terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

TRISTEZAS OCEÂNICAS

Tristezas oceânicas se alargam
se nadas nas lembranças sem preparo
trazendo à tona as que a boca amarga;
eventos que não ficaram bem claros

Tristezas desse jeito, paralisam
teus passos, do presente pro futuro
a alma, o olhar à vida, marmorizam
e, até na claridade, vês escuro

Tristezas, pelos olhos, liquefeitas
escorrem até desmaiarem no leito;
é onde morrem mas, não satisfeitas,
ressuscitando, alagarão teu peito

TRISTEZAS OCEÂNICAS – Lena Ferreira – fev.14

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

ESCALADA

Principio escalada
penhasco íngreme
inspirando possibilidades

Agarrada ao desafio
desteço sustos, destraço medos,
destruo surtos, destravo segredos

Presa à coragem
solto as feras, saltam as veias
suam sensações

(bagagem?
bobagem!
vertigem?
voragem!)

Se canso, descanso
bebendo
paisagem
Se caio, levando
desvio
miragem 

Persisto...

Escalo
me ralo
não calo
o discurso

Respiro
descompasso
transpiro
probabilidades

Agora
a questão:
o que vale suar o rosto
é chegar a qualquer custo ao topo?
eu penso que não

A glória
da escalada:
experimentar, gota a gota, o gosto
do percurso da paisagem
aspirando inspiração

ESCALADA – Lena Ferreira – 12(...)14

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

DESAFIO

Observar o mar bravio em seu recuo
causa-me um misto de espanto e fascínio
como resposta a uma provocação do vento
revira o fundo; conchas, pedras, lodo, limo

Trava batalha inglória e incauta com rochedos
fragmentando a calma - a posse, o seu domínio -
ondas crescentes em altura e volume
tombam em gritos acordando tolos medos

Quando retorna à praia, traz, entre as espumas,
todo o desgaste salmourado e em seu declínio
deita e, cansado, espera por horas de estio
- mas, para o mar, qualquer espera é um desafio... -

DESAFIO – Lena Ferreira – fev.14

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

OPÇÃO

Se dou ouvidos à palavra amarga
- a carga, o peso, o ácido da língua -
sobrecarrega os ombros e estraga
o dia, a noite e tudo em volta míngua

Se dou as mãos para a palavra leve
- com dedos que possuem peso-pena -
o pensamento muda e não se atreve
a desviar das coisas mais amenas

(...)

Se tenho a referência do que pesa
à alma e o que a ela acrescenta,
dispensarei, então, a que me lesa
e abraço a que do bem me alimenta

OPÇÃO – Lena Ferreira – fev.14

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

ROGATIVA

Um ser composto por idas e voltas
patrocinadas pelo que o excede
palavra o rastro das reviravoltas
vincando a ponta do que não se mede

Um ser composto por fases da lua
exacerbadas pela cisma fútil
penitencia o verbo além da rua
mas o silêncio, armado, é inútil

O mesmo ser, com um posto provisório,
de jeito grave e gestos transitórios,
já ensaiou adeuses sem a palma

O mesmo ser - loucura ou heresia? -
se prostra aos pés da santa, a poesia,
e roga ao verso que retorne à alma...

ROGATIVA – Lena Ferreira – jan.14


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

TOMARA

O sol tem acordado bem mais quente
num céu de um azul anil que grita
deixando uma multidão aflita;
suando corpos, derretendo mentes

E num verão de calor inclemente
qualquer palavra queima se mal dita
modificando a expressão contrita
para trovões e raios recorrentes

Mesmo sem nuvens, nessa hora chove
parece, o céu, até que se comove
e, pelos olhos, desce sem censura

Tomara que, por fora, logo chova
molhe a palavra e, enfim, promova
delicadezas, gestos de ternura...

TOMARA - Lena Ferreira - fev.14

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

IMPRESSÃO

É mais um dia em almas suam onde verbos flutuam. Onde um tanto mais de poesia anda por essas ruas tingidas por um sol que, não tarda, arde. Caminha, sem grandes alardes. Caminha e vai descalça rumo a um horizonte de nuvens isento, por hora sem vento. Atento, o poeta observa seus mais vários passos e no mesmo compasso, seus dedos dançam, no teclado ou no maço de papel, coreografando a sua impressão. E da visão que seus olhos permitem, que sua alma captura, que suas mãos alcançam, um verso salta solto da suposta clausura abraçado ao tema. E daí pro poema, nada há de censura.


IMPRESSÃO - Lena Ferreira -

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

PRISCILA

Priscila oscila
entre o riso e o pranto
entre a calma e o conflito
o silêncio e o grito
o profano e o santo
sustenido e dó
uns dizem ser quebranto
outros, que desencanto
mas eu não sei bem não...

Priscila vacila
entre o passo e o compasso
entre os pés e as asas
a geleira e as brasas
a forquilha e o laço
o enfeite e o nó
uns dizem ser cansaço
outros, que embaraço
mas eu não sei bem não...

Priscila desfila
entre a ira e a ternura
o remédio e o veneno
tempestade e sereno
vizinhança e lonjura
companhia e só
uns dizem ser loucura
outros, que não tem cura
mas eu não sei bem não...

PRISCILA - Lena Ferreira - fev.14

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

VOA

''Os filhos crescem, criam asas e voam.''
A primeira vez que ouvi esta frase, ia longe a sua assimilação assim como também ia longe a iminência do fato. Ainda ontem, era apenas um garoto tímido e franzino brincando com videogames e bonecos de combate. Mas agora, com malas prontas e pouso acertado, um misto de angústia e medo e preocupações e muito, muito orgulho, me confunde. É claro que cedo ou tarde, pássaros deixam seus ninhos mas pra nós mães, principalmente, será sempre cedo e por mais que tenhamos a confiante certeza de que os preparamos para a vida, jamais julgamos que estejam aptos a se virarem sozinhos, longe de nossos mimos, nossa comida, nossa bronca, nosso carinho, nosso conselho, nosso colo...Talvez, na verdade, quem não esteja pronta para deixá-lo ir, seja eu. Nunca estarei!? Ah, essa mania de querer controlar tudo...Sempre será cedo. É cedo hoje. Será cedo amanhã, ano que vem e depois... Então, que seja; deixo-lhe a cargo dos valores que lhe transmitimos e da confiança no bom homem que, até ontem menino, se transformou. Num misto de angústia e orgulho, aguardo pela sua iminente decolagem e rezo. Que seja feliz nessa sua escolha. E que esteja certo de que o ninho estará sempre pronto a acolhê-lo de volta, seja a hora ou o motivo que for, sem cobranças e com o mesmo carinho de sempre. E sempre. Então, voa, filho. E seja feliz!

VOA - Lena Ferreira - fev.14

sábado, 8 de fevereiro de 2014

NO COMANDO

Vivemos num mundo de pressas
correndo, quebrando promessas,
esquecemos o princípio no meio

Que o que importa, na realidade
não é a força nem a velocidade;
é saber quando e como usar o freio

Se a vida é feita de mão e contramão,
preciso é saber comandar sua direção

NO COMANDO - Lena Ferreira - fev.14

CÁ, REGO

Há, sedentas, inteiras,
violentas certezas
que, correndo outros céus
vão crepitando campos

Cá, rego a força primeira
com violáceas clarezas
que, retirando véus,
tornam o campo mais amplo

CÁ, REGO - Lena Ferreira - fev.14

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

POR DENTRO

Desde que tropeçaram em suas carências, abraçam-se em compromisso que logo rendeu-lhes um fruto. E outro. E mais um que herdaram as pendências de uma árvore em atrofia. Noite e dia, podia-se ouvir os lamentos frustrados entre os dentes trincados e os gemidos gelados nos dois travesseiros da cama-resposta. Por anos. E os danos dessa situação, cada vez mais evidente, revelavam-se nos vícios. De ambos. Ameaças de ontem no agora, levando embora só a roupa do corpo já morto pelo caso e o descaso jamais foram cumpridas assim. E o fim, iminente mas covardemente abortado por anos, talvez tenha causado o desgaste presente. Quando, enfim, a coragem acordou - e já passava da hora - os frutos, abraçando a árvore, atacaram a semente, lançando-a fora. Natural?! O que não é legal é que quem está de fora pensar em julgar um ou outro já que não consegue nem pode entender o que, verdadeiramente, se passou entre ambos por anos. Por dentro, os danos...

POR DENTRO - Lena Ferreira - fev.14

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

ACEITA

 Aceita...
 É seu o novo verso e bem sabe
e antes que por um dos olhos vaze
espero sua obtemperação

Aceita...
É sua a alma inteira, toda nua
e antes que desponte cheia a lua
espero a mínima contemplação

Aceita...
É sua e sua a boca que saliva
e antes que o tempo a deixe à míngua
espero pela sua exploração

Aceita...
É seu o meu oposto, o avesso
e antes que mude de endereço
espero pela sua compreensão

Aceita...
É sua a chave nova e até a senha
mas vê se não demora; logo venha
e traz, urgentemente, o seu perdão

ACEITA - Lena Ferreira - fev.



terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

AINDA BEM

A gente sabe mas se esquece...

do peso que traz as palavras
do grito por trás do silêncio
da pedra que faz o caminho
do riso que traz o conforto
do choro por trás do sorriso
do vento que refaz a brisa
da força que rege o centro
da luz que ilumina por dentro

A gente sabe mas se esquece...

Ainda bem, quem nos conhece
chega de manso e um fio tece
pra despertar o que adormece

E, acordada, a gente, muda, agradece.

AINDA BEM - Lena Ferreira - fev.14

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

DESTREZA

Quisera, mesmo, essa serenidade
e complacência com que se apresenta
mesmo diante da brutalidade
de um forte vento, na paz se sustenta

Quisera, mesmo, essa suavidade
olhando os fatos, sempre, sempre atenta
mesmo diante da adversidade
doa palavras que meu peito alenta

Quisera, mesmo, essa humildade
com a qual ensina e à alma acrescenta
pois nos seus versos de realidade
há sapiência e há luz que apascenta

Quisera, mesmo, ter sua destreza:
domar tormentas e sair ilesa...

DESTREZA - Lena Ferreira - fev.14

domingo, 2 de fevereiro de 2014

RE(CURSO)


É com pés miudinhos
que passo o passo a caminho
de um espaço curto e estreito
onde cochilam tempestades

- silêncio -

É o jeito...

RE(CURSO) - Lena Ferreira - fev.14

sábado, 1 de fevereiro de 2014

MIRAGEM


No voo
o vento
e o verde
da passagem
distrai
ressentimento
da bagagem
em torno
do momento
a paisagem
entorna
o livramento
qual miragem

MIRAGEM - Lena Ferreira - fev.14