sexta-feira, 29 de agosto de 2014

SONHAR-TE


E tudo é vago quando a noite principia...
Traz-me a tensa incerteza
de teus olhos sobre os meus

E, devagar, os momentos tensionados
aflitivos, todos, tantos, fazem-me buscar - sei onde -
pelas tuas muitas mãos

Olho pro céu que pariu filhas-estrelas
recolho só uma delas
que me nina até sonhar-te

SONHAR-TE - Lena Ferreira -

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

NUM VERSO BREVE


Coberto com a cor acre fim-de- tarde
vigia os passos apressados dessa lua
que, gira e gira, alternando suas fases
independente e indiferente aos olhares

Percorre céus, visita outros lugares
enquanto o vulto, entregue à vigilância,
remói o vento, dispondo na balança
o peso vago das graves suposições

Enquanto a lua segue e lua, noite e dia
irreverente, míngua e cheia, cresce, nova
com fases, frases que namoram o absurdo
agita o vulto, leve, sem grandes alardes...

...num verso breve que uma brisa facilita


NUM VERSO BREVE – Lena Ferreira – ago.14

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

SEDE


És parecido com o mar:
no avanço, recuo ou descanso
o risco, o farol e o refúgio
a calma, a força e a ternura
o fruto e a fome
e a sede
minha

E quanto mais me cedes
dessas ondas imprevistas
desparece-te com a terra;
enquanto deságuo em ti os meus excessos
germinam o fruto e a fome
e a sede
tua


SEDE – Lena Ferreira – ago.14

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

COMO SE AINDA NÃO SOUBESSES


Conserva a pureza de tuas vestes;
quando andares pelo insano mundo,
evita a letra oca em falso fundo
- e digo como se ainda não soubesses -

Preserva o frescor das primaveras
na fala mesmo quando for inverno
releva todo tom que não for terno
revela em ti o amor que tu esperas

Reserva, do silêncio, um instante
ao menos um, diário e bastante
para servir-te às reflexões

Conserva o coração e a alma branca
conserva, com respeito, a fala franca
preserva-te das tolas ilusões


COMO SE AINDA NÃO SOUBESSES – Lena Ferreira – ago.14

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

DEVANEIOS - 01


Não fôssemos tão sóis, quem sabe compreendêssemos o teu espanto ao ouvir-me falar dessa saudade que bate em mim - e eu muito apanho e como dói - ao recordar aqueles dias que eram tão nossos, amanhecidos entre poemas sem rimas e sem métrica. Onde o melhor da poética era ninarmos entardeceres enquanto acompanhávamos lentamente um rastro negro e virgem cobrindo o céu. As noites infindáveis escorriam mansamente entre diálogos silentes enquanto carícias mais que ternas mantinham a madrugada acordada por mais tempo. Mas...Tudo fora abreviado por um grave vento num dos melhores momentos. Talvez por isso, a nuvem da incerteza paire nos arredores da tua razão, confundindo-te, quem sabe, por um tempo a mais, motivada pelos meus sinais. Atrevida que sou, direi ainda que esses sinais provocaram um estranho marolar bem no meio do teu peito e, se ainda te conheço, adivinho tua face corada, levemente inclinada para o lado esquerdo. Se assim for, direi que não estás sozinho nesse oceano transbordante de vontades. Mas...Suposições, apenas. Certo em tudo isso é que um grito contundente ecoou no mais profundo dessas noites insones trazendo a lembrança de tuas palavras boiando pelos ares do meu quarto. E foram elas... Sim, foram elas que acordaram esses dias de ausências tantas, permitindo-me chegar até aqui, quase vento, quase brisa, sussurrando lentamente: não fôssemos tão sóis...

- Lena Ferreira - (in Devaneios - 01)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

MAIS SIMPLES


Uma névoa bastante oportuna
com lábios de nuvens raras
aliciava as cortinas enluaradas
sussurrando-lhes secretas falas

Grávidas, em vaporosas vestes,
desfilaram silentes pelas salas
gestando o desejo mais simples:
dias com noites mais claras

MAIS SIMPLES – Lena Ferreira – ago.14

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

REFRÃO


Enquanto os pés descalços distraíam-se com a areia fina das margens do Araguaia, uma voz suave, macia acariciava um passado ainda recente onde uma chalana cortando as águas serenas do rio, levava para longe aquela morena que tinha em seus braços, agora com os olhos empoçados de mágoas(com razão, a voz dizia), partindo em dois o seu peito. Numa conversa amena com a brisa e a paisagem, confessava lamentoso seus graves pecados: não havia cuidado como merecia. Não havia amado como deveria. Não havia o efeito transver o defeito no dia após dia. O jeito, por hora, era um canto mais calmo pois quando o rio alcança a curva não tem mais volta e a revolta não adianta nem um palmo. Então, abraçado à viola, inseparável companheira, dedilhou as notas daquela canção onde o refrão trazia a alma à garganta: “É preciso a chuva para florir...”

E enquanto tocava suave a melodia, bem de levinho essa voz chovia.

REFRÃO – Lena Ferreira – ago.14

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

VERSOS CALMOS

São calmos os versos nascidos
nessas últimas horas inverniças:
quase salmos, quase preces,
quase reza, quase um acalanto

Calmos, tão calmos que não choram
apesar do frio intenso, o vento tenso
e a palmada do pós parto; se aquecem
agasalhados por estrelas e pelo canto

...que nina cada verso com zelo profundo
e, pouco a pouco, apresenta-os ao mundo


VERSOS CALMOS – Lena Ferreira

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

NO CALENDÁRIO

No rio dos teus olhos
leio meus mares e ventos
debruçada no teu peito

Águas doce e salgada
misturadas ao alento
conferem o curso do leito

Antes, passávamos pela vida
contando os dias,
contando os dias...

Procurava-me,
procurava-te
embora inconscientes

Cruzando caminhos,
olhares,
identificamo-nos

Sorri com os olhos
Tu, com os dentes

Guardamos no calendário
o cheiro desse dia:
era inverno e ainda assim, florescia

Desde então,
deixamos de contar os dias,
deixamos de contar os dias...

NO CALENDÁRIO – Lena Ferreira – ago.14

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

ME POESIA


Nos dias em que a urgência falta
é que bebo tua calma
numa taça bem alta

São dias de risos maduros
em que verdades infantes
ultrapassam os muros

São dias que deslizam perenes
em carícias aos segundos
até que a noite acene

E noite que mais parece dia
onde o sol do teu peito
brilha e me poesia

ME POESIA – Lena Ferreira – ago.14

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

PÁSSARA


Quem escuta teu trinar tão convincente
pouco sabe do que trazes na memória
do que passaste, metade da tua história
do que vai por trás do rosto sorridente

Quem avista esse teu voo tão seguro
pouco sabe do peso que tens nos ombros
dos fantasmas que te tomam de assombro
quando precisas de ponte e encontras muro

Quem contempla o teu pouso tão sereno
confiante em todo e qualquer terreno
adivinha que a bagagem é pequena

Mas quem escuta teu cantar de forma isenta
reconhece que esse canto representa
uma forma de arejar as tuas penas



PÁSSARA – Lena Ferreira – ago.14