sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ACONCHEGO


No aconchego do teu abraço
esqueço-me dos dias urgentes, dos dias aflitos
em busca insensata
e do encontro-conflito com a dama ingrata
que usurpava a razão - paixão, hoje, não...

Enquanto sussurras tuas ternas juras
de amor eterno - enquanto dure - ao pé do meu ouvido
a calma abraça a minha alma
e avisa-me do amor manso e sincero
que há tanto tempo espero
para o meu coração...

No aconchego do teu abraço
- coberta de carinho - descanso o cansaço
das buscas inúteis e urgentes,
descanso serenamente
nesse confortável ninho
bordado por uma calma sensação...


ACONCHEGO - Lena Ferreira - 


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

BIGAMIA


Percebo um silêncio que, mansamente, flerta comigo desde que a minha alma amanhece até que eu anoiteça. E, mesmo sabendo-me casada com a inquietude, insiste; sorri das queixas vazias, dos risos bobos, dos lamentos fúteis, das fúrias breves e euforias largas. Sempre, sempre com um sorriso miúdo, refrescante e sedutor.
Ando pensando, seriamente, em render-me à sua proposta: calar o tempo, observar um tanto mais de tudo o que se passa antes de libertar o verbo da garganta. Antes de por a língua em cena. Antes de por o mundo a perder. Antes de...
Ando pensando em reservar a ele, pendurado no céu da minha boca, a palavra sacrossanta loucamente profanada até aqui. Quem sabe assim, travemos uns diálogos mais macios...Quem sabe, então, a compreensão desça com calma dos céus...
Talvez assim, os véus que cegavam a razão, se extinguam e os olhos enxerguem o que antes se revestia de mistério. Com os poros, peles e pelos entregues a esse apelo silente, os lábios quietos, alimentar-se-iam de mais vida e poesia; essa é a promessa...
Enfim, decido. Render-me-ei a esse silêncio que me sonda, diuturno. Aceito seu cortejo tão galante, refrigério que antes me constrangia. E, antes que alguém pense em adultério, aviso que a inquietude concordou com a bigamia.


BIGAMIA – Lena Ferreira – out.14


domingo, 26 de outubro de 2014

EU NÃO SOU FLOR QUE SE CHEIRE

Eu não sou flor que se cheire;
sou flor que o perfume exala
quando ouve e sente a fala
delicada, mansa e sincera

Não sou flor de primavera
sou de todas estações
suportei vários verões
e a dureza dos invernos

Sempre com um sorriso terno
mesmo na adversidade
não por mera vaidade;
questão de sobrevivência

Não sou flor de quintessência
nascida num solo seco
flor que careceu de esterco
flor que não suporta vasos

Flor que tem os olhos rasos
tem amor à poesia
tem coragem e, noite e dia,
tenta o ajuste da essência


EU NÃO SOU FLOR QUE SE CHEIRE – Lena Ferreira – out.14

sábado, 25 de outubro de 2014

TARDES DE OUTUBRO


Nessas tardes de outubro, cai a chuva sobre as flores. É o céu que se comove diante de tanta beleza que a natureza apresenta e alimenta os olhares do mundo.
No cenário que vislumbro, cada gota representa uma lágrima sincera desse céu que, comovido, verte a sua gratidão por mais uma primavera.
Nessas tardes de outubro, sinto o quanto vale a espera e, num suspiro mais profundo, em cada gota, em cada respingo, lavo a alma e o coração e um novo perfume descubro...

TARDES DE OUTUBRO – Lena Ferreira - out.14

ADERÊNCIA

Eflúvios de proporções cristalinas
vestem os vários mergulhos de nós
entre espumas rutilantes e fartas
entre os afagos calmos e precisos

- pelos cantos contidos dos apelos
pelos veios ocultos e distintos -

Aderem peles, poros, pelos e, impudicos,
entregamo-nos, inteiros, ao momento
deslocando esse tempo que morre
lento, vagarosamente lento e só

- pelos cantos do cômodo conforto
pelos meios improváveis do instinto -

Nessa mansidão demorada e morna
pétalas de estrelas purpurinadas
orbitam entre as imensuráveis delícias
perfumando promessas impossíveis


 ADERÊNCIA - Lena Ferreira -

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

FILTRO

Aprender a filtrar o que se ouve e o que se diz garante-nos um pouco mais de energia para saborear o dia, a semana, o mês, o ano, a vida! É um exercício contínuo e árduo, sim, no começo mas dominada a 'técnica', fica mais fácil e tem valido muito a pena. Entender que nem tudo o que nos enviam precisa ser recebido, poupa-nos de desgastes desnecessários. Se aceito, passa a ser meu. Descarto. Há tanto de bom e de bem para ser vivido e que é servido minuto a minuto que se ocupo as mãos com o que subtrai, não haverá meios de receber o que acrescenta. Cada um dá ou deseja ao outro, o que tem. Eu desejo-lhes o bem.


FILTRO - Lena Ferreira - out.14

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

ANTES NÃO


Uns virão
e ficarão
por perto
outros não

Uns irão
e voltarão
pra perto
outros não

Esta é a lei:

nada é certo
nada é seu
nada é meu
nada é em vão

E assim
ir e vir
'não' e 'sim'
se revezando
e aceitando
as escolhas


Como folhas
de outono
de ninguém
ninguém é dono

Mas, abrace a sensatez:
antes 'não' do que 'talvez'...




ANTES NÃO - Lena Ferreira – out.14


terça-feira, 21 de outubro de 2014

EU POETA


Há um ser que em mim habita
e transborda em sentimentos
e nesse transbordamento
à alma possibilita

Viagens de entrega plena
de entrega que varre mundos
mergulho, vou lá no fundo
retorno, leve e serena

Como um sopro de brisa, leve
minha mão, num instante breve
conduz, calmamente, a pena

Sentindo-me tão pequena
perante o que me repleta
descubro o meu eu poeta


EU POETA - Lena Ferreira - 13/11/08


sábado, 18 de outubro de 2014

NO SILÊNCIO DA MANHÃ

No silêncio da manhã que se inicia
eu elevo o pensamento, ensolarado
por um céu de brilho intenso azulejado
sob as nuvens que o vento acaricia

Logo sinto responder-me a energia
de um sol que me abraça com cuidado
de um sol zeloso que ia preocupado
com meu riso disfarçado de alegria

Retirando o ranço dos resmungos tristes
embalou a sombra do que não existe
enviando cordialmente ao passado

No silêncio da manhã, meu peito leve
pronuncia uma oração sincera e breve:
gratidão pelo presente renovado


NO SILÊNCIO DA MANHÃ - Lena Ferreira

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

DE QUANDO

Sentada na varanda, te espero,
ao lado da roseira cor de rosa
e abraço a lembrança mais frondosa
onde era meu teu verso mais sincero.

Talvez pelo perfume que exala
das rosas, o passado venha à tona.
- de quando, do teu peito, eu era a dona
rimando o verso que hoje se cala. -

Sentada na varanda, sinto o vento
acarinhando o vão do pensamento
que teima em prosseguir nessa espera.

Talvez, quem sabe um dia, na chegada
tu digas que ainda sou tua amada
e dê-me o beijo que jamais me dera

DE QUANDO - Lena Ferreira - mai.14

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

CONVERTO

Avesso o verso e inverto o verbo em desaviso
amasso o maço de papel e o improviso
arrasta a voz e atrai os nós todos pra dentro
que, emaranhados, travam a via bem no centro

Imerso em vento, em passo incerto então, deslizo
analisando o traço e o risco, catalizo
as impressões entrelinhadas mar a dentro
que muitas vezes servem, à ferida, unguento

Converto o sopro da sangria e cicatrizo
o corte raso e em superfície, paraliso
a pulsação - privo de ar mas, só aguento
até a próxima aventura em que adentro -


CONVERTO – Lena Ferreira – jun.14

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

DO SOPRO

Sentindo o sopro da palavra ao longe
sussurrada, delicada, sobre a pele nua
se declara, instintiva, pelos poros; sua
gotejando incertos versos de amar baixinho

E tentando ocultar alguns segredos castos
sob as folhas de um outono morno, lento e vasto
retempera as sensações em verbetes voláteis
na viagem onde o embarque não pergunta quando

E do sopro, certas folhas que iam semimortas
reanimam, reverdejam, transferindo o viço
para o pouso desses versos em outras viagens
resguardando a semente do vento inverniço


DO SOPRO – Lena Ferreira – mai.14


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

DO PULSO

E na briga contra o tempo
tropeços trituram os ponteiros
segundos apressando efeitos
demonstram os defeitos não raros
minutam as horas em desgoverno
e o pulso, o pulso em frangalhos

Ah, tempo...Há tempo? Qual jeito?
- Ouvir o tique-taque do peito.


DO PULSO - Lena Ferreira - out.14

domingo, 12 de outubro de 2014

ENTRE SUSSURROS

A tarde vai deitando quase calma
Na palma, levo um tanto da esperança
De quem ainda caminha e não se cansa
De carregar o bem no pulso d'alma

Em breve, a noite vem trazendo a brisa
Pra aliviar, do dia, esse mormaço
E, da palavra,  todo esse cansaço
Que, num quase silêncio, me avisa

Entre sussurros castos e tão puros
Que, erguendo pontes no lugar de muros,
A caminhada, sim, será mais leve

A noite desce e a madrugada avança
Meus olhos, tal qual olhos de criança,
Levam esse dito para a alma que escreve


ENTRE SUSSURROS - Lena Ferreira - out.14

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

INTACTO

Guardo o teu nome inteiro, completo
sob a língua, intacto de saliva
e quando a lua cheia míngua
traz à rua uma particular tonalidade
que adorna este casto segredo

...meu medo primeiro é que descubras
nessas horinhas descuidadas, rubras,
a palavra colorida, perfumada e curta
ladeada à tua breve e leve assinatura
e que mantém a minha chama acesa

...medo mesmo, o que mais me loucura,
é que descubras e, indiferente,
permaneças com a tua muda
deixando a minha assim, à míngua
embora tesa secretamente...


INTACTO - Lena Ferreira - out.14

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

DA JANELA


A noite aperta seus olhinhos já miúdos
enquanto a lua bocejando me acena
- é a madrugada despedindo-se serena -
talvez por isso os meus versos fiquem mudos
diante de tão exuberante e linda cena
com um sol sorrindo ensaiando mais um dia;
ponho de lado o papel, a tinta e a pena
e, da janela, leio a mais perfeita poesia


DA  JANELA – Lena Ferreira – out.14

domingo, 5 de outubro de 2014

OU

De tudo aquilo que não fora dito
e que ficara suspenso
como nuvens em dias dublados

feras frases estacionadas no pensamento
num compartimento esquisito
ainda aguardam por um vento

que as dilua
ou faça chuva
por fora, lavando
por dentro





OU - Lena Ferreira - out.14

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

EM NOME DA POESIA

Quando este corpo não tiver mais força
quando esta alma afrouxar das vestes
só um pedido faço a quem me ouça
seja do sul, do norte, leste ou oeste

Não quero vela, fita, flor, nem choro
nenhum discurso, nenhuma homenagem
nenhum aplauso, aclamação ou coro;
partirei mansa e leve, sem  bagagem

Volto ao pedido e espero que mereça:
acenda um verso em nome da poesia
para que, quando a partida aconteça,
clareie a noite que fui, dia após dia...


EM NOME DA POESIA - Lena Ferreira - out.14


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

DE SURPRESA

Nessa noite já sem vento, trago-te mimos e delicadezas embrulhados com as nuvens raras que colhi pela manhã. Era cedo e eu bebia a sede de te ver, novamente, sorrindo. Subi meus olhos orvalhados ao imenso céu que prometia um dia lindo, lindo, lindo... Recolhi, calma, cada raio de promessa juntando a minha na remessa e agora trago de surpresa, só pra te ver sorrindo...de novo. Então...Toma o teu presente. Abra.(-se)


DE SURPRESA - Lena Ferreira- out.14

ENQUANTO ESCREVO


Enquanto escrevo
no cais da alma
revelo um tanto
do caos à calma
do riso ao pranto
da mágoa ao vício
dos precipícios
da luz ao escuro
da ponte ao muro
da brisa ao vento
dos sofrimentos
das tempestades
da maré alta
do excesso à falta
do voo ao abismo
dos aforismos
dos absurdos
silêncio e falas
de quarto e salas
e, do que resvala,
no que revelo
enquanto escrevo
não sou escravo
enquanto escrevo


ENQUANTO ESCREVO – Lena Ferreira – out.14








PELOS VÃOS


E da loucura que atingiu com corte
a alma doida que esse corpo habita
sangrou, sangrou até a quase morte:
eis a demência em vitimar-se aflita

De tão aflita, perdeu o rumo, o norte,
o vento e a brisa que possibilita
a calma, a paz e, novamente, a sorte
do contraponto e, nesse mar, se agita

Se agita em drama que nauseia a alma
deixando o coração posto na palma
da mão que treme sem guardar segredos

Segredos vistos, a alma põe-se exposta
onde as perguntas, sem terem respostas,
escorrem sempre pelos vãos dos dedos


PELOS VÃOS – Lena Ferreira – set.14

*mote ESTÁTUA FALSA de Mário de Sá Carneiro - sugerido por Rosemarie Schossing