segunda-feira, 30 de junho de 2014

AOS POUCOS


Já não morava mais em si quando a razão bateu-lhe à porta cobrando explicação. Do que, já nem se lembrava na verdade. A última visão com claridade foi aquele olhar inquisitivo acerca dos deslizes recorrentes. Lembra-se bem que, na hora, só riu. Um riso largo que, exibindo os dentes, escondia perfeitamente o que caminhava por dentro. Quantas estradas...Quantas curvas camufladas em linha reta... Ninguém sabia. Enquanto ria, percorria o interior em busca da resposta que não vinha e, adivinha? Na procura, deparou-se com cicatrizes remotas, semi anestesiadas.
- Susto! Supunha-as cauterizadas!
Ah, essa alma que não cala. Ah, essa alma que, só, fala. Fala, fala e fala alto!
Resultado: aos sobressaltos, os cortes acordaram, murmurando dores, estios, temores, sangrando lamentos, impingindo-lhe tormentos...
Rasgou-lhe, então, um olhar estupefato, catatônico.
Da vírgula pro hiato, dois pontos: quisera um ditongo, uníssono, leve, marcado indelével no peito por dentro, pulsando e pulsando incessantemente. E a espera.
Aos poucos, vejo-o voltando novamente para a 'casa'. Carrega um golinho de razão bem na ponta dos seus dedos. Faxina, aos poucos, alguns dos medos. Retira o pó de alguns segredos, aos poucos. Pondera... Cauteriza, pouco a pouco, essa sangria enquanto ri um riso inteiro e espera...Pela cura, loucura ou poesia (o que vier primeiro).


AOS POUCOS - Lena Ferreira – jun.14

sexta-feira, 27 de junho de 2014

AINDA


Do alicerce ao teto com flocos de lírios, piscavam estrelas como se chamassem a lua enquanto o vento incansável e recorrente, girava o tempo, dispensando argumentos.
A cada giro, outra nuvem, outra viagem que, sem bagagem, tornava-se mais leve e, embora breve, a m o r te c i a pensamentos com sentimentos delicados e difusos.
Na rara pausa, transformado em brisa mole, sussurrava uns goles de riminhas pobres aos nobres que passavam pela rua beijando seus ouvidos com o que não fazia sentido; só para quem sentia.
Do alicerce ao teto com flocos de lírios, chamando lua a lua, ainda piscam as mesmas estrelas purpurinando grãos de poesia e, ainda, o vento gira todo o tempo e não se cansa. Ao contrário, quanto mais avança, facilita a construção que me habita...

AINDA – Lena Ferreira – jun.14

terça-feira, 10 de junho de 2014

CITO AÇÃO

A gente acha
que sabe
o que o outro pensa...

A gente age
pensando no outro,
sabe?

Ah, gente, sabe?
essa situação
é tensa...

Ah, quando achar
o que nem procurou,
repensa...


CITO AÇÃO - Lena Ferreira - jun.14

segunda-feira, 9 de junho de 2014

QUASE NADA

I-

Bem pouco sabia
sobre estilo ou sobre estética
mas sentia o que lia

II-

Bem pouco entendia:
teciam seda à poética
e a primeira cedia

III-

Bem pouco escrevia:
sob uma crítica cética
apenas insistia

IV-

Bem pouco queria:
à parte tema ou técnica,
sopro de poesia


QUASE NADA – Lena Ferreira – jun.14

sexta-feira, 6 de junho de 2014

À NASCENTE


Da prepotência de ser mar, levo comigo
a incompetência nessas águas delirantes
em vastidão, tendo um oceano como abrigo
varrido por diversos ventos dissonantes

Quisera tanto prosseguir, mas não consigo,
nessa batalha inglória, embora fascinante,
onde vencer parece o mais duro castigo,
onde perder carece mais de uma vazante

Roguei ao Sol que evaporasse essas águas
junto com elas, tudo o que entender por mágoas
e engordasse as nuvens desse azul de frio

Depois, ao vento: sopre as nuvens à nascente
pra que essas águas, gota a gota, mansamente
deitem no leito e sintam a calma de ser rio


À NASCENTE – Lena Ferreira – jun.14

quinta-feira, 5 de junho de 2014

ENTREGA


Não prometeu-me nada
nem mesmo um pedaço de lua
nem mesmo faíscas de estrela
nem mesmo a ciranda do vento

Mas me entregou o momento
sem fitas, nós ou fantasias
passados para a poesia;
presente, foi seu sentimento

ENTREGA - Lena Ferreira - jun.14

quarta-feira, 4 de junho de 2014

PARESCÊNCIAS


I-

Olhos cheios
de uma água que entorpece
que, parece, só mais cresce
anuviando a razão

II-

Olhos cheios
de gotinhas de saudade
que, parece, por maldade,
o vento assopra à vazão

III-

Olhos cheios
de uma nuvem que galopa
que, parece, a alma ensopa
dimensionando a aflição

IV-

Olhos cheios
de uma chuva que não tarda
que parece só aguarda
do vento, outra direção


PARESCÊNCIAS – Lena Ferreira – jun.14

segunda-feira, 2 de junho de 2014

QUARTO CRESCENTE

A noite deitou calma nos olhares fim de outono quase inverno, cobertos por quereres vários e vontades  já sem sono. Entre carícias macias e afagos sussurrados pouco a pouco iam sendo satisfeitos e a mansidão da fala aconchegava-se nos dois peitos. A brisa, que brincava na janela engordando as cortinas, escapou por uma das beiras, rodopiando faceira por toda extensão do quarto animando o seu crescente. A lua ao ouvir tanto alvoroço, esticou-se à janela para contemplar a imagem. Encantada com com o que viu, estendeu na madrugada um véu todo salpicado de pedrinhas rutilantes. E para completar a cena, solicitou ao vento do instante que soprasse um doce aroma de rosas, alecrim e de verbena. Atendida prontamente, cada canto desse quarto era de puro perfume e o lume vaporoso que trazia, cobria esses olhares com grandeza em ternura que a noite adormeceu amolecida, perdendo o  encontro com a aurora . Ao acordar, pensou mesmo em ir embora mas logo percebeu que já era hora... era hora de voltar.


 QUARTO CRESCENTE – Lena Ferreira – jun.14

domingo, 1 de junho de 2014

DESPERTA

Desperta para a vida, vai, desperta
mantenha a calma que fora conquista
e em meio de tudo que mostra a vista
preserve a mente, sempre, sempre alerta

Atenção às palavras na hora certa
e se preciso for, faça uma lista
das que só edificam e pacifista,
terá um novo mundo a descoberta

Onde não há seguro ou garantia
de que no entorno há paz e harmonia;
a meta é o equilíbrio bem no centro

Desperta para a vida, vai, é hora
de ver que é inútil procurar por fora
o que, o tempo todo, esteve dentro

DESPERTA - Lena Ferreira - mai.14