sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

CAIS


A voz do barco ancorado na beira do cais
lembra-me os ais alicerçados em aflições dementes
de quem lamenta inevitáveis chuvas, temporais
levando tudo o que supunha firme à sua frente

Recorda o tempo em que desafiava vendavais
ao recortar os sete mares, imponente,
juntando glórias desse mundo e de outros mais
atravancava, com o passado, o seu presente

A voz do barco ancorado, engasgada em ais
me parte o peito em fatias reticentes;
sei da sua força, impoluta, que é bem mais, bem mais
do que esse orgulho que a torna deprimente

CAIS - Lena Ferreira - jan.14

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

OXIDÁVEL



Andei observando o vai e vem da porta
e as vozes aciduladas das dobradiças
acordaram pensamentos improváveis
acerca de um destino tolo, sem revolta
onde a sua volta seria a chave mestra
para a felicidade -tonta- terna eternizada

Mas o desgaste causado pelo tempo
- implacável nos momentos imprecisos -
fez-me ranger os muitos dentes magoados
pelas memórias doloridas por descaso

Andei observando o vai e vem da porta
e o desconforto no ouvido enlouquecido
abriu meus olhos pr'um futuro oxidado
onde os pedaços de nós já corroídos
escorreriam pelos vãos dos outros dedos
e os segredos nunca mais seriam meus...

OXIDÁVEL - Lena Ferreira -

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

NUANCES

Quereria os teus passos como nuvens
de um céu azul profundo tal teus olhos
Os teus dedos, quereria-os violáceos
perfumando o meu segredo sob a pele

Os teus beijos, quereria-os num vívido carmim
tal pétalas acetinadas de uma rosa virgem
Quereria teus olhares num alaranjado fim-de-tarde
debruçados no relevo do meu corpo

Quereria todo esse amor líquido, perfumado
com aromas de alfazema e verbena e sussurrando
num quasar alucinante de um poema imperfeito
respiraria as tuas nuances de ternura

NUANCES - Lena Ferreira -

JANELAS

Nessas janelas, o tempo dispara:
já me brindou com as manhãs amenas
dando passagem às brisas serenas;
lembranças que, com nada, se compara

Nessas janelas, o vento não para:
soprando o peso das coisas pequenas
deixou-me só o que importa; apenas
o que à alma é ternura e o que sara

Essas janelas que já viram tanto;
tristeza, amores, choro, riso, pranto
hoje me mostram, do rumo, o centro:

Por fora, vemos mas não enxergamos
e, quando isso, mais nos dispersamos;
chegou a hora de olharmos pra dentro...

JANELAS - Lena Ferreira – jan.14

domingo, 26 de janeiro de 2014

ATENTA

Atenta às notas dessa melodia
que o vento espalha pelo universo
colore o céu, a alma, a noite e o dia
respira com a leveza de um verso

Atenta aos acordes, tão sensíveis
inspira vida nova em novos passos
estejas certo, são inesquecíveis
e não há ledo engano no compasso

Atenta e sinta cada nota - vivas -
isola o teu ouvido a todo resto
e assim, com muitas palmas; efusivas,
louvemos o talento do Maestro!

ATENTA - Lena Ferreira - jan.14

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

CONTANDO ESTRELAS

Perco-me a contar as estrelas
que brincam no céu da sua boca
grávida de sonhos e promessas
salivando entre a razão e a loucura

E da ternura desse seu sorriso
bebo as gotas mais singelas
afagando com dedos de brisa
cada onda gris dos seus cabelos

Abraço o mar bem no seu peito
e acalento o meu sonho mais secreto:
pássaros bebendo da sanidade
que retém os meus pés no chão

Perco-me a contar estrelas
e nem percebo o que na noite acontece
- só me dou conta que o seu sol me amanhece -

CONTANDO ESTRELAS - Lena Ferreira -

SEMEAMOR

Se a terra é fértil, a semente vinga
se está imprópria, basta que zelemos
limpando o todo que se encontra a míngua
então, com ela, nós floresceremos

Com força e viço cumprirá sua sina:
ser pura essência e florir com jeito
pois seu perfume o entorno contamina
e, sim, começa bem aqui no peito

Para que desabroche e permaneça
viva por muito, muito, muito tempo
é importante, e por favor, não esqueças
de protegê-la quando maus momentos

E quando bons, estampa teu sorriso
ao espalhar os frutos que colheste
por outras terras - pelo bem preciso -
semeamor pois tu já floresceste

SEMEAMOR - Lena Ferreira - jan.14

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

ESSAS JANELAS


Essas janelas que hoje o tempo ampara
já me brindaram com manhãs amenas
deram passagem às brisas serenas;
lembranças que, com nada, se compara

Essas janelas de pintura rara
trouxeram o preço das coisas pequenas
e, de grandeza majestosa, plena,
suas vidraças, penso, são mais claras

Essas janelas que já viram tanto
amor, tristeza, choro, riso, pranto
hoje me mostram a direção, o centro:

Por fora, vemos mas não enxergamos
e, muitas vezes, mais nos dispersamos;
agora é hora de olhar pra dentro...

ESSAS JANELAS - Lena Ferreira - jan.14

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

OBSERVATÓRIA

Há, sim, acredito, um certo desconforto em permanecer nesse estágio de estio, silêncio arredio, medindo e medindo os passos e os gestos, olhando e olhando de fora pra dentro e de dentro pra fora... E embora ainda carregue esse peso enorme que fere, prefere regar a alma com um tanto mais de reserva. Preservando a saliva, já quase extinta, talvez colabore com a germinação da calma que ora lhe escapa, ora lhe avista mas nunca lhe foi uma conquista.
Talvez seja este o resumo do acaso; um ir e vir constante, nem sempre pensante mas sempre convulso num impulso errante entre gritos de alarde e recuos macios. Jamais fora covarde mas nem sempre são...
Tarde ou cedo, cultiva e esbarra em pedras de tropeço e pagando o preço pelas escorregadelas, colhe as sequelas das quedas sucessivas e, insistente, desfolha as feridas vivas além do extremo. Mas não treme nem teme; apenas cede. E sangra...E sangra...Hemorrágicos segredos.
Talvez e só talvez seja esta a razão para tal desconforto: tentar dizer mais pelo que cala do que pelo que alicia com a ponta dos dedos...

OBSERVATÓRIA - Lena Ferreira – jan.14

MARESIA


Dormi com tua voz roçando meu pensamento
em sussurros desavisados e espasmódicos
lançando-me às paredes inaudíveis
dos quatro cantos de minha alma eufórica

Delirante, cavalguei por madrugadas
- em sonhos ou seria realidade? -
somente eu sei o que senti naquelas horas
onde tu vinhas e roubava-me o descanso

Ah...Se tu soubesses o efeito que causaste
- da inoperância da razão na minha mente -
farias muito mais do que fazes agora

Adentrarias no meu canto assim, silente,
silenciarias o meu verbo com um beijo
e soprarias maresia em minha pele


MARESIA - Lena Ferreira -

PARTO

Fosse esse seu silêncio, estéril
e ainda virgem, solteiro e senil,
seria em seu tempo a partida
com a vida seguindo levemente

Mas não...

Trouxe consigo o vigoroso vício
das verdades absolutamente analíticas
nas pausas grávidas de afrontas e tiques
salmourando cílio a cílio

Fosse esse seu silêncio, estéril,
evitaria esse meu parto prematuro

PARTO – Lena Ferreira –

sábado, 18 de janeiro de 2014

SOMENTE

Não é a todo instante que te penso. Somente quando o sol acorda, sorrindo, com o farfalhar das saias das árvores
e vai indo, vai indo... Corre o céu todinho e já cansado, deita-se por detrás dos montes calmos e nessa pausa, bebe um gole de brisa morna para, refeito, seguir o seu caminho até quase beijar as mãos alvas e nuas da amada lua que, bordando estrelas no céu da boca da noite clara, madruga pensamentos vagos em desvarios vários, sonha nuvens azuis, noiva de sóis alaranjados enquanto eu somente nesses instantes é que te penso. Somente, somente...

SOMENTE - Lena Ferreira -