sexta-feira, 30 de maio de 2014

DESVIO


Para desviarmos dos lamentos e dores,
falaremos dessas cores vivas que, entre palmas,
brotam nos olhos do dia-após-dia,
aquarelando os rostos distraídos
com as coisas pequenas que abraçam a alma.

Para desviarmos dos lamentos e dores,
fiaremos falas amenas nos lábios sinceros e, brandos,
semearemos grãos de simplicidade
no campo, o peito, onde é amplo o sentido
das coisas pequenas que abraçam a alma.

Decoraremos todo o canto esquerdo
com o sussurro das flores bordadas de orvalho
e em cada toque, o seu perfume macio
e em cada gesto, o seu sereno tranquilo
aquarelando os rostos distraídos.

Para desviarmos dos lamentos e dores,
falaremos dessas cores vivas, de flores,
de vida e, simples, com c(alma).

DESVIO - Lena Ferreira - mai.14

quinta-feira, 29 de maio de 2014

POEMA ADORMECIDO

Silêncio. Não acorde esse poema
que dorme tão tranquilo e satisfeito
embora minha pena ainda trema
depois de tê-lo escrito no meu peito.
.
Descansa as sucessivas sensações
viagens por veredas fascinantes
provou de tantas, tantas emoções
quando tocou as notas mais sonantes.
.
Repousa, embevecido, esse meu verso
num sono tão profundo; meu reverso
que insone, monto guarda; solidário.

Silêncio. Não acorde este poema
- embora essa vontade seja extrema -
pois descansar o verso é necessário.

POEMA ADORMECIDO - Lena Ferreira -

terça-feira, 27 de maio de 2014

DAS MANHÃS

As manhãs do fim de maio nascem com tanta preguiça
pálidas peles, umedecidas pelo orvalho do parto
sopram seu hálito fresco em maciez e suavidade
e, estendendo um tapete alvíssimo, esperam...

Enquanto as horas deitam calmas sobre as nuvens
aguardando os minutos, os segundos adormecem

Nessa demora, todo entorno é suspense
nada parece acontecer...

Sem anúncio, um rasgo estreito rompe o céu
azulejando um bom pedaço de todo olho testemunha
que, em êxtase, contempla a nesga estreita dilatando
e, calmamente, dando a luz a um tímido sol...

DAS MANHÃS – Lena Ferreira – mai.14

sábado, 24 de maio de 2014

DO PESO

E foi precisa a guerra santa entre os dois mundos
para que a paz desse sinal, ainda que tímida,
no sítio tenso, encharcado de queixumes
que transformavam penas leves em fardo-chumbo

- insuportável o peso de tantos desditos -

E foi preciso um sim disposto ao não em alarde
que, desde à tarde, salivava reticências
em exigências absurdas, impensadas
manchando o verbo que acalmava a mente sã

- insuportável o peso do tanto não dito -

E foi precisa a hora de voltar ao centro
para que as letras, calmas, bebessem a audição
em taças altas, fartas, num brinde silente
e conivente sem que restasse um senão

- insuportável o peso do 'tenho razão' -

DO PESO - Lena Ferreira -

quarta-feira, 21 de maio de 2014

BRAVURA


Inexplicável a insensatez, o absurdo
que sinaliza o passo incerto e o impulso
do vento avulso e virgem que pinga ojeriza
sobrevoando a pele calma do oceano

Como quem busca faltas fartas, desenganos
segue incitando maremotos abissais
nas águas que nasceram pra serem serenas;
apenas cedem ao vento, explodindo em ais

Inexplicável a insensatez, não só do vento
principalmente dessas águas que, inseguras,
precisam falar da sua força a todo tempo

(com isso, perdem as longas ondas de ternura
e, revolvidas com o alheio comportamento,
esquecem que o silêncio é um ato de bravura)

BRAVURA – Lena Ferreira – mai.14

terça-feira, 20 de maio de 2014

SALA DE ESPERA


Deito-me numa sala de espera morna e impacientemente aguardo que tu chegues com teus olhinhos cansados da busca pelo vento farto que em mim mora desde sempre.
Deito-me e tento adormecer a angústia de imaginar-te a procurar-me insanamente por entre copos e corpos vazios, cheios de máculas e cacos pontudos das entrelinhas diversas desmaiadas.
Deito-me na nuvem macia e segura que é pensar-te em mim, inteiro; sem sustos, sem medos e sem segredos, posto que já escorrem pelos vãos dos tantos dedos meus, exclamando - ingênuos e tolos - desesperadamente do bem sentir-te, do bem querer-te assim, tanto, tanto e simplesmente...
Deito-me e aguardo... Que a tua calma se apresente e me abrace, urgentemente.

SALA DE ESPERA – Lena Ferreira –

sexta-feira, 16 de maio de 2014

BRISA

A brisa que percorre o meu céu
zelosa, em secreta intimidade,
refina essas fases planetárias
de frases desconexas e solares

Resfria a cauda dos astros vorazes
mordendo a ponta das noites insones
e madrugando-me em silêncio assaz
nina, tranquilamente, o desassossego

Purpurinando calma nos meus olhos
planta, nos lábios, bocejos infantes:
adormecendo, quase sonho esse azul
não fossem as promessas circulares...

BRISA - Lena Ferreira - mai.14

quarta-feira, 14 de maio de 2014

LEITURA

 
Sobre as linhas de um poema que se ajeita
num leito branco, traduzindo a sua fala,
há silêncios cativantes que se deitam
e, cobertos de entrelinhas, mais se calam...

LEITURA - Lena Ferreira - mai.14

segunda-feira, 12 de maio de 2014

FASTIO

Do soco seco vindo de uma dor extrema
nasceu um poema tão sincero, tão bonito
como se, escrito, o que rasgava em dois o peito
adormecesse no papel, mas levemente...

Quisera mesmo era apagar, do estrago, o efeito
mas o que é grave, a alma grava e é indelével
e a razão, que teima em greve nessa hora,
só colabora em aumentar esse fastio...

Resta voltar o rosto para um outro canto
e escrever tanto, tanto quanto for preciso
para que a dor escorra, inteira, pelos dedos
e adormeça no papel, eternamente...

FASTIO - Lena Ferreira - mai.14

sábado, 10 de maio de 2014

SER MÃE

Em nenhum livro que hoje se leia,
- melhor que seja a publicação -
encontraremos o que permeia
o cumprimento desta missão

Nem mesmo na experiência alheia
nem mesmo no mais belo sermão
porque o ser, corre-nos nas veias
porque o ser, faz-nos  coração

Um coração que é de inteira entrega,
que multiplica, e jamais renega,
um grande amor que mais vai crescendo

Fora esse amar, não há receita nova
e o que a vida hoje me comprova:
ser mãe se aprende - e se aprende sendo -

SER MÃE – Lena Ferreira – mai.14

sexta-feira, 9 de maio de 2014

MAIS UM DIA

Convida-me
a beber cada segundo
do momento.

Aceito.

Ajeito os cortes recorrentes do defeito
e sinto o efeito de uma brisa conivente:
cauteriza-me as feridas; se não sangro, esqueço.

Aqueço o verbo com seu caloroso abraço
e meus pés, antes cansaço, pisam tímidos no mar.
É cedo e a água fria arrepia a alma em pelos
e o vento nos cabelos é como um apelo à razão.

Desperto.

Mergulho breve,
respiro certo,
penso mais leve;
a calma, perto.

Lavo o inverso e o avesso.

É mais um dia no Universo. 
É mas um dia e eu agradeço...

MAIS UM DIA – Lena Ferreira – mai.14

quarta-feira, 7 de maio de 2014

BOEMIA

Quando a madrugada principia
a tristeza e a alegria,
de mãos dadas, vão à rua.

Passando por becos, dobram esquinas
enquanto, em suas retinas,
brilha, generosa, a lua.

Caminham por bocas e lugares,
pelas mesas de alguns bares
até encontrarem assento.

Sentando, entregam-se à boemia,
servem-se de poesia
que transborda sentimentos.

BOEMIA – Lena Ferreira – mai.14

segunda-feira, 5 de maio de 2014

RENITENTE


Um monte de talvez ao pé da porta, que abre e fecha ao sabor de qualquer vento, mistura-se às perguntas sem respostas, e evocam o sentimento clandestino em doidas e vãs considerações.
É quando a madrugada, fria e longa , prolongando, em agonia, o pensamento da alma que no tempo se encosta, - portanto, já perdera o senso e o tino - convoca as mais estranhas reações: olhos pisados por um passado renitente, mãos suadas por uma espera inútil, pés bêbados pelo passo tolo, fútil e o peito aflito em reticentes pulsações.
Quase morta com o vai e vem da porta, (que, resistente, não fecha) observa, ainda, o vão do não que tudo importa. E a brecha, o trinco, a chave e a dobradiça enferrujada cobrando, insistentemente, a solução.
Então, à duras penas, socorre as lágrimas sinceras que escorrem nessa hora e abdica da inútil espera. E de tudo, o resto, outra conduta. E, enquanto a calma, mesmo que breve, lhe acena, levanta resoluta, bate a porta e vai embora...

RENITENTE – Lena Ferreira – mai.14

sexta-feira, 2 de maio de 2014

ADIA

Há dias em que o ponteiro não adianta
e o grito na garganta,
preso, é quase explosão.

Há dias em que a seta é curva torta
e altera toda rota
sem sentir a direção.

Há dias em que a palavra é um corte:
cada letra é semimorte;
rasga a alma e o coração.

Adia,  nesses dias, qualquer fala,
qualquer gesto; o que se cala
é melhor  que explicação.


  ADIA - Lena Ferreira - mai.14

quinta-feira, 1 de maio de 2014

MERGULHO

A tarde, caminhando preguiçosa de mãos dadas com um vento quase brisa, quase frio, levava dois pés pela areia da praia onde as ondas pequeninas de um mar deitado numa  calma breve, oscilando leve, leve, ameaçava virar, lá longe, um barco repleto de certezas concretas.
Secretas, gotas de maresia, beijavam seus medos enquanto, fincado na beira, tentava se distrair com punhados de areia a escorrer por entre  dedos. Inútil...Um nó na garganta, uma angústia extremada, um cheiro de covardia, um gosto de pavor perturbava-o com a possibilidade de ver o naufrágio de um barco tão frágil.
Cogitou um mergulho. Afinal, eram águas tranquilas, eram águas tão mansas. Eram águas serenas. Era assim que pensava. Nada sabia do que se passava no meio do fundo. Nada sabia enquanto mergulhava. Braçadas, braçadas, braçadas... E o pensamento aflito fervia em considerações. E descobertas. Nem percebeu que o mar levantava-se em agito e graves oscilações. 
Foi-se o barco e  as certezas, uma a uma...
De volta  à areia, entre as espumas de cansaço,  um outro vento, quase brisa, quase frio, ofereceu-lhe um abraço e sussurrou-lhe uma  palavra discreta ao pé do seu ouvido, fazendo-o levantar. De longe, podia-se ouvir a palavra 'mergulho'. Ou teria sido 'me orgulho'?


MERGULHO – Lena Ferreira – mai.14