domingo, 30 de novembro de 2014

NO QUINTAL

 Desde muito pequenina que esta mente, campo fértil, pegou delírio. Deitada na grama estreita que quarava roupas no fundo do quintal, contava as inúmeras vezes que as nuvens mudavam de forma e ficava por incontáveis minutos, distraída e só, imaginando danças de núpcias, funerais, vida e festas, folguedos e muito mais...
De quando em quando, o vento mudava o enredo e lá ia eu para outro delírio. E, só.
 Voava em pensamento com as pipas coloridas que salpicando o céu de dezembro, lambia-o com suas rabiolas-bailarinas e quando eram ‘cortadas’ após um duelo coreográfico, meu pensamento ia encontrá-las no suposto lugar da queda, acarinhando as ‘feridas’. Mas logo seguia em outra viagem.
Olhava para o jardim ralo que, cercado por um canavial, assustava muita gente. Para mim,  nunca foi um jardim somente. Era o mundo inteiro que eu  conhecia e era imenso e me pertencia. As árvores eram minhas irmãs e confidentes. Ouviam pacientes, segredos e medos infantes e respondiam sempre solidárias, com frutas e flores e silêncios.
 A cerca em frente ao quintal, feita de bambu, era meu limite. Poucas vezes, ultrapassei sozinha. O máximo era me esticar para espiar os piques e as  gudes dos meninos.  Não me apetecia o além daquele espaço conquistado pouco a pouco, dia a dia. Naquele quintal, todos me conheciam, desde a pedra que descansava ao lado do poço até as borboletas dos fins de tarde. Saudavam-me cordialmente e eu cordialmente respondia.
Tecíamos comentários e impressões diversas sobre tudo um pouco do que acontecia naquela vidinha agitada só nossa e inspirados inventávamos histórias, estórias,  romances, finais felizes.
Quem ouvia nossas conversas, corria a contar para os quatro ventos: essa menina endoideceu de vez!
Então, vovó Binda que cuidava de mim e de mais seis netos, preocupada, contava para o papai que, nervoso, falava com mamãe que, atarefada com suas encomendas de costura, dizia: deixa a menina. Crescendo, passa.


(...)


- ...quem sabe, um dia. –




NO QUINTAL  - Lena Ferreira  - nov.14

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

SEM MAIS

Um dia, saberás dos desmotivos
e quando o acaso acontecer  pressinto-te em espanto
ao concluirdes que a loucura que supunhas habitar-me
vai muito além do que pudeste pressupor


Não encontrarás nenhuma pontinha de orgulho ou medo
ou pretensão no labirinto que, calado, adentrarás
ou nesse nada raso e vasto como me julgas  em vazio
à imensidão dos que consentem. - um dia, saberás dos desmotivos;
teus olhos vívidos logo verão e identificarão os raros sinais –


Sem mais por hora, o que me resta é essa espera  sem ais.




SEM MAIS - Lena Ferreira- nov.14

CONFIA

- Em memória ao meu ''vô'' José Ferreira -



Possuía o dom inexplicável de aquietar-me a ansiedade. Sentava-se ao meu lado e, como quem nada quisesse, recolhia minhas mãos ao seu peito e com um jeito particular e delicado, roçava os seus magros dedos no vão dos meus. Ficávamos assim por horas, num silêncio oportuno, desprecisados de palavras e gestos. Às vezes, um vento estranho e torto passeava pelos quintais da minha distraída mente, despertando medos vazios e tolos. Era o suficiente para que brotassem estrelas pequeninas e cintilantes nos meus olhos, prestes a escorrer pelos cílios. Ele intuia sempre esse tal vento em desvario vário e antes que a constelação despencasse, rompia seu silêncio solidário com sua voz de algodão que enchia o ambiente  numa só palavra: confia.
Com essa sinalização, respirava largo e fundo e engolindo a cintilância das estrelas, extinguia o gosto amargo do pensar no que não devia. O silêncio então voltava a se sentar entre nós dois e com as mãos dormindo no seu peito via, em tudo, um novo jeito. Despida de agonias e vestida de confiança, fui bordando no tecido da lembrança, o silêncio tão preciso que propôs.
Hoje, seu silêncio é luz. E o vento, o mesmo vento em desvario, sopra ainda e ainda canta e, às vezes, grita. Mas, quando o ouço, levo as duas mãos ao peito do mesmo jeito que ele fazia. Respiro fundo e bebo em pensamento um gole largo da palavra que me oferecia: confia.



CONFIA - Lena Ferreira - nov.14

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

ROGO

(...)aflição de te amar, se te comove e sendo água, amor, querer ser terra" - Hilda Hilst -


E sendo mar, assim tão inconstante, adormeço nas ondas densas de afagos enquanto rogo aos deuses, santos e pagãos:  - Misericórdia, misericórdia! Faz-me terra, um porto um tanto mais seguro. Asseguro-vos que assim sendo, sendo assim, entenderei a pulsação que vai na palma. E que amar é qual  sereno, leve, leve. É  brisa, brisa fresca  e constante. É alma mansa e não essa tempestade febril e enfermiça  que cansa e eriça os  nervos em alarde. E arde à flor da pele. E inflama a calma, tornando irritadiça toda a lava que ia adormecida, afastando possibilidades; as possíveis e as improváveis.
Misericórdia... Faz-me terra e, devotada, apagar-se-ão as chamas que consomem este meu mar. Faz-me terra, passos firmes, resolutos, já que luto pela calma em tanto amar...




ROGO – Lena Ferreira – nov.14

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

CONCEPÇÃO

Hei de fazer-te um poema
mesmo que, quando o leias, desidentifique-te
absurdando pelas imagens propostas
supondo-me em loucura ao concebê-las


Terão estrelas, como esses teus  olhos de enigma
que gotejam em cada um dos cheios versos
seduzindo as nuvens macias
enfeitiçando toda a passarada


Serão aladas todas as letras
e voejando, soltas e leves
circundarão o teu pensamento
percorrerão artérias e veias


Terão sereias, tritões, ondas e ondas
e no mergulho em vivas águas
respirarás um ar mais do que puro
expirarás mais e mais poesia


Será o dia mais que perfeito
o dia em que este poema conceba
somente assim asserena este peito
mesmo que ao lê-lo, nada  percebas


Hei de fazer-te um poema...




CONCEPÇÃO – Lena Ferreira - nov.14



RIMAS SECRETAS

 As coisas que não dissemos
- supondo-as subentendidas -
descansam nas entrelinhas
dos versos engavetados


- mas, na vaga da alma, roçam -


Pergunto se há quem possa
destrancar essas gavetas
e, em minuciosa e sã leitura,
esmiuçar as secretas rimas


- só um silêncio extenso me responde -


Pergunto, então, quando e onde
perdemos a sintonia:
-Perdemos a sintonia?
mas a resposta se esconde


Pudesse, trocava as chaves
por beijos de maresia
e, despida de garantias,
deitaria as rimas mais secretas
nesses teus lábios finos de gosto grave




RIMAS SECRETAS – Lena Ferreira – nov.14

COMUNHÃO

O verso ouviu o vento e estremeceu
temendo ser levado a um canto escuso
temendo pelo modo inconcluso
com o qual a pena frágil o escreveu


O vento, percebendo o medo tanto
do verso, se achegou e mansamente
soprou em suas letras docemente
aquietando a febre e o quase pranto


Dizendo, com cuidado e com carinho:
te levarei comigo por caminhos
distintos, diferentes; bem diversos


Dá-me tua mão sem medo; só confia
assim como quem ama, a poesia
é comunhão, pertence ao Universo


COMUNHÃO – Lena Ferreira – nov.14


ESTERNO

É com os dedos delicados de reserva
que asseguras o pulsar no teu esterno
tão secreto e tão bem cuidado
quase, quase, quase indecifrável
não fosse essa calma de ensaio
e esses olhos moles, moles, moles
afogados numa espera eterna
- eterna, eterna e terna espera -
por quem partiu em suave desaviso
e numa dessas noites de lua adversa
seguindo os passos das dúvidas certas
levou sua sombra, deixando úmidos rastros:
um poema manuscrito e inacabado,
o vento solícito dos desassossegados,
o pó suspenso e irritadiço da saudade
e o caos instaurado no esquerdo canto


- que o teu externo quase bem disfarça -



ESTERNO - Lena Ferreira  - nov.14



ELA

 Em cada alvorecer, caminhava
como se flutuasse por um céu gentil
emprestando, ao caminho ternura
distribuindo sorrisos amenos
aos que passassem por ela


Saudava os passarinhos em voo pleno
beijava o perfume das flores entreabertas
e quieta, espalhava o pólen, fértil,
em outros quintais desnutridos


Ao sol do meio-dia, breve pausa
para embriagar-se de vento


Descansada, leve então seguia
à tarde, ao encontro da brisa
distraindo-se entre os arvoredos
com seus medos infantes e segredos


E seguia, sempre nua, sempre lua
ao encontro da noite e, serena,
bordava sonhos no manto escuro
até a próxima alvorada




ELA – Lena Ferreira – nov.14

ABISMO

Há um abismo imensurável que nos separa
e no seu fundo, desliza um rio límpido e largo
águas de curso perene
onde as margens se debruçam silentes
e observam o desfile de secretas vontades


Vez por outra me precipito e sorvo fartos goles
de sua nascente virgem e tão tranquila
na tentativa aflita de acalmar a ânsia
que me priva de saliva a língua

Em vão...

-só faz alimentar-me a sede. –




ABISMO – Lena Ferreira – nov.14

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

INTIMIDADE

A primeira vez que o vi,  foi um espanto;
suas ondas atritando com rochedos
despertaram um misto de fascínio e medo
e a maciez em espumas, quanto encanto!


A segunda vez que o vi, como um acalanto
suas ondas iam e vinham ao meu encontro
e ninavam o pensamento ainda não pronto
que agitava a pulsação do esquerdo canto


A terceira vez que o vi e as outras tantas
numa intimidade que só se agiganta
mergulhei nas suas águas sem receio


Das marés que lhe visitam em alternância
e das luas que lhe ditam a inconstância;
faço meu o seu princípio, o fim e o meio



INTIMIDADE - Lena Ferreira - nov.14


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

SUPOSIÇÕES

Tentou adivinhar o meu desejo
embora estivesse tão distante
alheio ao que eu sinto e ao que vejo
sem precisar o que me é constante


E nessa tentativa, o julgamento
pesado veio a me cobrir os ombros
mas a benevolência de um vento
o espantou e junto, foi o assombro


E na leveza que o vento me deixa
deslembro o motivo do qual se queixa
e sigo o meu caminho como quero


Inútil é insistir provar o que seja
a alguém que os meus olhos nunca veja
e só suponha o que da vida espero



SUPOSIÇÕES - Lena Ferreira - nov.14

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ETERNAMENTE

Ouvi chamar pelo meu nome e era o vento.
E era o vento com sua voz macia e doce.
E era o vento, mas quisera tanto fosse
Um outra voz; a que preciso no momento.
                                      
Ao seu chamado, respondi: volte mais tarde
E por favor, traga consigo a presença
Dessa outra voz que necessito e que me pensa
Já esquecida de nós dois e assim resguarde

Suas palavras, seu olhar, silêncio e gesto.
E é por isso que meu nome eu lhe empresto
Para que sopre mansamente em seu ouvido

Estes meus versos que, nascidos num rompante,
Me denunciam a eternamente amante
Que morreria antes de tê-lo esquecido...




ETERNAMENTE – Lena Ferreira – nov.14

domingo, 16 de novembro de 2014

CONTROVERSO

Enquanto escrevo, traço itinerários diversos
onde rabisco soluções aos descaminhos
nas entrelinhas dos pretensiosos versos.

Em pensamentos quase sempre tão dispersos
letras tortas dizem o que não adivinho;
que só residem num inverso controverso.

Enquanto escrevo, embora acordada, sonho.
E quando durmo, a realidade recomponho.



CONTROVERSO – Lena Ferreira – nov.14


sábado, 15 de novembro de 2014

NO ATO

Na cadência de suados suspiros
o aroma de uma primavera inteira
exala pelos poros dos corpos-de-lírios...

...que, no ato, desabrocham.



NO ATO - Lena Ferreira -

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

REDESCOBERTAS

Ah, esses seus olhos de coberta
Emprestam-me o calor de dois verões
Quando transitam pelas minhas estações
Até re-pousarem no fundo dos meus, quietos


Ah, esses seus olhos de coberta
Quando bendizem a palavra sacrossanta
Num afago cílio a cílio, me imantam;
Flutuo num cômodo conforto aberto


Até re-pousar nos seus braços
E nesses olhinhos de coberta
Que põem os meus instintos em alerta
Despindo cada um dos meus pedaços


Ah, esses seus olhos de coberta
Aquecem-me em tantas redescobertas...



REDESCOBERTAS – Lena Ferreira - nov.14

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

SOLIDÁRIO

É com os ouvidos na palma que escuta,
atento, as confidências e os lamentos
quando essa alma enluarada se agita;
se o discurso é sangria, pra quê contê-la?


Então, com os braços da alma, acalma
as tensões de mais um dia entre conflitos
no seu colo manso, tempestade e ventania
logo se esvaem; pra quê retê-las?


E enquanto a madrugada em passos leves
passeia entre as calçadas de estrelas,
instaura em mim a calma, ainda que breve...
- logo adormeço sonhando em mantê-la -



SOLIDÁRIO - Lena Ferreira -

terça-feira, 11 de novembro de 2014

SEU NOME


Seu nome tamborila no meu mar inteiro.

Saltitando nessas ondas de frágeis espumas,
constela-me estrelas com seu hálito de maresia
num afago aos cabelos recobertos de luas minguantes.

Bronzeia-me a pele da alma com seus dedos delicados de sol
e, sorrindo ao meu bobo sorriso, descongela-me a timidez.

Então, ousa...

Na sensatez de um oceano vasto em marés que me consomem,
abraça-me os lábios antes mesmo que eu consiga pronunciar...

...seu nome.



SEU NOME – Lena Ferreira – nov.14

domingo, 9 de novembro de 2014

VALSA

É doce e aflito o pulsar que ora me chega
por esse vento que me vem de longe e, leve,
vem e reclama as feitas frases fracionadas
vem insistente num compasso claro e vivo
vem sussurrando em sibilantes aliterações

Como orquestrasse uma valsa vienense
os seus acordes rodopiam pelos rubros salões,
incitam intensas vibrações nas doidas cordas
e acordando as sensações então dormentes
valsam-me enquanto verto em verso ebulições


VALSA – Lena Ferreira – nov.14

sábado, 8 de novembro de 2014

DESSAS NOITES

É dessas noites que eu te falo, arfante,
quando, em galopes sussurrados e macios,
fundamos vales e escalamos colinas
bebendo a sede descoberta em cada curva

É dessas noites em que o suor é quase chuva
e, lavando o cansaço da rotina em linha reta,
desperta as ousadias mais secretas que te falo
arfante, coberta por um sol que nunca dorme

É dessas noites em o desejo é enorme
que falo, arfante, acordando instintos esquecidos
para que a calma, vez ou outra, perca o juízo
e, sem prejuízo, morra no vão do nosso abraço



DESSAS NOITES - Lena Ferreira - *

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

CIRANDA

Despeço-me acenando para a tarde
Nas mãos, levo um tecido leve e fino
Com o qual um vento, livre tal menino
Brincando, agita-o com enorme alarde.

Meus olhos, vivos, cheios de sorrisos
Assistem, alegres, a infante cena
A alma, pouco a pouco, se asserena.
-um bem que, há muito tempo, eu preciso-

A noite vem descendo em tom suave
Permitindo que a cena inteira grave
Pra reprisá-la paulatinamente.

Então, meus olhos fecham as cortinas
Enquanto as estrelinhas, tal meninas
Cirandam a lua cheia, alegremente.


CIRANDA - Lena Ferreira - nov.14

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

COMPROMISSO

Por cada riso e cada ponto
por cada lágrima vertida
por cada vírgula e cada encontro
por cada dúvida invertida

Por cada nó e cada abraço
por cada ‘nós’ em cada aperto
por cada linha e cada traço
por cada certo e desacerto

Por cada longe feito perto
por cada passo e descompasso
por cada cumprimento aberto
por cada antigo e novo laço

Por cada dobra de conquista
por cada vinco ultrapassado
por cada presente na lista
por cada um que esteve ao lado

Por cada cisma e cada sismo
por cada abalo e cada tombo
- bem na beirada do abismo,
pra cada susto, houve-me um ombro

Por cada vida em cada vida
por cada risco e cada corte
por cada adeus sem despedida
por cada desrumo do norte

(...)

Por cada um de tudo isso
e um pouco mais de desrazão,
é que entendi o compromisso
de agradecer sem distinção




COMPROMISSO - Lena Ferreira - nov.14 *re



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

NÓS

Eu, coberta de ausências claras,
descubro-te nas faltas raras
desnudo de explicações.

Tu, liberto da desculpa frágil,
descobre-me em excesso ágil
desnuda de ponderações.

Nós, distintas linhas, em sequência
cobrimo-nos com as consequências
das mais desnudas sensações.


NÓS - Lena Ferreira - mai.14

terça-feira, 4 de novembro de 2014

VELHO MOÇO

Conheço-te somente de vista
de uma vista que bem pouco alcança
é certo
mas
o que não vejo perto me entristece tanto;
magro, seco,estéril e impotente
incapaz de alimentar a sua prole
e não pelo peso da idade


Não tenho conhecimento de causa
-dirão-
mas sei do orgulho que te movia
desfilando vasto e fértil
e hoje muito me comove
vê-lo à míngua
sem língua e, sem fala,
calou-se a fartura do leito
onde a margem é toda falta


Ah, Chico, velho moço
que antes corria solto no fundo de tantos quintais
hoje, apenas, a penas, se arrasta;
é onde se alastram a fome,
a sede, o descaso, a penúria
alimentadas por secas lágrimas
...e muitos ais



VELHO MOÇO - Lena Ferreira - nov.14

MAIS QUE VERSOS

Ele caminha sob a noite enluarada
tem como abrigo um céu coberto de estrelas
no pensamento, nada mais que sua amada
e o desejo de poder, nos braços, tê-la


Caminha calmo na certeza do encontro
sem se importar com a distância percorrida
leva no peito um poema quase pronto
onde o desfecho é, da amada, a acolhida

Ele caminha e a noite também caminha
e a cada passo, a certeza mais se aninha
na alma que no amor distante ainda confia:

Quando chegar, nem notarão o seu cansaço
os dois serão somente um, num terno abraço
e, mais que versos, serão uma poesia


MAIS QUE VERSOS - Lena Ferreira - nov.14

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

ENTRE

Enquanto a alma sobra solta no corpo amanhecido
palavras, gentilmente, vão encaixando-se no meio
de um vão entre as teias e as veias tímidas ainda
que levemente pulsam e brevemente pausando...

...acordam o coração da inspiração que, em resposta,
injeta o sangue novo, aquarelado, no sistema circular,
percorre artérias, acelera o pulso, alarga os olhos que se alagam
e expande a emoção por todo o corpo que desperta

Uma das mãos tateia o leito virgem e branco
e enquanto a outra prende a pena entre os dedos,
a cena que se empoça no olhar que ora mareja
goteja e cada gota imprimindo sensações...

...desenha emoções entre as palavras.


ENTRE - Lena Ferreira - mai.14