cansaço
os dois serão somente um, num terno abraço
e, mais que versos, serão uma poesia


MAIS QUE VERSOS - Lena Ferreira - nov.14

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

ENTRE

Enquanto a alma sobra solta no corpo amanhecido
palavras, gentilmente, vão encaixando-se no meio
de um vão entre as teias e as veias tímidas ainda
que levemente pulsam e brevemente pausando...

...acordam o coração da inspiração que, em resposta,
injeta o sangue novo, aquarelado, no sistema circular,
percorre artérias, acelera o pulso, alarga os olhos que se alagam
e expande a emoção por todo o corpo que desperta

Uma das mãos tateia o leito virgem e branco
e enquanto a outra prende a pena entre os dedos,
a cena que se empoça no olhar que ora mareja
goteja e cada gota imprimindo sensações...

...desenha emoções entre as palavras.


ENTRE - Lena Ferreira - mai.14

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ACONCHEGO


No aconchego do teu abraço
esqueço-me dos dias urgentes, dos dias aflitos
em busca insensata
e do encontro-conflito com a dama ingrata
que usurpava a razão - paixão, hoje, não...

Enquanto sussurras tuas ternas juras
de amor eterno - enquanto dure - ao pé do meu ouvido
a calma abraça a minha alma
e avisa-me do amor manso e sincero
que há tanto tempo espero
para o meu coração...

No aconchego do teu abraço
- coberta de carinho - descanso o cansaço
das buscas inúteis e urgentes,
descanso serenamente
nesse confortável ninho
bordado por uma calma sensação...


ACONCHEGO - Lena Ferreira - 


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

BIGAMIA


Percebo um silêncio que, mansamente, flerta comigo desde que a minha alma amanhece até que eu anoiteça. E, mesmo sabendo-me casada com a inquietude, insiste; sorri das queixas vazias, dos risos bobos, dos lamentos fúteis, das fúrias breves e euforias largas. Sempre, sempre com um sorriso miúdo, refrescante e sedutor.
Ando pensando, seriamente, em render-me à sua proposta: calar o tempo, observar um tanto mais de tudo o que se passa antes de libertar o verbo da garganta. Antes de por a língua em cena. Antes de por o mundo a perder. Antes de...
Ando pensando em reservar a ele, pendurado no céu da minha boca, a palavra sacrossanta loucamente profanada até aqui. Quem sabe assim, travemos uns diálogos mais macios...Quem sabe, então, a compreensão desça com calma dos céus...
Talvez assim, os véus que cegavam a razão, se extinguam e os olhos enxerguem o que antes se revestia de mistério. Com os poros, peles e pelos entregues a esse apelo silente, os lábios quietos, alimentar-se-iam de mais vida e poesia; essa é a promessa...
Enfim, decido. Render-me-ei a esse silêncio que me sonda, diuturno. Aceito seu cortejo tão galante, refrigério que antes me constrangia. E, antes que alguém pense em adultério, aviso que a inquietude concordou com a bigamia.


BIGAMIA – Lena Ferreira – out.14


domingo, 26 de outubro de 2014

EU NÃO SOU FLOR QUE SE CHEIRE

Eu não sou flor que se cheire;
sou flor que o perfume exala
quando ouve e sente a fala
delicada, mansa e sincera

Não sou flor de primavera
sou de todas estações
suportei vários verões
e a dureza dos invernos

Sempre com um sorriso terno
mesmo na adversidade
não por mera vaidade;
questão de sobrevivência

Não sou flor de quintessência
nascida num solo seco
flor que careceu de esterco
flor que não suporta vasos

Flor que tem os olhos rasos
tem amor à poesia
tem coragem e, noite e dia,
tenta o ajuste da essência


EU NÃO SOU FLOR QUE SE CHEIRE – Lena Ferreira – out.14

sábado, 25 de outubro de 2014

TARDES DE OUTUBRO


Nessas tardes de outubro, cai a chuva sobre as flores. É o céu que se comove diante de tanta beleza que a natureza apresenta e alimenta os olhares do mundo.
No cenário que vislumbro, cada gota representa uma lágrima sincera desse céu que, comovido, verte a sua gratidão por mais uma primavera.
Nessas tardes de outubro, sinto o quanto vale a espera e, num suspiro mais profundo, em cada gota, em cada respingo, lavo a alma e o coração e um novo perfume descubro...

TARDES DE OUTUBRO – Lena Ferreira - out.14

ADERÊNCIA

Eflúvios de proporções cristalinas
vestem os vários mergulhos de nós
entre espumas rutilantes e fartas
entre os afagos calmos e precisos

- pelos cantos contidos dos apelos
pelos veios ocultos e distintos -

Aderem peles, poros, pelos e, impudicos,
entregamo-nos, inteiros, ao momento
deslocando esse tempo que morre
lento, vagarosamente lento e só

- pelos cantos do cômodo conforto
pelos meios improváveis do instinto -

Nessa mansidão demorada e morna
pétalas de estrelas purpurinadas
orbitam entre as imensuráveis delícias
perfumando promessas impossíveis


 ADERÊNCIA - Lena Ferreira -

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

FILTRO

Aprender a filtrar o que se ouve e o que se diz garante-nos um pouco mais de energia para saborear o dia, a semana, o mês, o ano, a vida! É um exercício contínuo e árduo, sim, no começo mas dominada a 'técnica', fica mais fácil e tem valido muito a pena. Entender que nem tudo o que nos enviam precisa ser recebido, poupa-nos de desgastes desnecessários. Se aceito, passa a ser meu. Descarto. Há tanto de bom e de bem para ser vivido e que é servido minuto a minuto que se ocupo as mãos com o que subtrai, não haverá meios de receber o que acrescenta. Cada um dá ou deseja ao outro, o que tem. Eu desejo-lhes o bem.


FILTRO - Lena Ferreira - out.14

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

ANTES NÃO


Uns virão
e ficarão
por perto
outros não

Uns irão
e voltarão
pra perto
outros não

Esta é a lei:

nada é certo
nada é seu
nada é meu
nada é em vão

E assim
ir e vir
'não' e 'sim'
se revezando
e aceitando
as escolhas


Como folhas
de outono
de ninguém
ninguém é dono

Mas, abrace a sensatez:
antes 'não' do que 'talvez'...




ANTES NÃO - Lena Ferreira – out.14


terça-feira, 21 de outubro de 2014

EU POETA


Há um ser que em mim habita
e transborda em sentimentos
e nesse transbordamento
à alma possibilita

Viagens de entrega plena
de entrega que varre mundos
mergulho, vou lá no fundo
retorno, leve e serena

Como um sopro de brisa, leve
minha mão, num instante breve
conduz, calmamente, a pena

Sentindo-me tão pequena
perante o que me repleta
descubro o meu eu poeta


EU POETA - Lena Ferreira - 13/11/08


sábado, 18 de outubro de 2014

NO SILÊNCIO DA MANHÃ

No silêncio da manhã que se inicia
eu elevo o pensamento, ensolarado
por um céu de brilho intenso azulejado
sob as nuvens que o vento acaricia

Logo sinto responder-me a energia
de um sol que me abraça com cuidado
de um sol zeloso que ia preocupado
com meu riso disfarçado de alegria

Retirando o ranço dos resmungos tristes
embalou a sombra do que não existe
enviando cordialmente ao passado

No silêncio da manhã, meu peito leve
pronuncia uma oração sincera e breve:
gratidão pelo presente renovado


NO SILÊNCIO DA MANHÃ - Lena Ferreira

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

DE QUANDO

Sentada na varanda, te espero,
ao lado da roseira cor de rosa
e abraço a lembrança mais frondosa
onde era meu teu verso mais sincero.

Talvez pelo perfume que exala
das rosas, o passado venha à tona.
- de quando, do teu peito, eu era a dona
rimando o verso que hoje se cala. -

Sentada na varanda, sinto o vento
acarinhando o vão do pensamento
que teima em prosseguir nessa espera.

Talvez, quem sabe um dia, na chegada
tu digas que ainda sou tua amada
e dê-me o beijo que jamais me dera

DE QUANDO - Lena Ferreira - mai.14

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

CONVERTO

Avesso o verso e inverto o verbo em desaviso
amasso o maço de papel e o improviso
arrasta a voz e atrai os nós todos pra dentro
que, emaranhados, travam a via bem no centro

Imerso em vento, em passo incerto então, deslizo
analisando o traço e o risco, catalizo
as impressões entrelinhadas mar a dentro
que muitas vezes servem, à ferida, unguento

Converto o sopro da sangria e cicatrizo
o corte raso e em superfície, paraliso
a pulsação - privo de ar mas, só aguento
até a próxima aventura em que adentro -


CONVERTO – Lena Ferreira – jun.14

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

DO SOPRO

Sentindo o sopro da palavra ao longe
sussurrada, delicada, sobre a pele nua
se declara, instintiva, pelos poros; sua
gotejando incertos versos de amar baixinho

E tentando ocultar alguns segredos castos
sob as folhas de um outono morno, lento e vasto
retempera as sensações em verbetes voláteis
na viagem onde o embarque não pergunta quando

E do sopro, certas folhas que iam semimortas
reanimam, reverdejam, transferindo o viço
para o pouso desses versos em outras viagens
resguardando a semente do vento inverniço


DO SOPRO – Lena Ferreira – mai.14


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

DO PULSO

E na briga contra o tempo
tropeços trituram os ponteiros
segundos apressando efeitos
demonstram os defeitos não raros
minutam as horas em desgoverno
e o pulso, o pulso em frangalhos

Ah, tempo...Há tempo? Qual jeito?
- Ouvir o tique-taque do peito.


DO PULSO - Lena Ferreira - out.14

domingo, 12 de outubro de 2014

ENTRE SUSSURROS

A tarde vai deitando quase calma
Na palma, levo um tanto da esperança
De quem ainda caminha e não se cansa
De carregar o bem no pulso d'alma

Em breve, a noite vem trazendo a brisa
Pra aliviar, do dia, esse mormaço
E, da palavra,  todo esse cansaço
Que, num quase silêncio, me avisa

Entre sussurros castos e tão puros
Que, erguendo pontes no lugar de muros,
A caminhada, sim, será mais leve

A noite desce e a madrugada avança
Meus olhos, tal qual olhos de criança,
Levam esse dito para a alma que escreve


ENTRE SUSSURROS - Lena Ferreira - out.14

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

INTACTO

Guardo o teu nome inteiro, completo
sob a língua, intacto de saliva
e quando a lua cheia míngua
traz à rua uma particular tonalidade
que adorna este casto segredo

...meu medo primeiro é que descubras
nessas horinhas descuidadas, rubras,
a palavra colorida, perfumada e curta
ladeada à tua breve e leve assinatura
e que mantém a minha chama acesa

...medo mesmo, o que mais me loucura,
é que descubras e, indiferente,
permaneças com a tua muda
deixando a minha assim, à míngua
embora tesa secretamente...


INTACTO - Lena Ferreira - out.14

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

DA JANELA


A noite aperta seus olhinhos já miúdos
enquanto a lua bocejando me acena
- é a madrugada despedindo-se serena -
talvez por isso os meus versos fiquem mudos
diante de tão exuberante e linda cena
com um sol sorrindo ensaiando mais um dia;
ponho de lado o papel, a tinta e a pena
e, da janela, leio a mais perfeita poesia


DA  JANELA – Lena Ferreira – out.14

domingo, 5 de outubro de 2014

OU

De tudo aquilo que não fora dito
e que ficara suspenso
como nuvens em dias dublados

feras frases estacionadas no pensamento
num compartimento esquisito
ainda aguardam por um vento

que as dilua
ou faça chuva
por fora, lavando
por dentro





OU - Lena Ferreira - out.14