segunda-feira, 29 de setembro de 2014

POR LÁ

E foram calmos esses dias passados entre um verde muito vivo e um azul celeste inimaginável que me amanhecia. Vendo o sol se espreguiçando bem cedinho e, sorrindo, pedindo licença às nuvens raras para iluminar o céu todinho, todinho, tão calmo...
Calmos dias de se molhar os pés na grama orvalhada, respirando o presente, o instante. De se tomar um matinal na varanda dividindo os farelos com os bichinhos, visitantes . De estender roupas nos varais e ficar observando a dança doce patrocinada pelo vento. De preparar refeições alegres e tirar uma boa soneca após o almoço. E sonhar. Sonhar, sempre. Sonhar leve e macio.
Fácil nesses dias acordar entre a algazarra dos passarinhos e o farfalhar do vento lambendo as saias das árvores, num quase fim de tarde. E, sem alarde, acompanhar a noite trazendo estrelas, uma a uma e, tão de perto, que era certa a impressão de que estendendo um pouquinho assim a mão, poderia tocá-las. O balé dos vagalumes apresentava, a cada noite, uma nova coreografia enquanto o coro das cigarras anunciava mais um dia entre farturas ternas. Com ele, me recolhia para internas leituras.
E foram assim esses últimos dias e se não trago, na bagagem, poesia, é porque ela preferiu ficar por lá.



POR LÁ - Lena Ferreira - *

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

COLHEITA

Sentada no quintal amanhecido
envolta pelos ares da primavera
observa os frutos que foram colhidos
e, silenciosa, agradece a espera


Com uma prece breve e sincera
por ter, boas sementes, escolhido
pela fé de quem não se desespera
pela coragem, por não ter desistido

Apesar da aridez do solo, dos ventos
e das chuvas em excesso, o intento
fora alcançado, com amor e cuidado

Sentada, calma, entre frutos e flores
respira as delícias, odores e sabores,
de colher tudo aquilo que fora plantado


COLHEITA - Lena Ferreira - set.14

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

PUPILA


Quando esses olhos nasceram
morreram os inúteis prantos
que, caminhando alma adentro
transformavam em nó, o laço
externo

Quando esses olhos nasceram
milagres migraram pro canto
que, escorrendo por dentro,
iluminaram o espaço
interno

Quando esses olhos nasceram
sorrisos cantaram acalantos
que embalaram o centro
equilibrando o compasso
- mais terno -

Quando esses olhos nasceram
pensaram em dar-lhes nome santo
já que eles servem de unguento
já que são como um abraço
eterno


PUPILA - Lena Ferreira – set.14

terça-feira, 23 de setembro de 2014

QUE ME CARREGA



Carrego o mar desde o batismo
e vê-lo sempre me alimenta
à alma, viço acrescenta
na vida, afasta-me do abismo

Se dele ponho-me distante
por muito tempo, entristeço
no espelho, não me reconheço
na estrada, não sigo adiante

É como se uma extensa bruma
cobrisse meus olhos e a espuma
das ondas mudassem de endereço

Carrego o mar que me carrega
quando o vejo, é tão inteira a entrega
que, de tudo em volta, me esqueço

QUE ME CARREGA – Lena Ferreira – set.14

*mote* Angela Chagas

NO AUGE


Sonhava ser a poetisa eleita
Aquela que só escreve suavidades
Aquela da rima exata e perfeita
Aquela que não inventa verdades

Sonhava ser aquela que só deita
A inspiração, a sua enormidade,
Em pergaminhos alvos e ajeita
Nas entrelinhas, desejos, vontades

Sonhava ser a que de tudo sabe
E, no auge da vaidade que me cabe,
Sonhava-me poetisa idolatrada

A realidade, com dentes de sabre,
Morde-me os olhos que logo se abrem;
Desperto e, fora o sonho, não sou nada!


NO AUGE – Lena Ferreira – ago.14

*mote VAIDADE - Florbela Espanca *


MÁGOA


É quando as palavras explodem
e seus cacos pontudos recortam a alma
que sangra
e, sangrando,
consome-
se
ressente

Vem o tempo que estanca a sangria
o mesmo tempo que cicatriza o corte
que some
e sumindo
num sumiço
aparente...

...decora o sótão da mente


MÁGOA – Lena Ferreira – set.14 

*mote* Rodrigo Olem



OUTUBRO

Dos sonhos crudelíssimos que ocorrem
Nas noites assombrosas e ainda frias
Nascem-me mais vazantes em agonias
Que pelos olhos doidos ora escorrem

Bem tento afugentá-los mas não correm;
Insistem em perturbar-me até de dia
Arrastando o passado qual sangria
Que não desata e o presente colore

Em  tons medonhos de um estranho rubro
Com os quais, incauta e ingenuamente, cubro
A alma, o corpo e a mente... Pesadelo!

Conforta-me a chegada de outubro;
Nas luzes de seu aceno é que  vislumbro
Sonhos em sono ameno - hei de tê-los -

OUTUBRO – Lena Ferreira – set.14


*mote - CAMINHO de Camilo Pessanha *

CAUTELA


Ando me revestindo de cautela
Diante de um mar tão turbulento
Em ondas que anunciam sequelas
Acompanhadas de um forte vento

Penso que eu já não sou mais aquela
Meus braços vão em um ritmo lento
No turvo dessas águas, as querelas
Transbordam, transtornando... Não aguento

Nadar, nadar; braçadas em cansaço...
Carregando o peso dos olhos baços
O risco de afogar-me é iminente

Nas águas, turvas, turvas, como um cerco,
Me acautelo pois se lá me perco
Netuno envergará o seu tridente


CAUTELA - Lena Ferreira - set.14 
*mote* Jane Moreira

DAS OSCILAÇÕES


Há dias que as palavras, em euforia,
Saltitam pela língua e não se aquietam;
Parece mais que clamam por alforria
Parece mais que todo avesso espeta

Há dias em que, em sofrível agonia,
Desmaiam e à mudez se reprojetam
Parece mais que sofrem de afonia;
Parece mais que todo avesso é reta

Há dias em que um rio longo e largo
Carregando seu gosto um tanto amargo
Encharca o rosto, travando a garganta

Há dias, não tão raros, que um sol-riso
Raia na alma e é bem mais que preciso
Ah, se as oscilações não fossem tantas...


DAS OSCILAÇÕES – Lena Ferreira – set.14


 *mote Raquel Ordones*

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

PASSARINHO

Um passarinho contou-me, ao pé do ouvido,
que é alegre quem olha para frente e para os lados
um passarinho contou-me e eu não duvido
que em nada adianta viver preso no passado

Um passarinho contou-me que  todo passeio
em qualquer lugar que seja, dispensando o peso
é mais proveitoso e leve, sem drama ou receio
há de se alcançar um pouso, seguro e  ileso

Um passarinho contou-me que toda espera
é mais proveitosa se for cultivada;
quem planta sementes para primavera
tem uma colheita mais que recompensada

Um passarinho contou-me e eu não duvido
pois contou-me tudo ao pé do ouvido...


PASSARINHO – Lena Ferreira – set.14

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

QUASE MEU



É quase minha a certeza
da autonomia das folhas
que se desprendem, moles,
em cada outono prévio
em cada vento inverso
em cada verso interno
em cada averbação

É quase minha a destreza
na condução das nuvens
levemente tingidas de cinza
que pairam no pensamento
em cada passo incerto
em cada nó que aperto
em cada indecisão

É quase minha essa calma
diante de tantos fatos
ocultos atrás da porta
que, em superfície, relato
em cada linha torta
em cada letra morta
em cada exclamação

É quase meu esse espelho
diante de seus olhos vermelhos


QUASE MEU – Lena Ferreira – set.14

terça-feira, 16 de setembro de 2014

GUARDIÃ


Guardarei o teu silêncio manso e calmo
como donzela que resguarda a castidade
e, nos porões do meu peito, com cuidado
acomodarei cada palavra que fora adiada...

(...ao lado das minhas)

Ah, se pelo menos uma delas escapasse
como quem sai à noite em desaviso
estremeceria a lua e, trincando estrelas,
certamente o vento espalharia segredos

Sendo assim, eis-me aqui, zelosa e casta
guardiã desse silêncio diplomático
e embora monte guarda noite e dia,
há tempos dispensei minha armadura...


(...bem mais leve é o tecido da ternura)


GUARDIÃ – Lena Ferreira – set.14

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

RESGATE

Debruçada nas areias do teu peito
ponho-me a admirar o mar dos olhos teus

Ondas volumosas de intenso desejo
convidam meu instinto a um breve mergulho

Aceito

Submerjo em teu oceano raso e claro;
resgata-me com um profundo e raro beijo


RESGATE - Lena Ferreira - *

sábado, 13 de setembro de 2014

CONSAGRAÇÃO

Deitou seus olhos cheios de cuidados
e sua calma macia sobre a minha pressa

- os meus, fechados assim, como quem reza
abriram-me o peito em quase explosão -

Vasto em ritos, rimas e isento de promessas
consagrou-me um verso e, batizando-me os lábios,

...deu, à minha urgência, a extrema-unção


CONSAGRAÇÃO – Lena Ferreira - set.14

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

RELATOS - 2


Subia a ladeira íngreme da vila como que levasse o peso do mundo em um dos ombros. No outro, como tentando equilíbrio, revezavam-se as contas do fim de mês e uma sacola magra com o que conseguiu negociar no mercadinho da esquina. Morava na penúltima casa, tingida de um verde que o tempo desbotou faz anos. O sol ainda não tinha se posto. Talvez por isso o suor brotava por todos os seus poros mas mesmo esbaforido com toda sua carga, saudou a portuguesa refestelada na escada da casa três. Era uma senhora robusta e simpática que puxou conversa sobre banalidades. A chuva da semana passada. O cachorro da casa cinco que cismava de latir de madrugada, a cota extra exorbitante cobrada por conta do conserto do portão automático. O lixeiro que...Nesse ponto, já não escutava mais nada. Apenas sorria gentilmente enquanto voltava às suas considerações internas. ''Não é mole, não.'' Esta frase, dita num tom conclusivo, trouxe-o novamente à realidade. Concordou. Um breve cumprimento e continuou sua escalada. A pausa pareceu aliviar todo aquele peso carregado e, mais disposto, logo chegou ao seu portão. Três degraus, a maçaneta e o segredo e estaria em segurança, longe do tumulto do dia que havia passado. Em casa, era ele, era só, era seu mundo. Era onde todas as cobranças davam de cara na porta. Onde todas as censuras não lhe diziam nada. Arriou a sacola na mesa da cozinha e, aos poucos, despiu-se; da roupa, das taxas, das contas, das notas, moedas, do peso, do dia... Um banho morno e demorado lavou todo o resto. Nu, retornando à cozinha, abriu a pequena geladeira e diante da visão desértica, sem aborrecimento, retirou da magra sacola um pequeno pacote. Colocou uma panela no fogo onde logo a água ferveu. Coou um café ralo e amargo que bebeu sentado no sofá da sala. A janela, sempre aberta, exibia uma lua perfeita, num céu escasso em estrelas. Não havia vento, não havia brisa. Não pensava em nada. Apenas sorvia, o café e a lua, respirando a tranquilidade do instante e antes que o cachorro da casa cinco começasse a latir, vestiu-se da noite para se recompor e poder escalar, outra vez, outro dia.


- Lena Ferreira - Relatos 2

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

CIRCULAR


É circular a trajetória percorrida
pelas letras tortas, tontas e insanas
que, esbarrando na brasa quase esquecida,
ardem, alimentando uma nova chama
que as consomem até virarem cinzas
e, sopradas por um vento criativo,
ressurgem nas curvas do labirinto
onde brincam de inventar outras palavras

CIRCULAR – Lena Ferreira – set.14

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

NO INVERSO


Enquanto lhe procuravam
entre as cores desbotadas e sombrias
dos mais estranhos e arrastados dias
só olhavam, mais não viam

Enquanto lhe procuravam
entre as folhas desmaiadas e frias
dos outonos mais extensos em agonias
só olhavam, mais não viam

Enquanto lhe procuravam
entre os enredos mais doídos e insanos
das prosas volumosas em enganos
só olhavam, mais não viam

Enquanto lhe procuravam
entre as redes de grosseiras texturas
bordava suavidades e canduras
só, no inverso que não viam


NO INVERSO – Lena Ferreira – set.14

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

DEVANEIOS - 2


Morna e lentamente acenando-me, a tarde, sem alarde, dá adeus a mais um dos meus conflitantes dias. Deixa-me tão só que, aos pés da poesia, rogo que amenize essa pontinha de saudade...
Logo a noite vem e o meu peito todo arde enquanto um rio calado pelo rosto inteiro escorre até desaguar nos lábios; lá é onde morre junto com as palavras aflitas, mas covardes.
Uma brisa conivente apronta-se à me beijar. Entregue a ela, de leve, adormeço... É quando, muito viva, sinto a tua palma tateando todos os cômodos do meu pensamento.
A noite então madruga e a brisa vira vento que me acorda em susto desse insano e breve sono. É quando mais uma vez, inutilmente, questiono:
-Por que é que só em sonhos vens me visitar?


- Lena Ferreira – in Devaneios 2 - set.14

sábado, 6 de setembro de 2014

RELATOS - 1

Os pés preguiçosos recusavam-se a tocar o chão. Talvez pelo sonho bom ao qual ensaiara entrar. Talvez pelo cansaço dos dias passados em campanha. Talvez por preverem o que viria por trás do toque insistente na porta. Talvez... Levantou-se, passou as mãos nos cabelos desalinhados e, bocejando, caminhou pelo longo corredor iluminado pelas arandelas foscas que haviam escolhido com esmero para a decoração da nova casa. Carregava um medo bobo e infantil de estar sozinha no escuro e essas luzes nunca ficavam apagadas.
Chegou à porta com a velocidade que o sono permitia e abrindo-a, um rosto pálido, magro e cerimonioso inclinando a cabeça em cumprimento, deu-lhe a notícia fatídica. Entre o curto relato e o sinto muito, nasceu uma eternidade infinita na qual um chão partido ao meio sugou-a. Pensamentos diversos, pontudos, confusos, passaram por sua cabeça naquele breve instante. Há pouco, falaram-se, renovando juras e promessas. Consertaria o encanamento da pia, iriam juntos ao Municipal e nem dormiria no segundo ato. Debateriam a última leitura de Hesse. Passariam uma borracha no passado e diriam mais vezes 'eu te amo' olho no olho. Tudo bem que nunca acreditara de fato no cumprimento de uma delas, mas aquela, a de estarem juntos para sempre, levava a sério e agora...Nem presente. Imóvel aos pés da escada, nem se deu conta da figura esquálida se distanciando, levando consigo a sombra e a sobra do seu sorriso.
Saída do transe, enquanto fechava a porta, limpou o rosto banhado pelas lágrimas causada pelo noticiado. A dor da frase não dita era o que mais lhe consumia. Subiu as escadas rememorando tudo que viveram e foi tanto e tão bonito que o pranto recolheu-se a um canto dando lugar à coragem de encarar os fatos, o momento. Estava só novamente e a madrugada insistia. Apagou as luzes das arandelas e, no escuro, percorreu o corredor, que parecia ainda mais longo, de volta ao seu quarto. Jogou o corpo na cama desarrumada e com cuidado, aconchegou os pés, ainda mais cansados, no colchão. De olhos abertos, fixos no teto, desenhava uma imagem no ar mas o vento por teimosia, num só sopro, a desfazia. Queria dormir, queria sonhar, queria fugir da dura e triste realidade mas nada disso acontecia. Fechou os olhos, abraçada às lembranças. Já sentia os efeitos da saudade que, como uma anestesia, trouxe-lhe um cochilo breve...
Não demorou muito para que o sol a acordasse. Mas, o que queria no momento era que seus pés, só por alento, não precisassem tocar novamente o chão...

- Lena Ferreira - in Relatos 1 - set.14

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

PARA O TEMPO


Nem se deu conta do tempo passado
entre um e outro festejo
entre um e outro ensejo
entre quem sempre esteve ao seu lado

Nem se deu conta que já foi criança
entre um e outro brinquedo
entre um e outro segredo
entre quem lhe nutria em esperança

Nem se deu conta de tornar-se adulto
e, para o tempo, foi como um insulto
se distrair de um detalhe assim...

Quando chegou a dar conta de tudo
todo diálogo tornou-se mudo;
foi o tempo dando conta do seu fim...


PARA O TEMPO – Lena Ferreira – set.14

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

CERZIDURA


Na testa, o vinco dos preocupados
na alma, as dobras da desesperança
na boca, o sorriso dos desesperados
no peito, uma vontade que não cansa:

Rasgar a alma, sem precisar atalhos,
em cortes, picotes e pedaços vários
até que, diante dos ínfimos retalhos
possa escolher somente o necessário...

….pra re-vestir-se, deitando à costura,
botões, colchetes, pontinhos de trança,
renda ou bordado, em efeito cerzidura;
vestida em calma, a alma, sim, avança


CERZIDURA – Lena Ferreira – set.14

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

[FLOR]IR


E sinto a madrugada escorrer por esses olhos fim  de inverno enquanto escolho a semente certa para plantar dentro do peito. Meu grande alento no momento é o ensaio da tímida certeza de que o sol espera-me logo a frente mesmo que acima das densas e cinzentas nuvens...que, qual fumaça de locomotiva, esconde o azul que, rindo, me acena; pressinto. Então, serena, cubro-me e me deito ajeitando o pensamento fertilizado. Adormecendo levemente, sonho com a colheita farta em flores anestesiando dores e cansaços, perfumando os laços renováveis. Desperto com o quarto alaranjado vivo, intenso e tão quentinho e, de braços dados com a brisa, leve, vejo a esperança com os dois pés no mesmo caminho...Sigo-a; há ainda um longo caminho para [flor]ir.


FLOR[IR] - Lena Ferreira -

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

PELO MENOS


Do silêncio semeado pelo atrito
nem tão fértil, nem tão frágil, nem tão puro
nasceria, dia ou outro, lhe asseguro
pelo menos, um estrondoroso grito

PELO MENOS – Lena Ferreira – ago.14