quinta-feira, 31 de julho de 2014

NA VARANDA


Um passo até a varanda do pensamento e já é um começo. Aliviar a tensão dos ares do interior mofado, uma necessidade. Bom mesmo seria uma faxina, retirando toda tralha, toda sorte de poeira, todo entulho, todo nada, vazio. Mas, na impossibilidade momentânea evidente, um passo para fora, penso ser mais previdente: um trago de sol, de brisa e de vento e de simplicidade. Novos ares para o mesmo momento. Outras cores para a realidade. Novo fôlego para os sentimentos. Novo ânimo para mais um recomeço. Vontade que realizo.
Um passo até a varanda do pensamento e clareio o juízo entre o que penso que mereço e o que, de fato, preciso.

NA VARANDA – Lena Ferreira – jul.14

sexta-feira, 25 de julho de 2014

ESBOÇO

Recolheu cada um dos estilhaços de tudo que foi um dia
e cortando-se,  nem mais tentou estancar a hemorragia;
nas mãos sangrando, certas certezas virariam cinzas

Enquanto dúvidas ardiam como  brasas vivas nos seus pés,
luas seguiam se alternando na órbita do seu pensamento
e o sol de dentro, de tempo em tempo, recusava-se a acordar

Em que mundo andei enquanto tudo aquilo acontecia?

Onde estiveram esses meus olhos quando mais era preciso?

- perguntas batiam à porta; respostas saltavam pela janela -

Um esboço em primária aquarela disposto na mesa no canto da sala
falava de um profundo abismo bebido a largos goles de vertigens
emoldurado por espinhos virgens que lhes servira de abrigo

Eis no esboço, suponho, a  pista  mais crua, na vista e tão nua:
enquanto tudo acontecia, bebia o abismo do mundo da lua
e, bêbados, entorpecidos, os olhos orbitam  somente o umbigo


ESBOÇO – Lena Ferreira – jul.14

sexta-feira, 18 de julho de 2014

DESSE RISO

É desse riso que acorda o dia
e que contagia tudo, tudo em volta

É desse riso onde nasce a alegria
e que as amarras sempre, sempre solta

É desse riso onde a paz se desenha
e que a alma sempre, sempre sereniza

É desse o riso que falo e que venha;
é desse riso que o mundo precisa

DESSE RISO – Lena Ferreira – jul.14

quinta-feira, 17 de julho de 2014

SERENATA


O poema não despenca, desce em pluma
em tão suave e delicada serenata
num vagar feito densa e oculta bruma
descem versos e mais versos qual cascata

O poema não despenca, descem em pluma
deslizando pelo ouvido, chega à alma
até que, do seu leitor, o sentir consuma
e reintegre, totalmente, a sua calma

O poema não despenca, desce em pluma
dedilhando lindas notas, uma a uma
e traz, sempre, suas rimas mais sensatas

O poema desde em pluma, tão sereno
e com seu suavizar, seu canto ameno
feito pluma, canta em versos, serenata


SERENATA - Lena Ferreira


*publicado originalmente no livro ''Entre sonhos'' - Ed. Utopia - 2011*

VERMELHO VELUDO

Tentava despir-me de tua presença
vestindo - ensaio - ares de mistério
intercalados com olhares sérios

Pensava ser mais fácil e toda tensa
me vi caindo em grande despautério
quando pulaste o muro deste império:

Um salão vermelho forrado com veludo
que, na tua presença, perde o escudo

VERMELHO VELUDO - Lena Ferreira - jul.14

terça-feira, 15 de julho de 2014

COLEÇÃO


E foi colecionando tempestades
que aprendeu a ingerir nuvens de peso
a absorver as suas gotas com vontade
e a absolver o tempo, injustamente preso

Na ingestão, as nuvens sublimadas
estacionavam bem no canto esquerdo
- por uns instantes; logo, alvoroçadas
corriam pelos quintais da voz em segredo -

COLEÇÃO – Lena Ferreira - 2014

segunda-feira, 14 de julho de 2014

ADUBO


Costumava cultivar alguns silêncios
em pequeninos vasos na janela

Alguns nasciam dispostos,
mesmo sem norma e sem regra

Outros cresciam dispostos
mesmo, pelo excesso de rega

Dos poucos que murcharam,
descuidados, nasceriam alguns gritos

Mas, transformados em adubo,
fertilizaram os diálogos mais bonitos


ADUBO – Lena Ferreira – jul.14

domingo, 13 de julho de 2014

PONTUANDO

Com o tempo, a gente aprende a usar a vírgula a nosso favor e respira mais leve ao se deparar com interrogações despropositais. Aprende, também, que algumas situações não merecem ponto e vírgula nem mesmo exclamações irracionais. Com um pouco mais de tempo, a gente aprende e entende a necessidade e o momento certo para o uso das reticências e sem culpa, substitui aspas e parênteses por travessões ou travessuras. Por que não? Tão legais...
Com um pouco mais de tempo ainda, a gente entende esse texto bonito que é a vida: às vezes, um confuso exercício que pede leituras e releituras, margem a margem, quantas vezes forem precisas e outras tantas mais. Às vezes, um texto comprido onde cabem, precisos, muitos pontos finais. 

Lena Ferreira - jul.14

sábado, 12 de julho de 2014

ROSA

Sou a rosa vinda de um jardim deserto
que hoje se abre assim, completamente,
expondo o sentimento mais ardente
mantido, há muito, num lugar secreto

Despetalando o verso a céu aberto
espero que o bom vento, docemente,
leve o aroma do meu peito urgente
com a mensagem de querer-te perto

Manda um sinal que sirva de resposta
a estes sinais, tão meus e tão inteiros
que o teu sinal amainará a lonjura

(meu verso vai varrendo, costa a costa:
nascido num momento verdadeiro,
sussurra: sou a Rosa que procuras...)

ROSA – Lena Ferreira – jul.14

sexta-feira, 11 de julho de 2014

OLIMPO


"Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um Deus e amanheço mortal..." (Lenine)

*

E na noite que desliza em tom solene
solicita, solitário, compreensão
às estrelas que, caladas, nunca mentem;
mais fazem sentir o gosto da ilusão

No pensar que possuía em suas mãos
todo o mundo, tolo, julgando imortal
entre aplausos, o ego vencendo a razão
ergueu na alta nuvem frágil pedestal

- mas toda nuvem, um dia, chove, é natural... -

No silêncio das estrelas, o abandono
sem resposta e insatisfeito, adormece
sonha o Olimpo, acorda e já não tem trono;
mais um ''Deus'' que como mortal amanhece

OLIMPO – Lena Ferreira – jul.14

quinta-feira, 10 de julho de 2014

VEM SER


Entre o certo e o errado
tudo é aprendizado

Entre o aplauso e o assombro
tudo é peso no ombro

Entre a rima e o verso livre
nada o que dizer que prive

Entre a vaia e o dedo em riste
nada de sentir-se triste

Entre a lua e as estrelas
seja quem a oferecê-las

Entre o sim ou entre o não
deixa: vem ser coração


VEM SER – Lena Ferreira – jul.14

quarta-feira, 9 de julho de 2014

POR DIREITO


Se durante uma batalha
não atinjo minha meta
sigo em frente, linha reta
consciente dessa falha

Levo o bom aprendizado
que nem sempre o que se visa
é o que se mais precisa;
facilito os pés, cuidados

Posso até sair de cena
aparentando cansaço
mas não me rendo ao fracasso;
minha alma não é pequena

Num descanso necessário
repenso minha conduta
retornando, logo, à luta
com um outro itinerário

Há vezes, insistir parece inútil
considerado o desgaste e o preço
pago pelo que nem sei se mereço
vestindo, às vezes, um motivo fútil

Contudo, desistir é covardia
diante de qualquer objetivo
da luta, que me faz mais vivo;
da luta que me faz ver poesia

Eis a certeza que alimento, enfim:
por mais cansado que esteja meu peito
tudo aquilo que for meu por direito
encontrará um jeito de chegar a mim

POR DIREITO – Lena Ferreira – jul.14













segunda-feira, 7 de julho de 2014

VEJO


"Estes sãos os dias em que os pássaros voltam.
Muito poucos, apenas um ou dois
Para dar uma olhada para trás."

Emily Dickinson 

*


E nestes dias, fartos do voo em círculo
vejo alguns pássaros, num pouso consciente
espiando o passado como simples visitante
agradecidos olhares, um pouco mais experientes

E nestes dias, enquanto descansam breve
vejo-os aspirando cada pena, cada pluma,
uma a uma, inspirando asas mais leves;
vejo que, para um amplo voo, se arrumam

VEJO - Lena Ferreira – jul.14

quarta-feira, 2 de julho de 2014

DECORAÇÃO

.Muda
a cor da parede
muda a trama da rede
e não vê solução

Muda
a cama, o armário
muda o escapulário
e não vê solução

Muda
o vaso do canto
muda o manto do santo
e não vê solução

Muda
o criado-mudo
muda o espelho, o escudo
e não vê solução

Muda
tudo no quarto
muda o “fico” e o “parto”
e não vê solução

Muda,
arranja o seu peito:
tira o pó, troca o jeito;
muda de coração

DECORAÇÃO – Lena Ferreira – jul.14

terça-feira, 1 de julho de 2014

CELEUMA


Por que tanto incomoda a noite escura?
É pergunta com resposta irrelevante
posto que já amanhecera o bastante
acima dos olhos de grave censura...

Por que tanta acusação sob tortura?
A resposta vem de um vento equidistante
apontando, como um inventariante:
repetidas salivadas de amargura,

Repetidos lances em raso mergulho
na escassez de água, bêbada de orgulho
pelo brilho de uma lua acinzentada...

(se a intenção for dissolver esse problema,
não só aponte esses fantasmas em celeuma;
seja luz à essa noite atormentada...)


CELEUMA – Lena Ferreira – jun.14