quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

PRESENTE

Então, é quase natal. Não só por isso, mas também por isso, agradeço. E agradeço por tudo aquilo que já passou. Pelo que voltou sem ao menos ter ido. Por tudo que se foi sem volta. Pelas reviravoltas. E pelo que está. O que virá, é novo e, é claro, desconheço. Não sou vidente. Mesmo assim, agradeço antecipadamente porque acredito que tudo o que nos acontece tem lá os seus motivos. No mínimo, no mínimo, é sinal de que ainda estamos vivos, certo?
Então, de peito aberto, agradeço pelas presenças e ausências. Das palavras, dos silêncios, dos ouvidos, dos gestos, das poesias e dos ventos. Agradeço pelos adiamentos, transferências e pelas antecipações. Pelas esperas produtivas. Pelas dúvidas certas. Pelas críticas construtivas. Pelos laços, os nós, o nós, as pétalas e os espinhos. Pelos caminhos em sorte ou revés. Agradeço aos pés que me fizeram chegar até aqui e me farão, espero, seguir num caminhar além. Agradeço ao peso da espada e a leveza da cruz. Agradeço especialmente pela consciência de ser feita de sombra e de luz. E por optar, na maioria das vezes, em me alimentar do que nutre o bem. Agradeço, agradeço, agradeço...
Peço pouco. Nada muito além do que coragem e fé. E que elas sejam maiores do que aquele medo que bate quando a gente perde o rumo, as chaves, as provas e as senhas. E que toda lenha que eu acenda seja para espantar o frio do corpo, do coração e da mente. E que eu saiba distinguir o que é meramente um capricho infantil do que me é realmente necessário. E que eu tenha sempre a certeza de que posso, e devo, quantas vezes julgar preciso, refazer o meu itinerário. E disposição para doar-me sem pensar no retorno. E olhos corajosos para olhar por dentro de mim e dentro dos olhos do que acontece no entorno. E vigor para a troca ao invés de apego ao troco. E amor, e saúde, e perdão, e amor, e amor, e amor...
Pouco, disse? Risos. É quase natal! Releve os excessos...
Então, eis o que mais peço, também verdadeiro: onde ou com quem quer que esteja que seja e esteja presente; um presente inteiro.




PRESENTE - Lena Ferreira -

domingo, 13 de dezembro de 2015

VIVA

E aí você acorda, mas acordar é pouco. Dá uma olhadela pela janela e confere o tempo. Um sol tímido convida para beber o dia. Embora com preguiça, você aceita. Levanta da cama. Passa as mãos nos cabelos, toma meio gole de coragem e respira. Seus pés descalços levam o seu corpo, e o sono, até a beira da praia. Lá, você ensaia um passo a mais além das águas frias. Mas, o vento sopra e o sol resfria. Então, você recua temendo pela ousadia. Mas, repensa a precisão. Respira. Toma então um gole inteiro de coragem. Deita os pés nas ondas arredias. Frias, arrepiam até os pelos do pensamento, é claro. Mas, despertam o que ia dormente. Sente? E acordam os olhos do daqui pra frente. Vê? E abrem os ouvidos do ‘não quero mais’. Ouve? Então... Mergulha o sono e o seu corpo inteiro. Aquele mesmo, mas o mesmo outro. Aquele além daqueles olhos doutos. Aquele a quem você ‘deve' o amor primeiro. Vai, mergulha. E leva junto a sua alma. Aquela a quem você mantém cativa. Vai, 'me orgulha'... Viva!



VIVA - Lena Ferreira -

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

EVOCARE

Os dias que evoco
não listam o sol nem a chuva
não chamam riso nem pranto
não acertam retas nem curvas
não servem servos ou santos
não clamam brisa ou vento
não pedem juízo ou loucura
não falam à dor nem ao alento
não dizem veneno ou cura
Os dias que evoco
não têm certezas nas folhas
mas, sei que o seu epicentro
é fruto das minhas escolhas
somadas ao que carrego por dentro



EVOCARE - Lena Ferreira -

sábado, 21 de novembro de 2015

SAMSARA

Pelas ruas espessas
caminham as respostas
apressadas, apreçadas
e as compromissadas
com o fio, o do meio
entre elas, passeio
sem receio ou espanto
vez ou outra, me expresso
sim, às vezes, tropeço
entretanto, levanto
e retorno ao passeio
onde busco em samsara
sem demora e sem pressa
o que me interessa:
a pergunta mais clara



SAMSARA - Lena Ferreira -

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

NO ALTAR DO VENTO

O que tenho, e que me alivia,
são os versos que, humanamente, teço
esses que, de tempo em tempo,
despretensiosamente, ofereço
acesos, aos pés do altar do vento

Enquanto queimam, observo:
a qualquer noite ou qualquer dia,
um de seus fragmentos,
para a  minha alegria,
há de se tornar
verbo


NO ALTAR DO VENTO - Lena Ferreira -


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

SIM, EU SEI

Sim, eu sei que a vida corre a galopes. E sei também que, às vezes, nos dá duros golpes. E por saber dessa dureza é que me encontro diante do mar que sempre, sempre está pronto a me receber, a qualquer hora ou sentimento. A me perceber, sem o peso da censura ou julgamento. A me envolver, seja na tristeza ou na alegria. E a me devolver, ao sabor da maresia, as notas da canção que tão bem me faz à alma. As mesmas que depois carrego bem no meio da palma da mão que tenta segurar a barra da saia onde uma onda ensaia aconchegar espuma e sais.
Permito. Justa é a troca, é pelos ais das manhãs estendidas numa elevada quentura. Pelas tardes minguadas na espera da brandura. Pelas noites cumpridas em lua quando, em teima, insisto.
Sim, eu sei que a vida margeia o imprevisto. Entre perdas e ganhos, sins e nãos, riscos e danos. Desobediente às regras e aos arquitetados planos, é a vida e é assim: corre a galopes e o tempo tempo, evapora, mas diante do mar, corpo, mente e alma se revigoram.



SIM, EU SEI - Lena Ferreira -


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A4

Lança sobre mim
esse olhar de outono
e, com suas letras instintivas
na dança do impulso sobre a linha
da vida, da morte, do meio e na sina
precipita-se em inventadas verdades
abismando mágoas reativas
ilusões macias e realidades
duras, cítricas, sereno e curas
paixões fugazes e fantasias
deita amores, dores e euforias
e, com dedos de um pulso abandono
planta em minha virginal alvura
as sementes sazonais e nativas
que o vento traz, não sei de onde,
revelando enquanto, pensa, esconde
em verso avulso pelas entrelinhas,
o ramo, o remo, o rumo e a mira
que o impulso expulsa; livre ou rima




A4 - Lena Ferreira -

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

REPRISE

Passou por mim como se fosse um vento
Que estica o arco e sua flecha lança
Ingênua, imaginei que, tão criança,
Corria em busca de divertimento

Mas, na *Avenida em congestionamento,
Lastrava os traços de suas andanças:
Cordões, relógios, carteira, alianças
Iam, do dono, a um compartimento

Localizado entre a cintura e o bolso
Onde uma faca, sem nenhum esforço,
Ferramentava o célere ofício

Como reprise em salas de cinema
Quem vai dispor atenção ao problema
Que mata a infância depois do princípio?


REPRISE - Lena Ferreira -


*Avenida Presidente Vargas - Centro - RJ

terça-feira, 3 de novembro de 2015

ECO

Fosse só essa certeza que não tenho
tudo o mais seria facilmente resolvido
o prognóstico dormiria a sono solto na gaveta
juntamente com os sintomas e as premissas

As frases todas, desconexas, insensatas
não reclamariam bengalas nem aros
nem convocariam receitas ou resgates
e as taxas seriam bem menos notadas

O eco voltaria um pouco mais preciso,
esquecido do estreito e rouco pigarrear
e a torrente dos internos desgastes
ciciando por socorro, já estaria extinta

Mas não...

A teimosia veio anexa ao pacote
onde o simples suspirar é exercício tão difícil,
o vício debruça-se qual dança do ventre
sem música...
...em brasa

Resta-nos a espera
pelo tempo-remédio
ou
uma dúvida mais certa




ECO - Lena Ferreira -

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

ÀS TRISTEZAS DESTE DIA


Elevo o pensamento aos que já não estão neste plano, mas, que fizeram parte da minha jornada deixando marcas, ensinamentos, lições... E agradeço sinceramente pela oportunidade do convívio e da troca que nos foi permitida até o momento da passagem. Certo que uma ponta de tristeza pela ausência física nos abate, principalmente neste dia (de finados).
É fato que nada conseguirá preencher o vazio deixado, mas saber que compartilhamos alegrias, sorrisos, abraços e vida, se não sara a ferida, ao menos suaviza a dor da perda e com a lembrança de tudo o que vivemos juntos, deixo escapar um sorriso tímido mesmo com o peso de uma saudade infinita, mas tão bonita... Que, de certa forma, me consola.
Meu profundo respeito às tristezas deste dia acompanha a quase certeza de um reencontro mais adiante.




ÀS TRISTEZAS DESTE DIA  - Lena Ferreira -

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

ANIMA

Dai-me ouvidos límpidos para a escuta
do poema que a vida me apresenta
e a palavra delicada que apascenta
um novilho tosquiado à força bruta

Dai-me mãos cooperativas na labuta
e a gota de suor que acrescenta
um grãozinho nessa caixinha cinzenta
e os pés capazes na boa conduta

Dai-me olhos que, além de ver, enxerguem
o equilíbrio e os ombros que se erguem
independente do peso oferecido

Se peço muito, dai-me força - esquece o resto - 
para casar cada palavra com seu gesto
e a leveza de um peito agradecido 



ANIMA - Lena Ferreira - *

terça-feira, 27 de outubro de 2015

CANÇÃO PARA UMA BORBOLETA

Ana,
onde a meninice vibra
a faceirice se equilibra
e a mineirice doa garra e fibra
pelas mãos de um Sol em libra
dona de um sorriso que abraça
e de um abraço que transborda
tem um olhar em transparência
que revela em pura essência
que 'apesar de'...a vida é boa:
segue e serve e, ‘se...’, perdoa
Ana,
que, fr(ágil) se fez fortaleza
qual borboleta, na sua leveza,
pousa, vibra e, livre, voa
e, acima de tudo,
ama.


CANÇÃO PARA UMA BORBOLETA - Lena Ferreira -


domingo, 25 de outubro de 2015

OUVINDO

As vozes do vento, as velozes,
confundem os ouvidos incautos
em sustos, também sobressaltos,
imputam torturas ferozes

As vozes do vento, as bravias,
iludem os olhares distantes
em compassos tão dissonantes
instauram a desarmonia

As vozes do vento, as amenas,
difundem a calma prevista
em passos de lenta conquista
evocam as coisas pequenas

As vozes do vento, as suaves,
dispersam as palavras graves


OUVINDO - Lena Ferreira -


terça-feira, 20 de outubro de 2015

QUASE

E foi assim que veio:
veio doutros meios
quase susto surdo
quase medo cego
quase que segredo
quase canto mudo
o ego em espanto
sorriu com os olhos
que reconheciam
o encanto, tanto,
de outros vagares
desaguando mares
num fluido perene
sob a luz Selene
veio doutros rios
veio doutros veios
veio unindo fios
engatou meneios
extinguiu o estio
e acordou o dia
em quase poesia   


QUASE - Lena Ferreira -

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

ALENTO

Planto gestos
e momentos
mudas, sementes
antes do fruto
afeto
é nato
Palavras empresto
ao vento
semeio o verso
em estado bruto
só feto
é fato
Os dedos cheios de letras
que cavoucam a página do dia  
e as mãos cheias de folhas
que pretendem colher poesia
águo-as nas fases da lua 
seco-as nas lágrimas do sol
rescende um aroma dessa rotina
que espanta as ânsias mais ingênuas
e perfuma as gotas cheias da retina
e prepara o itinerário que amanhece
e refaz o ciclo que tão bem conhece
- planto palavras
no vento -



ALENTO - Lena Ferreira -

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

CIRCULAR II

A mão na caneta
a caneta na folha
a folha nos olhos
os olhos pra fora
o fora pra dentro
o dentro na mente
a mente no verbo
o verbo na alma
a alma no verso
o verso na folha
a folha no vento
o vento nos olhos
os olhos na mão




CIRCULAR II - Lena Ferreira -

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

MEMÓRIA LÍQUIDA

E um rio corre manso e claro, à margem de uma casa amarela rodeada pela cerca de bambu
onde sóis se espreguiçam, onde tardes se balançam, onde luas se penduram juntamente com o futuro, estrelas e saguis.
Com os seus passos de silêncio apressado e com os seus olhos de deságue comprido, o rio observa o rolo de fumaça que sai pela chaminé de ferro e imagina: há fogo, há lenha, então, há lida.
E olhando para o quintal, flores de par em par, pássaros a cantar, roupas no varal, frutos no pomar, vento calmo, quase brisa, calmo, novamente imagina: há vida tranquila.
Concluída a inspeção, segue então o seu percurso. Deslizando macio, de leve se avoluma, levando, impregnada em sua líquida memória, a colheita do cenário desenhado, esboço a nuvem e giz.  
E então corre. Corre e vai contar ao mar tudo o que a visão em curso conhece. Mas, num deságue ligeiro, segue alheio ao que dentro da casa de fato acontece.



MEMÓRIA LÍQUIDA - Lena Ferreira -

sábado, 3 de outubro de 2015

SANTAS PARALELAS

Das promessas
feitas nas horas extremas
tal qual prece silenciosa
sobre as folhas do tempo omisso
quase todas foram remidas

Quase...

Há, ainda
em compasso de espera,
a que põe a alma em dobra, de joelhos:
caminhar sobre as santas paralelas
sem que os olhos retornem vermelhos




SANTAS PARALELAS - Lena Ferreira

domingo, 27 de setembro de 2015


o dia acorda e que não seja mais um dia
só um dia a mais para cumprir o calendário
que seja novo o pensamento e, o itinerário,
que me conduza ao equilíbrio, à harmonia

que eu consiga enxergar a poesia
solta nas ruas, nos olhares, cantos vários
e, como alguém que ouve o som de um Stradivarius,
que eu sinta, em cada nota, a nova a sinfonia

de toda voz que se achegar aos meus ouvidos
- de gratidão, lamentos, queixas ou pedidos -
que eu possa ouvir com muita calma e sem censura

o dia acorda virgem e, com um brilho franco,
é como extensa folha de papel em branco
que pede escrita leve e verbos de ternura



 - Lena Ferreira - *

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

ESPERA DE PÁSSARO

Nesses dias de silêncios inquietos, um pássaro tem vindo pousar tranquilo num dos galhos da velha amendoeira que ladeia o meu quintal desordenado em folhas e me feito, ainda mais curiosa, deitar sobre a cena estas especulações:
- seria uma pausa distraída em descanso?
- seria uma espera pelo vento propício?
- seria um tempo para reparar as penas?

Certo nisto é que são somente suposições. E banais...

Fato é que nesse pouso, arquitetado e sereno, o qual supunha uma espera descuidada, ele cumpre prazeroso o seu ofício:
canta...
...canta
canta...
...e canta

- enquanto o tempo, precioso e preciso, desliza manso orquestrado por seu canto -

E quando a ave, suave e leve, ensaia alegremente um voo novo, encantada peço, gentilmente, que aguarde um pouco mais e me ensine a esperar da mesma maneira que um pássaro faz.
  .




ESPERA DE PÁSSARO - Lena Ferreira -

sábado, 22 de agosto de 2015

CLARA TARDE

Clara, a tarde se encosta
na varanda, preguiçosa,
entre as plantas viçosas
onde busco a resposta

Às perguntas mais vazias
que me chegam de repente
por um vento descontente
cheio de melancolia

Mas, com a tarde, vem a brisa
que, suave, me avisa
do silêncio que pondera

E a resposta amadurece
certo; o verbo então floresce
assim como a primavera


CLARA TARDE - Lena Ferreira

sábado, 15 de agosto de 2015

MEMÓRIAS DE QUINTAIS

Trago, intactas, memórias de quintais
onde as asas da infância, sem ter peso,
levavam-me em voos plenos e infinitos
aos mundos mais diversos, imprevistos
...fantasias

Os pés descalços sacudiam o pó do tempo
e as mãos arteiras sonhando moldar nuvens
riscavam um sol torto e sorridente no chão
quando o céu acordava meio aborrecido
...e ele sorria

Os olhos rompiam as amarras do provável imposto
e sondava a calma impensada do vozerio das cores
que, dançando com o vento em festa sem anúncio,
convidava joaninhas e borboletas para mais uma valsa
...de euforias

Num tempo vívido e vivido entre os sonhos mais reais
...nostalgia?

Não...

Memórias como estas trazem o cheiro das coisas frescas
dos sabores, dos temperos, das andanças mais incautas,
e das tranças da menina tão peralta, leve e solta no balanço
e tão exatas que, em visita, ainda alcanço o seu perfume:
...poesia


MEMÓRIAS DE QUINTAIS - Lena Ferreira -




sábado, 1 de agosto de 2015

PARADOXO

Sentir o ar faltando e sentir sede
e ser a rede pro próprio cansaço
forjando o aço frágil da estrutura
com uma ternura farta no sorriso

Sentir o beijo das brisas serenas
e ser pequena diante do desejo
de agarrar as beiradas do vento
num chamamento imune à negação 

Sentir a palavra dançar qual folha
e ser escolha  enxergar um poema
- onde o problema é visto pelos doutos
outros equacionam os seus dilemas -



PARADOXO - Lena Ferreira - 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

CANTO PRIMEIRO

Cessa o vento quando o canto ecoa
em sibilos dos mais vários cantos
a cantiga que o instante entoa
contagia os corações, os tantos

Que vagavam pela vida estreita
ressentidos, como bandoleiros
com suas liras em dores suspeitas
iam surdos ao Canto Primeiro

Cessa o vento - no efeito das notas
os sentires tomam outras rotas
olhos passam a enxergar bem mais

os ouvidos, muito mais sensíveis,
abrem-se para os sons aprazíveis
dos sibilos que lhes trazem paz -



CANTO PRIMEIRO - Lena Ferreira -

quarta-feira, 15 de julho de 2015

BRISAM-ME

Enquanto anoto as notas que a noite traz
nem noto o tempo que me olha tão atento
pudera, ando distraindo-me com o vento
com os rodopios que seu movimento faz

Nas luas que vão descuidadas, vou assaz
buscando um novo ritmo pro pensamento
na contradança, pauso a lira em contratempo
com passos de tocar na noite o que me apraz

E quando chega a vez das notas madrugadas
- aquelas que contêm estrelas já suadas
pelas distâncias percorridas céu afora –

Me pego olhando a quem me olha tão tranquilo
seus olhos deitam nos meus olhos sem sigilos
suas notas brisam-me com beijos que demoram


BRISAM-ME - Lena Ferreira -

terça-feira, 14 de julho de 2015

DOS VERDES EXCESSOS

No campo extremo dos verdes excessos
nascem palavras que espocam como tiros
entre rubros e alvos delírios, sangue; jaz
o que era paz, ensaio - mas, um ato, peço:

calçada com os silêncios mais maduros
peito aberto, desarmada e sem escudos
penso erguer uma das solidárias tendas
no esquerdo canto do campado em quase flor
com bandeiras verde-oliva tremulando
mastros que verguem ao sabor do tempo

- mesmo que não entenda o suor do vento,
mesmo que não entenda seu deslocamento,  
intento plantar azuis no chão das exceções:
o campo necessita de cuidados, não de canhões -



DOS VERDES EXCESSOS - Lena Ferreira -

segunda-feira, 13 de julho de 2015

PRIMAVERANDO NO INVERNO

Venho de plantar entre as estações
sementes várias de flores que nem conheço
- sem aguardar pelo florir que não tem preço,
levo no peito a melhor das sensações -

Vou solitário, carregado às emoções
visto sozinho em passo, triste assim pareço
imaginado que nem saiba o endereço
de onde chegar; sentido, metas, direções

- mas, do plantio, não me canso: ciclo eterno
verões e outonos, primaverando no inverno -

Entre o cuidado e o acaso sementeiro,
as flores nascem, perfumando o caminho
e o detalhe de ser visto assim, sozinho
passa distante do pensar plantar primeiro



PRIMAVERANDO NO INVERNO - Lena Ferreira -

sexta-feira, 10 de julho de 2015

MUDAS

Flor que se demora respirando culpas
em pétalas íntimas de orvalho e luz
espremida entre silêncios e esperas
anseia pelos dedos lisos do cultivador
que, alheio às necessidades férteis,
nega a rega e ainda transplanta mudas
de camélias,  de begônias e de lírios
para o terreno lasso vizinho da calma

- há de se plantar uma muda que seja
de sândalo, baunilha, de verbena ou trigo
em torno dessa rosa úmida de estrelas
para que, florescendo no tempo preciso,
suavizem o vento das ervas daninhas -



MUDAS - Lena Ferreira - In Florbelescos

segunda-feira, 6 de julho de 2015

TEU CORPO

Teu corpo
respiro
como vida
fenda, fissura, carne e fibra
detalhes ínfimos e vários
sudário íntimo, necessário
que me descobre enquanto cobre
as partes úmidas e mínimas
- sementeprecisosemente -
planto-te no ventre do afeto
as
piro
teu corpo
como vida
teu corpo
respiro
como a vida



TEU CORPO - Lena Ferreira - 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

DAS MANHÃS SOZINHAS

Ah, vento das manhãs sozinhas
vens passageiro como quase brisa
e suavizas o tom grave da saudade
que, na verdade, grita-me tão perto

Decerto, ouviste as queixas madrugadas
quando, amparada por estrelas frias,
chovia as nuvens dos dias mais largos
em pingos bem magros de desfazimento

Ah, vento das manhãs sozinhas
tranquilo e manso, vens e me abraça leve
e, mesmo que breve, faz-me companhia
despedindo a agonia, a calma toma assento

Decerto, estás somente de passagem
outras paragens de ti necessitam
e solicitam o teu sopro suave e macio
que, mesmo frio, conforta, conforta

Então, vai...

...e leva contigo o meu agradecimento


DAS MANHÃS SOZINHAS - Lena Ferreira - 



  

terça-feira, 30 de junho de 2015

SACRO OFÍCIO

Tão calmo esse azul que observa
o entorno e tranquilo traz pra dentro
aquilo que beneficia o centro
o esquerdo canto, a alma e as fibras

Tão calmo que o corpo inteiro vibra
em ondas de energia limpa e pura
- doadas com cuidado e com ternura,
aumenta ainda mais sua reserva -

Tão calmo esse azul - fácil parece
manter a cor do céu quando ele desce
e descolore o quadro a meio palmo

Mas, fácil, só parece - sacro ofício, 
penso - requer silêncio e exercício
e por pensá-lo, calo e me acalmo



SACRO OFÍCIO - Lena Ferreira - 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

ALFAZEMADA

Foi de silêncios que compus em parceria 
a canção de reestreia desse instante

entre a inquietude quase morna da espera
e a mansidão alfazemada do encontro
segundos foram longos como eras

- braços querentes de abraços;
batutas regentes de momentos -

na demora íntima, as notas se afinizam
tocando cada canto, conhecido e estranho

e como quem adivinha saudades e delírios
inauguram cicios estreitos, longos e macios
no curto espaço entre os lábios e o juízo



ALFAZEMADA - Lena Ferreira - jun.15

sexta-feira, 26 de junho de 2015

PARA ARIADNE

Num labirinto estreito, letras seguem decididas na busca por uma palavra de estreia. Desafiando mitos, dialoga com os fantasmas nas lacunas pontilhadas rimando os ramos de rumores ralos com os rumos rasos das alucinações lunares.
Enquanto um silêncio gentil e sincero solicita um fiapo que seja do novelo de fazer sentido, essas letras estendem as suas mãos, vazias de fio e de medo, e os dedos, cheios de teimosia. Que tateiam as estantes voláteis.
Com as retinas embriagadas pelos ácaros imersos nos goles do extinto vinho, insistem nessa sina estranha.
Trôpegas, esbarram em becos, bocas, bicos e quinas. Derrubam os olhos em alguns livros, grossas laudas seculares e, vestindo suas capas, retas, rotas e mofadas, incorporam feiticeiros, mestres, magos, adivinhos. Ressuscitam umas palavras mortas, retiram-lhes o ranço e o cansaço e, vicejando-as nas entrelinhas, essas letras todas zonzas, todas tontas, todas tortas, quase, quase encontram a porta...
Mas, para Ariadne, mil esforços não importam se a ponta do novelo for esquecida. Sem o fio da meada, Teseu não encontrará a saída.

(...)

Num labirinto estreito, com os dedos cheios de teimosia, letras seguem a seta de uma sina sem senha.
Dispensando resenhas e altares, retornam aos seus ritos circulares. Ainda que sem novelo ou claraboia. Ainda que entre hiatos e paranoias. Ainda que não poetize. Ainda que não poesia. Seguem. E seguirão a saga dessa sina estranha enquanto o Minotauro não as apanha.



PARA ARIADNE - Lena Ferreira - 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

MAIS ÍNTIMOS

Travessa, uma gotinha de chuva
atravessa o telhado da varanda
e, esticando-se todinha no trajeto
entre o teto e o livreto de poemas,
cai serena sobre uns tímidos versos
e macula a folha, página de outono

Desviando a atenção dos supérfluos
dedos sem sono sobrepõem-se à mácula
descobrindo o quê que ia encoberto
entre os anseios mais fúteis, vários
entre as linhas entremeadas em flor

Olhos, mais nítidos, bebericam o necessário 
Dedos, mais íntimos, seguem o seu itinerário



MAIS ÍNTIMOS - Lena Ferreira - 

domingo, 21 de junho de 2015

NO ESPELHO

Acho graça quando a imagem se alinha
e aninha as vestes de um vento suposto
à crueza do rosto, dos fatos e dos ritos
benditos e, despindo suas comiserações,
costura uns remendos, fiapos do tempo
nas lembranças inóspitas e arrefecidas
aliando o roto reverso ao avesso da pena

É uma graça pequena que não ri nem chora
pelo ofício flácido de ninar as plangências
e as emergências dos reflexos que refreiam  
debruçados no compasso do sossego volátil
à beira do berço largo  onde a mente divaga
na vaga observância de incautas urgências
que no vento depositam as marés de desgosto
os azares dos vazios, as tardes de sorrisos
as noites sem juízo, os dias de procura,
os voos em clausura, mesuras e pirraças

Acho graça quando a imagem se alinha
e aninha as vestes que, despindo-me, não vejo
no espelho, não rio nem choro; solfejo



NO ESPELHO - Lena Ferreira - 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

ANÔNIMAS

Poeiras pré-concebidas estagnam o vento
e acorrentando-o através dos seculares dias
alimentam o pavio de guerras frias e mudas
estatísticas apreçam o custeio e os valores
e enquanto rios secam e mares transbordam
as terras sem fronteiras definidas tremem
mais pelos tementes do que pelos temidos
o caos instaurado segue dilatando olhares
santos, surdos e cegos, egos estrelam noites
em nuvens líquidas, lânguidas e passageiras
poeiras pré-concebidas estagnam o tempo
sereno e profuso, o céu nos observa e cala
a rota dos segundos apressa a transitoriedade
a reta dos minutos quase derrapa nas curvas
as horas oram por sorrisos inteiros que valham
a palha sob a chuva que o vento não move
hoje ou amanhã se transforma em fogueira
o fogo, o mesmo fogo que consome a carne
aquece as doidas almas nas vagas de frio
pés ainda tropeçam nas sombras alheias
vísceras expõem-se em translúcidos véus
o caos instaurado segue dilatando olhares
porém, mãos anônimas dispostas em auxílio
dão-se à vida outra mais que à própria vida
resgatando o fio a fio, reconstruindo lidas
- sob o texto de que nem toda lenha é sina
sob o texto de que nem todo gesto se assina -


ANÔNIMAS - Lena Ferreira -

quarta-feira, 17 de junho de 2015

DULCÍSSIMO

Dorme um sonho pequenino
nas abas do pensamento
vai coberto por um vento
vai com olhos de menino

Dorme um sono celestino
cheio de contentamento
sonho com o aprimoramento
dos passos do seu destino

Dorme, sonho, enquanto canto
um dulcíssimo acalanto
até que estejas pronto

Para um despertar maduro
no destino que futuro
paciente o nosso encontro



DULCÍSSIMO - Lena Ferreira - jun.15

terça-feira, 16 de junho de 2015

COLO

Vem de longe. Longe e lento. Lento e, leve,
socorre a noite esparramada pelo resfriado solo
onde os meus olhos teimosos, rubros, se debruçam
em lamentos incoerentes, improváveis e inúteis

Fala-me manso e cioso sobre o que quase escuto:
amnésia, lobotomia, rechaço, em falta o que parece prece
possíveis elementos para uma defesa crua e cauta
às memórias doloridas que cochilam em sono breve

Quase escuto, quase entendo, quase, quase, quase...
enquanto não aceito, sussurra macio: esquece, amor, esquece
e, recolhendo do chão os meus olhos pequeninos,
com um olhar de outono, o seu colo reaquece-me


COLO - Lena Ferreira - jun.15

segunda-feira, 15 de junho de 2015

NOITE-AVENCA

Tardes dessas, quase inverno,
uma chuva insistente cai miúda
sobre o cômodo das memórias dormentes
que se agitam e assaltam os olhos
cúmplices das nuvens mais vagas
amedrontam a noite-avenca
que despenca verde, verde e estia
apressada pelo cândido orvalho
madrugando a tez da nostalgia
estendida, extensa e extremada
novelando o fio em voz macia
alarga as gotas que iam magras
alaga o chão da avenca-noite...

...e me resfria



NOITE-AVENCA - Lena Ferreira - In Florbelescos

domingo, 14 de junho de 2015

DE BAUNILHA E MIRTO

Ao ver as mãos inertes do moinho
pôs-se a imaginar o quão bom seria
um vento liso de promessas breves
fizesse ninho em cada um dos dedos

Solicitou serviço ao senhor das horas
- que facilita o caminhar das coisas -
mandasse um sopro em seta sussurrado
em notas altas de baunilha e mirto

Envolto pelo leve aroma quixotesco
o sopro, engravidando ventanias,
beijou os nãos que assenhoram o tempo
sob um casto campo de rubras tulipas


DE BAUNILHA E MIRTO - Lena Ferreira - jun.15

sexta-feira, 12 de junho de 2015

EU TE CUIDO

Do meu amor
sei pelo que cala
enquanto ecoam pelas salas
muitos "eu te amo" por descuido
do meu amor, úmido e amiúdo,
cada toque e gesto zeloso
cada beijo, cada fluido
cada olhar silencioso
me declara: "eu te cuido"



EU TE CUIDO - Lena Ferreira - jun.15

quinta-feira, 11 de junho de 2015

SOBRE A POÇA

Sobre a poça pela noite derramada
um sol novo já com ares de inverno
trouxe nos dedos um madrigal  tão terno
pra tocar em cada gota esparramada

Cada toque, o vapor que ascendia
modificava as gotas da poça cheia
solfejando a novidade que se enleia
- feita em nuvens, a poça pro céu subia...

...lá chegando, o sol com um abraço forte
condensou dores, tristezas; fez um corte
no ventre de cada nuvem que se via -

Se pecado for, perdoe: ao ver a morte
dessa poça em cada nuvem que paria
percebi que, em volta, a vida renascia



SOBRE A POÇA - Lena Ferreira - jun.15

segunda-feira, 8 de junho de 2015

DE ONTENS

De ontens, trago direções diversas
grafitadas nas paredes da memória
acrescentando sentidos ao curso da vida
ninguém viu o grafiteiro pular o muro
embora todos saibam de sua existência

perambulando os instantes, cauteloso
conferindo verdade às fotos, aos mitos
e aos ditos, efeito prático e irrevogável
e embora alguns fatos permaneçam ocultos
seus vultos acenam gestos e verbos distintos

nada se passa sem que ele perceba, nada
não há espaço que escape de suas mãos

habilidosas, vão grafitando os corrimãos
dos segundos escorridos mais discretos
entre o ciliar dos olhinhos distraídos
ou dos cochilos entre um sim e um talvez

e enquanto vou deitando a minha escrita
debruçada nessas tolas considerações
seu hálito ciciando leve e liso
tinta um gemido como aviso:
vou grafitar isto também...


DE ONTENS - Lena Ferreira - jun.15


sábado, 6 de junho de 2015

DEUSA

Contemplemos esta noite que desfila
num vestido deslumbrante de mistérios
salpicado de brilhantes que rutilam
e transformam o momento em etéreo

Contemplemos esta dama dos segredos:
no silêncio sepulcral da madrugada
tão discreta, adormece alguns dos medos
da alma incauta que, de dia, ia agitada

Tão materna que, de uma forma estranha,
acalenta dores várias e cansaços
encobrindo com sua sombra tamanha
muitos nós dos sós e dos sóis, o mormaço

Deusa estranha, adornada pelo tempo
onde entorna-se, o poema faz seu templo



DEUSA - Lena Ferreira -

sexta-feira, 5 de junho de 2015

MARÍLIA

Penso-te oceano
e, enfunando as velas do meu peito
no vento das conquistas improváveis
que sopra rarefeito sobre as águas tranquilas,
espero ao sabor de um dia quase

Passam-se as horas, os dias, os meses
mudam-se os ciclos, as luas e as marés
sem que te preveja ancorando-me as vontades
de volume preciso, de desaguar intenso
entre o veio extenso e o dito impalpável

Ainda assim, cogito passar pelos anos... Ou eras
sob este céu claro, de expectativas esparsas,
coalhado por um rebanho de nuvens tangido a maresias
que, me acenando paciência, não chove, não chove;
mais desassossega as ondas que me correm milhas

Penso-te oceano
e isto é condição inevitável
mas, pela extensa espera, é pouco provável
que um dia espraies tuas águas
pelas areias da minha ilha...


MARÍLIA - Lena Ferreira - In Florbelescos

quinta-feira, 4 de junho de 2015

CONTÁGIO

O choro que a voz segura
talvez por orgulho frágil
corre por dentro e satura
o peito em doido naufrágio

Encharca o esterno e, dura,
faz do pulsar calmo, ágil
destilando  amargura
afunda a alma por contágio

O choro que a voz embarga
e em seguida se larga
à morte em seco mergulho

Alivia a alma e o externo
desfila o seu tom mais terno
despido de todo orgulho 


CONTÁGIO - Lena Ferreira - mai.15


quarta-feira, 3 de junho de 2015

ANTES MESMO DO INVERNO

E a distração dessas tardes mais curtinhas
- que se encolhem já prevendo o frio fino -
tem sido costurar mornos detalhes
sobre as folhas em desmaios outonais

Generosas, alinhavam temperança
nas arestas agitadas pelos sustos
num ofício paciente e solidário
que reclama anonimato e sensatez

O sereno do período, antecipado e terno,
testemunha o capricho das zelosas artesãs
e sob juras de silêncio que se cumprem
surpreende-se com o hobbie vesperal

- uma colcha salpicada de aconchegos
que aquece estrelas antes mesmo do inverno -



ANTES MESMO DO INVERNO - Lena Ferreira - jun.15

terça-feira, 2 de junho de 2015

DOIS VAGARES

Vem de vagar pelas luas risonhas
em suas fases frescas e completas
inaugurando mais rimas secretas
nos versos que todas as almas sonham

E, devagar, é bem capaz que ponha
aquelas frases, as mais que diletas
nas entrelinhas que, sempre discretas,
dão vozes às estrofes que componha

Vem de vagar, vem suspiro, vem vindo
manso e quieto, vem se distraindo
com um sopro, como boa companhia

São dois vagares - de sopro e suspiro -
os dois que, desde sempre, admiro
os dois que ventam amor à poesia



DOIS VAGARES - Lena Ferreira - jun.15

ENTRE O SILÊNCIO E O MURMÚRIO

Entre o silêncio e o murmúrio
artífice das memórias vagas
escavando velhos abismos
garimpa ruídos de estrelas
peneirando antigas frases
transitáveis como as ruas
dinamita as incertas falas
fragmentando perguntas
à resposta que, sincera,
impera, quarto e sala:
pondera, pondera



ENTRE O SILÊNCIO E O MURMÚRIO - Lena Ferreira - jun.15


segunda-feira, 1 de junho de 2015

DE ORGANZA E RENDAS

Sopro uma canção de organza e rendas
sobre as promessas que acenam nuvens
com lenços úmidos de sóis e de orvalho
algodoando suspiros nas brisas bordadas

Hão de se cumprir todas as notas sonantes
no tempo imprevisto pelo contratempo
enquanto medos contorcionam as sombras
apazíguo-me com os fantasmas e ventos 




DE ORGANZA E RENDAS - Lena Ferreira - jun.15

domingo, 31 de maio de 2015

DESEMBARQUE

Das viagens feitas com um só destino, despachei certas bagagens sem descuido.
O conteúdo fora conferido atentamente ordem a ordem. Não há nada nos Achados & Perdidos. Tudo o que está contido possui autonomia de voo.
Trago o mesmo sorriso guardado no bolso dos lábios. Ainda se abre facilmente ao mínimo aceno das delicadezas mornas e improvisadas.
O vento é outro. É outra a brisa. O mar, suspenso. Não há estrelas, é dia.
Lembranças chegam como um bálsamo aerado entre sussurros. Rasgam o bolso em risos de  canto a canto. E debulham as pétalas da alma arredia. E alisam a calma em conquista suave.
Acaricio a lista das permanências e, respirando mais leve, flutuo.
Pouso sob um céu reconhecido que me abraça e me faz blues.  Sopros sibilantes trazem para perto, vozes e vozes equidistantes.
Desembarco. Entre os diálogos tranquilos e sem pressa. Saudade é bicho que se mata devagar.



DESEMBARQUE - Lena Ferreira - mai.15

sábado, 30 de maio de 2015

PASTOREANDO AUSÊNCIAS

Ah, vertentes de constâncias e alívios,
águas deslizantes em perenes sossegos
que margeiam certas sedes insolventes...

- com aquelas que, pastoreando ausências,
alisam os seus umbigos proeminentes
dolentes num descampado modesto -

...tendes complacência

- grávidas de gestos, miram distâncias  
e aguardam pelo parto dos convívios -



PASTOREANDO AUSÊNCIAS - Lena Ferreira - mai.15