quarta-feira, 30 de abril de 2014

TUAS ÁGUAS

Acomodas tempestades e, no teu peito, há um vão tenso de onde escorrem vãs palavras em lavas que inundam o quarto e a sala
e não calam o verbo que eu não quis ouvir.
Fala de nós ao vento que passa ao longe enquanto chamo a brisa para o nosso lado. Ela vem mas logo parte e, em desassossego, rego o canto de te amar.
Não é doce a voz que sai de mim; é trêmula, carregada de um tom acovardado – refreio -.
Não soubeste precisar nada além desta imagem impregnada por detrás dos olhos negros, pequeninos, moles de tanto te ver e ver - tão perto e tão distante - .
Teu peito é um não imenso que me incita tempestades
encharcando o canto esquerdo com mais m'águas...

TUAS ÁGUAS - Lena Ferreira -

terça-feira, 29 de abril de 2014

SOL-TE

E nas horas calmas,
enquanto sol-te,
constelas, delicado,
o meu céu...

SOL-TE - Lena Ferreira - abr.14

sexta-feira, 25 de abril de 2014

DESFEITA

Feita de líquido e frases
tão cruas de leitos e mares
em sono frágil e invigilante

Desfila, derramando fases
por ruas em vãos similares
ao seu caminhar inconstante

Desfeita do peso, vai nua
das vezes que, cega, flutua
- até que, suando, evapora -

Sublimada, em nuvem, madruga
num céu todo, todo em rugas
- coberta e desperta então, chora -

DESFEITA – Lena Ferreira – abr.14

terça-feira, 22 de abril de 2014

*DOS RIOS QUE ME CORTAM

Dos rios que me cortam por dentro

e navegam silentes

um a um pelas veias

sei de cada nascente...


E quando esbarram nas margens

povoando o fundo com lembranças tão rasas...

...chovo calada


Assim, avoluma-se o curso dos enganos

resistentes ao vento


Assim, recorrente é a saga; cega na correnteza

sigo; margeando incertezas...


...deságuo lamentos


DOS RIOS QUE ME CORTAM – Lena Ferreira – abr.14


*mote: rios e correntezas - proposto por Andréa Iunes na Oficina NOP

terça-feira, 15 de abril de 2014

INESPERADO


Nunca houvera falado de amor como deveria...Não da forma que se espera. Nunca houvera enviado flores, deixado bilhetes sobre o travesseiro, levado café na beira da cama. Nunca dissera " eu te amo" como se espera, em sopro ou gemido no pé do ouvido. Nunca lera um poema com voz sustenido...Mas, seu olhar... Ah, seu olhar, ao mergulhar nos olhos dela, quem diria...Era a declaração de amor mais sincera. Era a forma mais bela de se compor poesia.

INESPERADO – Lena Ferreira – abr.14

segunda-feira, 14 de abril de 2014

DO QUE PODERIA TER SIDO

A música
que a madrugada canta
remete-me a um sublime enlevo
e a mente vaga nas lembranças
do que poderia ter sido


Enquanto a cidade dorme,
desenho no ar uma cena perfeita
onde, eleita, morava em seu peito
e, satisfeito, fazia-me promessas

Mas,
sem licença, um vento suspeito
desfaz os detalhes...


Recorro ao papel e a pena
que me socorrem prontamente;
a alma escapa pelas pontas dos dedos

E na vaga de cada verso, acorda
cada fiapo de esperança adormecida

Esquecidos do tempo que morre,
nascem poemas falando de nós

- do que poderia ter sido -


DO QUE PODERIA TER SIDO - Lena Ferreira - abr.14

sábado, 12 de abril de 2014

CONCERTO

Deu pra escutar o som das cores
e transformava cada nota que sentia
em melodia transbordante, oceano
que desaguava pelos olhos que ouviam
a sinfonia colorindo o desacerto
ao o som das ondas que aplaudiam esse concerto

CONCERTO - Lena Ferreira - 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

DOMA

É na solidão, quase sempre sombria,
Que intento a doma das feras do centro
Quem vê só por fora, não sabe que dentro
Há uma avalanche clamando alforria

E essa saga segue, à noite e de dia
Confesso que, às vezes, eu mesma não aguento:
Num duelo ingrato, moroso, sangrento
Esgrimam sorrisos, tristeza, euforia...

Nessa solidão, um silêncio aparente
Segue cutucando o entorno, estridente,
Como a incitar, nessa espera, o açoite

Essas feras, todas, são tão resistentes
Mesmo assim, insisto na doma, valente;
Não quero, pro dia, o escuro da noite...

 
DOMA - Lena Ferreira - 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

CONSUMAÇÃO


Um toque na pele amanhecida
Acorda as esquecidas emoções,
Vitima o peito em doidas pulsações,
Desperta sensações adormecidas.

Então, duas almas vibram, aquecidas
Pelo calor que chama os corações.
Corpos dançando valsas de explosões
Espasmam as frases mais ensandecidas.

Rumando ao ápice, num êxtase louco,
Descobrem-se, e muito ainda é pouco
Para exaltar o fremente desejo.

Dispensam carícias que acalmam a pele
E exploram o gesto que a paixão impele:
Consomem-se num incendiário beijo.


CONSUMAÇÃO - Lena Ferreira - (rev.) abr.14


sexta-feira, 4 de abril de 2014

QUADRO

O quadro pendurado na parede lembra-me a sede( a saliva, a língua à míngua) de um ser que busca, a qualquer custo, a liberdade mas, tanto alarde, em cada passo um novo susto.
Pintados, passarinhos, borboletas, folhas, rio, chuva, vento todos soltos na moldura, se movimentam e o pensamento preso fora da clausura cada vez mais atormenta...
Ah, quem dera ser um ser só de ternura e com brandura estenderia as mãos, os dedos e, delicada, abriria a sala-cela e essa aquarela saltaria para a vida.
Mas não.
Permanecerão, sei lá por quanto tempo, decorando a parede, fomentando a seca e a sede torturando o pensamento, aguardarão o movimento, a atitude para que o quadro, perdurado, finalmente mude.

QUADRO – Lena Ferreira – abr.14

quinta-feira, 3 de abril de 2014

REVELA-TE

Revela-te
desmonta a armadura
que já não esconde a fragilidade
esqueça o escudo, as flechas e a mania
da fuga diante das adversidades

Revela-te
desmonta o sorriso
que já não esconde as marés do centro
esqueça as poças, partes da agonia
da rota errada de um passo por dentro

Revela-te
demonstra o susto e o medo
sem medo do que virá em resposta
pois digo o que jamais fora segredo:
quanto mais te escondes, mais te mostras.

REVELA-TE – Lena Ferreira – abr.14

terça-feira, 1 de abril de 2014

ABRIL-ME

Abriu-me os olhos que iam cansados
fechados para o que de fato importa
mostrando que o tempo traz resposta
para as perguntas mofas do passado

Abriu-me a boca para um amplo riso
- fechada em pausa grave, provisória -
mostrando que esta vida, transitória,
não é um inferno nem é um paraíso

Abriu-me as portas e também janelas
fechadas por um violento vento -
mostrando o sol que pode ser unguento
no tratamento de certas sequelas

Abriu-me o verbo, o verso e a pena
como resposta, respirou mais leve
e num sussurro, decretou a greve
da pausa grave e abril-me, serena 

ABRIL-ME - Lena Ferreira - abr.14