quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

SÓ POR HOJE

Recolha, só por hoje,
as aflições que te agoniam
coloque-as num canto
sem água, comida ou vento


Estenda, então, teus braços
a quem te pede um abraço
e o nó que está no peito,
logo  se torna um laço


Visita o teu espelho
e ensaia um  sorriso
não pense ser conselho
é beirada de egoísmo


- também dele preciso,
sem sentimentalismo,
pra me sentir feliz, meu bem -


Recolha, só por hoje;
por hoje, amanhã e depois
e depois e depois também




SÓ POR HOJE - Lena Ferreira - dez.14


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

GRATIDÃO

Nem todo julgamento que condena
É feito por juiz ou júri honesto
Então, não se apoquente; vai pequena,
E leva esse sorriso em protesto


E a sensação de ter valido a pena
Cada palavra e cada um dos gestos
- como o frescor de uma  brisa amena,
tão boa que compensará o resto -


E assim, tranquila, abrace o novo ano
Sem juras nem promessas, só um plano:
Por tudo o que vier ter gratidão


Ciente do que o que nos acontece
Tem um motivo que se desconhece
E traz consigo sempre uma lição



GRATIDÃO  - Lena Ferreira - dez.14


AMPULHETA

Qual um punhado de farelo de centeio
o tempo escorre fino pelos vãos dos dedos
e não há como desvendarmos o segredo
- se existisse -, para colocar-lhe um freio


O vento sopra mesmo e, sem nenhum receio,
espalha o pó dos grãos do tempo e os seus medos
são semeados junto aos enganos ledos
em solo vasto e produtivo - e alheios


à essa trama, ao desperdício, aos desenganos,
andamos todos , insensíveis, sub-humanos
tentando refrear a areia da ampulheta...


...para ganhar grãozinhos dessas horas úteis
depois gastá-las com assuntos bobos, fúteis
enquanto, o que de fato importa, obsoleta -




AMPULHETA - Lena Ferreira - dez.14

sábado, 20 de dezembro de 2014

NO CENTRO COMERCIAL

Venho planejando, sem sucesso, um dia poder antecipar as compras de natal em, pelo menos, três meses. Sim, meu sonho de consumo! É que toda essa correria para os festejos de fim de ano sempre me afligiram. Lojas repletas, alvoroço, empurra-empurra, gritarias, dúvidas sobre o que comprar para cada um e o cuidado de não me esquecer de ninguém.  Passava sempre a  responsabilidade para terceiros, quartos, quintos. Qualquer um, desde que não fosse eu a  enfrentar a barbárie da comercialização pontual.
Este ano, apesar do mesmo tumulto, das mesmas situações, resolvi encarar todo o processo com boa vontade e disposição. Saí de casa cedo e sozinha, sem hora pra voltar e pude observar  em cada rosto a mesma ansiedade que carregava comigo. E como me fez bem saber que não estava sozinha em meio aos conflitos sobre o que comprar, se vou acertar na escolha, se o preço é justo, se, se, se...
 Mas sempre se tira algo de proveitoso em qualquer situação, basta treinar os olhos de ver, não é?  Pois bem, ontem foi um dia de treinamento intensivo.  E de aventuras pra lá de surreais, até para alguém acostumada com realidades inventadas, mirabolantes, como eu.  
Relato a título de memória, duas delas no mínimo inusitadas para estes tempos em  que vivemos, de tão poucos diálogos e econômicos gestos:


I -


 Numa dessas lojas de roupas femininas, lotada, passei do jeito que a condição me permitia, por um grupo de senhoras nervosas que disputavam uma camiseta branca já para o réveillon. Eu, corpanzil, esbarrei numa delas que irritadíssima, bradou: esse povo não tem educação! Podia pedir licença, né, minha filha? Cruz credo! Eu, hein... tsc tsc.
 Apesar da barulheira na loja, pude ouvir perfeitamente e consciente que a senhorinha, e com razão, se referia a mim. Poderia deixar pra lá e seguir meu caminho mas... Voltei o rosto em direção a ela que me encarou com um olhar fuzilante, armado e preparado para atirar ao meu revide. Que não veio. Olhei calma bem dentro dos olhos dela, me desculpei pelo ocorrido e falei que ela também não precisava ter falado daquela maneira comigo. Nem com ninguém. Ela, espantada com minha reação, desarmou-se e também se desculpou pelo tom usado, me desejou um feliz natal e tudo seguiu na mais perfeita desordem dentro daquela loja. Saí de lá sem levar nada comigo além da experiência, inédita até aqui. Não. Não fui beatificada pelo espírito natalino, não. É que se eu desse ‘corda’ à irritação dela, quem estaria irritada, remoendo a situação possivelmente até agora, seria eu.


II -


Já quase finalizando minha missão, com algumas sacolas na mão, entrei numa lojinha de bijuterias à procura de um colar vermelho para compor o visual do natal. Ousaria usar vestido depois de anos e anos repetindo a conveniência confortável  e acertada da calça jeans.  Mas o vestido me paquerou tão lindo e não resisti e até que ficou legal! Pois bem. Tarefa que parecia fácil, escolher um simples colar, rendeu-me a maior parte do tempo e, cheia de sacolas, era inevitável esbarrar em algo...Ou alguém. Eu e meus esbarrões.  Dessa vez, uma senhora muito gentil, delicada e educada, fina mesmo, recebeu o ‘encontrão’ com muito bom humor através do qual estabelecemos um agradável diálogo. Falou-me de sua  aventura no garimpo de ‘lembrancinhas’ para todos da família e amigos, vizinhos chegados. Costumava dar presentes bons mas este ano seria diferente, visto que sua neta casará em março e instaurara até lá o sistema de contenção de despesas.  E mostrou-me satisfeita o que conseguira na sua empreitada.  Mimos delicados e significativos. E pra completar, olhando-me nos olhos com doçura de avó, sentenciou: filha, o que importa não é o valor do presente. É o fato de fazer isto que estamos fazendo. Enquanto procuramos o presente, ou lembrancinha, estamos pensando na pessoa que será presenteada. Isso é o que importa de fato.
Pagamos nossas comprinhas e saímos juntas da loja. Ela, sorrindo sempre, desejou-me felicidades para o ano vindouro e retribuí com palavras de carinho acompanhadas pelo meu melhor sorriso.  Despedimo-nos com um beijo em cada mão e fomos, cada uma, para um lado da rua.

...

Poucas  horas mais, voltava para casa. Cansada, confesso. Missão quase cumprida. Certas pendências ficarão para a última hora. Sempre ficam. Como estas vivências aqui relatadas também ficarão e para sempre.  Deixei aquele centro comercial com a sensação de que estava aprendendo muito mais de vida, da sua simplicidade e grandeza, neste finalzinho de ano. E de maneira atípica; sem pressa, desarmada, leve e paciente. Santa? Louca? Ingênua? Não.  Aprendiz.  De ser gente, simplesmente.




NO CENTRO COMERCIAL - Lena Ferreira - dez.14


CONVITE

Agende isso:
a vida
lhe convida
para ser
viço




CONVITE - Lena Ferreira - 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

BORDADO

Sob o olhar de uma lua adversa
tecemos um bordado com nova postura
com fios finos de cores várias, diversas
e alinhavamos novos sonhos com ternura


Com um terno beijo, entre uma e outra conversa,
reafirmamos a antiga e eterna  jura
enquanto a noite, sem  sinalizar sua pressa,
recebe a madrugada, mansa, que murmura


Suas canções suaves, doces, tão macias
em notas calmas, de perfeita harmonia,
sopradas por um céu todinho estrelado


Também sem pressa, acordamos mais um dia
finalizando, ponto a ponto, a poesia
que bem combina com os detalhes do bordado




BORDADO - Lena Ferreira  - dez.14

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

ALÉM DO HORIZONTE

Amanhecer  vendo o  calmo  semblante
e esse  seu sorriso espontâneo e franco
me alegria, me faz confiante
e me reanima pra enfrentar o tranco


E esse compasso, bonito, sonante
e tão cuidadoso que imprime na fala
é como um mantra, é tão contagiante
que a passarada, pra ouvir, se cala


Permita o universo, que conspira
- para quem labuta, transpira - inspira
conserve sua vida por bom tempo


E um pouco mais e mais  porque é preciso
espalhar  a luz do seu  franco  sorriso,
além desse  horizonte que contemplo



ALÉM DO HORIZONTE  - Lena Ferreira -


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

DE NOVO

Falta bem pouco para que o ano termine e com essa 'deixa' do calendário, as promessas logo se assanham: parar de fumar, perdoar um desafeto, retomar a dieta, fazer mais exercícios, menos tempo nas redes sociais, sair mais, falar menos, ouvir mais, se estressar menos, dar, doar e doar-se  mais...
E vão se acumulando, engordando a fila, infinitas e infinitas promessas sob a jura de que serão cumpridas no ano que vem.
Promessas protocolares que aos milhares sabemos que não serão pagas a curto prazo. Nem a longo, pensando bem. É no passo a passo que a coisa acontece e uma, sem querer, vai puxando a outra e quando menos percebemos, deixamos de ser como não queríamos para sermos os mesmos, mas diferentes, melhores para nós e, consequentemente, para os outros.
Falta bem pouco para 2014 ir embora. Pouquíssimo mesmo. Mas, não precisamos deixar que ele se vá levando essa impressão de nós; meros espectadores, esperando que promessas, como num passe de mágica, resolva nossas questões. Sejamos ações. Sejamos mudança diária e contínua. Sejamos, nós, o novo agora para que na hora da virada possamos dizer sorrindo: feliz ano, de novo.




DE NOVO - Lena Ferreira - dez.14

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

VILLE BOLOGNA (à Ana Amélia)

Parti logo depois de ter partido
sem ao menos ter podido
deitar o meu olhar no teu olhar


Tão puro, tão negro e tão limpo
tão lindo e...tão lindo, lindo
luzindo mais do que o luar


Por ele, sim, quisera ter sido engolido


Parti partido por não ter podido mergulhar
nessa negritude pura e linda e limpa e pura
indo, indo, indo, indo, indo, indo...


- nos teus olhos de oceano naufragaria antes mesmo de zarpar -



VILLE BOLOGNA (à Ana Amélia) - Lena Ferreira - dez.14

NA SERRA

Daqui do alto
tudo embaixo se apequena
corpo e alma se asserenam
e a visão se torna clara


Daqui do alto
contemplo a paisagem amena
nada em volta me condena
e o meu coração dispara


Daqui do alto
tudo visto é poesia
tudo é troca e a energia
recebida é joia rara




NA SERRA - Lena Ferreira - dez.14 *

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

SINAIS

Era tarde. Horas altas. Após considerar as tantas faltas, abriu a porta gradeada que dava para a varanda e com passos decididos, cruzou o curto espaço que a separava do portão de ferro, preso ao muro já sem reboco, prestes a cair. Firme, empurrou a tramela e alcançou a rua comprida e escura. Consigo, levava somente a roupa do corpo e uma breve sensação de liberdade que há muito não experimentava.  Deixou a chave pendurada na porta, por dentro. A mala, desfeita, jogada aos pés da cama e, encostada à mesa do canto da sala, uma história incompleta a qual decidira não escrever mais. Respirou fundo e seguiu em frente sem olhar para trás. A cada passo dado, rememorava os dias, os meses e os anos entre planos desperdiçados e desenganos com os quais, consciente, permitia, pouco a pouco, se anular. 
Uma única lágrima ensaiou alisar o seu rosto magro por todo desgosto passado. Mas, passou e porque sobrevivera até ali, engoliu. Não seria a vez primeira. Mas, a última, jurara.  
Com os pés pesados pelo desgaste das idas e voltas, das tentativas inúteis de reescrever os capítulos e de alguns descuidos com certas grafias, as mãos tremiam e os passos eram diminutos. Assim, não conseguira chegar muito longe. Parou logo na esquina, diante de uma encruzilhada.
Enquanto descansava os pés, o pensamento caminhava na velocidade dos carros que, pelo adiantado da hora, ultrapassavam os sinais.
 Os sinais. Foram eles que a empurraram àquela decisão: palavras ao vento, frases secas, sem sentimento, muitos ‘sim’ querendo ser ‘não’, discursos vazios, em vão, desprovidos de gestos. E o resto, nem valeria a pena mencionar. Não mais.

(...)

Os sinais. Ficaram vermelhos; para os carros e para a velha história. Fim da linha. Ponto final.
Para ela, sinal verde. O sentido? Sentir e ir, além do papel, escrever um novo enredo e, sem medo, permitir-se à entrega ao papel principal.



SINAIS - Lena Ferreira - dez.14



*

meu versejar, entenda, não é diário
de adolescente, moça, que despeja
tristezas, frustrações e o que deseja
e, longe de ser extraordinário,


é verso que a mente fértil cria;
após observar certos semblantes
invento alguns enredos relevantes
que, tola, penso eu ser poesia


porém, não pense que, por isso, minto;
enquanto escrevo, é vivo o que sinto
desde o início até a assinatura


meu versejar é imaginativo
e mesmo dispensando qualquer crivo
aceito de bom grado o da loucura



- Lena Ferreira -




domingo, 14 de dezembro de 2014

AUSCULTA

Quando te pressinto auscultando o esquerdo  espaço,
já não mais me  disfarço; visto o meu melhor sorriso
e, de improviso, lanço mão de infantes gestos
como se fosse um maestro em testes de iniciação


Tonta em emoção,  revisto o antigo álbum de discos
e, sem temer maiores riscos, escolho o que mais aprecias
Em sintonia, escuto o sopro das mesmíssimas cifras
- as que nos decifram -, nos teus lábios e, tão de perto...


...que aperto os meus, enquanto idealizo o nosso beijo
tamanho é o desejo de  ver-me envolta nos teus braços




AUSCULTA  - Lena Ferreira – dez.14

sábado, 13 de dezembro de 2014

DÁDIVA

Dai o pão de cada dia
e a poesia que alimenta
dai o sol que acorda o dia
dai a fé que nos sustenta

Dai a força e a coragem
para seguir a jornada
que seguir sem ter bagagem
é ser livre na estrada

Dai a gota do sereno
dai o viço dos Teus olhos
dai amor em peito pleno
dai o viço nos meus olhos

Dai, à vida, a nova vida
dai, à morte, a nova morte
dai certeza à nova lida
dai firmeza à nova sorte

Dai o pão de cada dia
dai, à nossa poesia...




DÁDIVA  - Lena Ferreira - 

HASTE

à Celia Domingos - 


E por ser feita de verdades
conseguiu sair inteira
de onde  brotavam tempestades
e não foi a vez primeira

Onde a metade da vontade
rendeu a vida, carcereira,
ventou com graça e suavidades
e ternuras - tão brejeira -

Envergando as adversidades
quebrantou a seta certeira
que tentava ferir a felicidade
de quem não possui fronteira




HASTE - Lena Ferreira - 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

ASPIRANTE

Sentou-se com os cílios cerrados
para enxergar bem por dentro
tudo que corria por fora


E embora a pensassem
dormindo
acordava assim o seu centro


Sentou-se com sua alma de andanças
tão natural em leveza
- mas que o caos diário agita - 


Assim, sentiu bem no meio da palma
o seu frescor e a pureza
que a luz adentro  possibilita


- sentou-se esperança
e, aspirando toda a calma,
levantou-se criança -



ASPIRANTE - Lena Ferreira – dez.14


OUTROS TEMPOS

Houve um tempo em que uns precipícios
convidando-me a um cego salto,
seduziam-me (e eu, um ser incauto,
me lançava num  fim sem princípios)


Houve um tempo também em que uns abismos
atraentes com os seus tantos vãos
acenavam-me (e eu, poupando os nãos,
me entregava qual no romantismo)


Entre um tempo e outro, chuva forte
alagou estes olhos  - por sorte,
clareou-os e enxergar já consigo -


Outros tempos, é certo, virão
mas já posso contar com a visão
de que em mim é que mora o inimigo



OUTROS TEMPOS - Lena Ferreira - dez.14 *


CLICHÊ

Desconheço a receita de amar
a dose certa; colherada, gota, litros
mas nunca fui de homeopatias


Desobedeço prescrições
desconsidero
possíveis contraindicações


Sei do seu peso; leve
e com sua leveza, cabe até no descabido
e, onde encontra brecha, faz seu abrigo


Não sei ao certo se ou o quanto sou amada
esta é uma dúvida que não me arrasta


- o simples fato de sentir que estou amando 
é o que, verdadeiramente, me basta -



CLICHÊ - Lena Ferreira - dez.14



quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

ELEITOS

Líquidas, as canções da madrugada
deslizam perenes pelo escuro do quarto
e, com seus sussurros ternos, muitos, vários,
acariciam levemente cada canto oculto


Acordam as lembranças já dormentes
conversam com os poros, peles e pelos
e, despertando os instintos verdadeiros,
desatam os nós dos sóis; juntos, e sós


E, enluarando-os, espraiam pela cama
a chama que, nos dois peitos, andava fria
- e, apagando os passinhos dos ponteiros,
elegem os primeiros nessa nova sinfonia - 





ELEITOS - Lena Ferreira - dez.14

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

VIGÍLIA

Por quanto tempo mais, eu me pergunto,
cultivaremos esse absurdo hiato
esse silêncio indiscreto, essa distância segura
que mais aproxima do que nos afasta


Por quanto tempo mais? Penso que basta...
Há tanta espera daquelas frases benditas
e nós permanecemos nesse bobo impasse:
se nada lhe digo, nada, nada me fala


Por quanto tempo ainda em solo impróprio
se apropriará do meu melhor verbo?
Talvez me canse, talvez se canse
talvez o meu alcance seja limitado


Tão distintos, sim. Tão mais profuso
e tão diverso; rimas, eufemismo, dicionário
eu, de tão rasa e confusa, me policio
temendo esbarrar nos seus cristais


Então, seguirei minha sina, secretamente
catarseando hipérboles em versos vagos
e, tropeçando em certos verbos brancos,
vigiarei a semente, silente e discreta


- aguardando o instante em que a casca se rompa  
e de lá verdejem falas macias e abertas -



VIGÍLIA - Lena Ferreira - dez.14



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

DO QUE DISTA

Do parto até o nascimento
há chegadas e partidas
há vãos estacionamentos
há acenos sem despedidas


Há tentativas e fracassos
há silêncios e fala excessiva
de  braços querendo abraços
mas, do orgulho, não se privam


Há chuvas e tempestades
há terremotos, poças d’água
há céu limpo, em claridades
enxugando a gota-mágoa


Há caminhos e descaminhos
há frutas, flores e folhas
há cheiros, gostos, espinhos
há dúvidas, certeza, escolhas


 Há sombra para o descanso
há escaldantes desertos
há recuo e passos em avanço
há sábios, ingênuos e espertos


Há brisa e há forte vento
há guerras e também há lutas
há paz - a que nasce de dentro
e não se conquista à força bruta -


Há tantas palavras inúteis
como estas que agora digo
que ganham o status ‘fúteis’
se não lhes faço de abrigo


(...)


Há fagulhas de entendimento
dando-me a noção da medida
que dista o parto do nascimento:
a maneira de olhar  para a vida



DO QUE DISTA - Lena Ferreira  -  dez.14



VENTO VELHO

Vento, velho aventureiro,
com seus pezinhos miúdos
vai cortando, ao meio, mundos
lançando um olhar zombeteiro


Pela estrada, vai certeiro
vai levantando do fundo
sentimentos tão profundos
e suspiros derradeiros


Deixa rastros no caminho
deixa marcas, sinais tantos
- deixa vincos, sulca risos -


Vento, velho, não tem ninho
mas, ao longe, escuto o canto
numa voz que não preciso



VENTO VELHO  - Lena Ferreira -

sábado, 6 de dezembro de 2014

A PORTA

Há tempos, a porta do armário do quarto dava sinais de desgaste. Rangia, travava, recusava a chave e ameaçava cair. Ela, fingindo que estava tudo bem, não recorreu ao marceneiro, amigo que ofereceu serviço gratuito. Recolhia as roupas do varal, dobrava-as sem grandes cerimônias e entulhava-as pelas gavetas abarrotadas. Os cabides pediam clemência, tantas peças em desuso. Fechada a porta, nada era visto afinal. E assim, seguia nesse adiamento. Até que...
Ao tentar abrí-la, como num ato de revolta, a porta caiu pesada no seu pé direito. Um urro estridente e dolorido ecoou pelo quarto. Pela casa. Pela rua. Quase arrancou-lhe uma das unhas, a do dedão. Deixou no ar uma palavra que recuso pronunciar. Não por castidade.
Aliviada a dor primeira, colocou a bendita num canto e só então percebeu, de verdade, a desordem de dentro. Caos. Absurdo. Descuido. Desleixo.
Deu as costas a tudo aquilo e foi cuidar do dedo que sangrava. E muito. Enquanto isso, pensava em como seria olhar para aquele cenário sem disfarces pois o amigo não estaria disponível por um longo tempo e ela não dispunha de recursos para contratar um outro profissional. Cogitou em colocar uma cortina mas...Refletiu. Já era hora de por ordem em tudo aquilo de dentro. Livrar-se dos excessos. Reorganizar as gavetas. Dar o que não mais servia. Doar o que até ainda queria mas como apego a um passado que não mais valia. Para outros, sim.
E assim o fez. Com um tanto de dor, é certo, pois a pancada era muito recente. Mas, não fez-se refém. Antes assim. Há males que vem para o bem.



A PORTA - Lena Ferreira - dez.14

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

BASTANTE

Que me baste
essa brisa mole, leve
que  beija, breve, meu rosto
suavizando a insana vontade
de agarrar cada ponta do vento


Que me baste
esse sol matutino
a temperar minha pele
sufocando a necessidade
de provocar vulcões adormecidos


Que me baste
este verso mal escrito
a acariciar o meu pensamento
silenciando esse desejo incontido
de fazer ouvir os meus rasos lamentos


Que me baste
esse instante breve
sussurrando baixinho
que quando se perde uma batalha
nem sempre significa que fomos vencidos



Que me baste...


BASTANTE   - Lena Ferreira - dez.14

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

VENTANTE

Vento vasto, varre e verte
vozes de sonhar ao longe
leva meu pensar, e breve,
a atingir picos e montes


Vento vibra, a voz inverte
arremessando promessas
atingindo a mente em greve
açoitando vãs remessas


Vento venta, fortemente
assassinando torturas
libertando toda mente
que se esquece na clausura


Vento avisa e brisa a folha
sacudindo o pó da escolha




VENTANTE - Lena Ferreira -

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

OS OLHOS DE BIA

- à Bia Cunha -


Os olhos de Bia
liam Mia, de Barros, Clarice
liam tudo aquilo que vissem
liam a vida na vaga do verso


Os olhos de Bia
viam tudo de dentro pra fora
viam tudo; chegando, indo embora
e faziam, de ver, um universo


Os olhos de Bia
eram olhos de um verde outono
nem por isso criam no abandono
e o vento ventava-lhe a paz


Os olhos de Bia
tinham um brilho assim, transbordante:
eram dois risos contagiantes
era um olhar de querer  sempre mais




OS OLHOS DE BIA – Lena Ferreira – dez.14

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

FREE

Saí de casa com uma única intenção: ir à padaria comprar quatro pãezinhos e dois maços de Free, a liberdade que me prendia. Atravessei o portão da vila e o céu de dezembro me recebeu inteiro prometendo um verão escaldante. Aproveitei o embalo e respirei fundo, esquecida das tarefas mesquinhas deixadas pra trás: almoço por fazer, roupas no varal e escolher o guarda-roupa para a reunião à tarde. Distraí-me contando as árvores da calçada que foram plantadas no ano passado e já nos brindavam com cachos e cachos de floração arroxeada, lindos. Seguia tranquila e já próxima ao mercadinho da esquina, lembrei que faltavam algumas frutas e legumes. Entrei e estava razoavelmente vazio. É daquele tipo de comércio onde todos se conhecem pelo nome; dos funcionários aos clientes. Cumprimentei o gerente que tem um lugar cativo numa bancada perto da entrada. Digiri-me à seção de hortifruti e rapidamente escolhi o que precisava. Pouco, pois ali o preço exorbita, aproveitando a facilidade e a  proximidade da clientela.
Enfim, a fila do caixa. Três pessoas na minha frente. Espero. Enquanto isso, uma voz calminha comentava: tão cedo e já tão quente. Virei-me para identificar a figura por trás da voz e uma senhorinha de baixa estatura, mais baixa até do que eu - vi que é possível - me sorriu mostrando os poucos dentes que restavam. Nunca havia visto um sorriso tão franco como aquele. Falante, era do tipo que contava a vida inteira em menos de dez minutos e assim, fiquei sabendo de onde trabalhou, de como conheceu o marido, de onde morava e de quantos anos tinha. Nessa parte, seus olhos brilharam ao me apresentar a pergunta: quantos anos você me dá, mocinha? Arrisquei uns 80, mas temendo ser menos porque, de fato, não parecia. Pois bem, sacou sua identidade e me mostrou com orgulho o documento onde constava a extraordinária e inacreditável data - 13/05/1891. 103. Cento e três anos! Dizia alto e com mais orgulho ainda: meu filho mais velho tem 81! Mas confessou-me uma tristeza. Uma vontade insistente em morrer e que fosse dormindo, sem sentir. Perguntei o motivo e respondeu-me que estava cansada de ir a funerais de entes queridos. Sua expressão eufórica se transformou ao relatar isso. Deixei que ela retomasse o papo, no tempo dela. A fila andava devagar porque, mercados assim sempre rendem conversas entre as operadoras de caixa e clientes. Uns comentando sobre o tempo, outros reclamando do preço, outros trocando receitas...
Refeita, dona Nice - era assim que gostava de ser chamada - contou-me da última perda familiar. Sua irmã caçula, embolia pulmonar. Morrera no colo do marido a caminho do hospital, dormindo. Fumava muito, dizia. Fumava, não. Comia cigarros!  As últimas frases me incomodaram. Não que desconhecesse os malefícios do fumo mas dito assim e justo naquela hora... Confessei-lhe meu vício. Ela me olhou com um arzinho de doce censura dizendo: mocinha, não faça mais  isso. Já fumei também e sofri os seus efeitos. Parei. Pare também.
Baixei minha cabeça. Não por vergonha mas para não encarar aquele rostinho tão meigo e tão vivido e tão cheio de razão.
A fila andou mais um pouco e chegou a minha vez. Cedi a ela que agradeceu. Carregava alguns biscoitos, macarrão, duas latas de sardinha e três pacotinhos de pó para refresco. Disse que não era para ela. Ia levar aos seus amigos do Clube dos Paraplégicos que fica ao lado da padaria. Era para lá que se dirigia todos os dias pela manhã para distraí-los e distrair a sua própria solidão. Pagou a conta e antes de sair, deu-me um abraço calmo e um beijo demorado na testa. E ao pé do meu ouvido, disse: se quer parar de fumar, basta não comprar. E se foi sob meu olhar atônito e admirado. Passei meus itens pelo caixa, coloquei-os na sacola e paguei. Saí do mercadinho em direção à padaria. De lá, trouxe um pacotinho com quatro pãezinhos. Hoje, a liberdade não foi comprada. Hoje, não.




FREE - Lena Ferreira - dez.14

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

OLHAR DESCALÇO

Com um  olhar descalço e desnudo
andava livre por este mundo afora
umas vezes falante, em outras, mudo
vez ou outra estacionava e, com demora,
bebericava os detalhes da paisagem
de gole em gole, sorvendo as delícias
desses lugares e guardava na bagagem
juntamente com as anteriores notícias


Embriagado, sentava quieto num canto
e rabiscava todas as suas impressões
em versos vários e distribuía um tanto
pra que o vento ventilasse suas emoções
-somente então outro porto escolhia   
para embarcar em mais uma viagem
onde seu olhar desnudo em tudo via  poesia
e descalço, lambia, inteirinha, a paragem-



OLHAR DESCALÇO – Lena Ferreira – dez.14