quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

EX-PRESSA

Nem bem o dia começa
um pescador arremessa
sua rede no mar tranquilo

Suave e isento de pressa
colhe do fundo a promessa
dos frutos, quilos e quilos

Nessa tarefa que recomeça
toda paciência é ex-pressa




EX-PRESSA - Lena Ferreira - fev.15 * sobre a foto de Sebastião Salgado



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

COSTURA

Desde o dia inoportuno que partiste
levo comigo uma caixa de costura
com agulha, linha e os retalhos da jura:
em momento algum mostrar semblante triste


Mas, por dentro, é claro que a tristeza insiste
rasga o peito em maliciosa tortura
junto forças - e não cedo à amargura -
costurando o rasgo e o peito, assim, resiste


Desde quando tu partiste, passo os dias
na costura onde os risos de alegria
remendam a dor que parece não acaba


Linha, agulha, jura, retalhos - suspeito
que tudo na caixa esteja com defeito
pois, à noite, todo trabalho desaba -



COSTURA - Lena Ferreira - fev.15


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

MÍNIMA

Sempre haverá quem conteste
Quem discorde com o que diga;
Não é motivo pra briga
Nem preciso que proteste


No argumento que investe
Se achar justo, então, prossiga
Mas, como diz uma amiga,
A vida é um ciclo de testes


Onde, sem nos darmos conta,
Usamos lápis sem ponta
No  X de algumas questões


Mínima é a exigência
Pra salutar convivência:
Respeitar opiniões


MÍNIMA - Lena Ferreira - fev.15


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

NO ESTADO DE POESIA

Sou água que o vento embala
sou nascente, sou maré
sou verso de quarto e sala
sou jurada, juíza e ré


Sou, da arma, o tiro e a bala
sou cabeça, ombro e pé
sou silêncio, o grito e a fala
sou madeira, o ferro e a fé


Sou sereno e sou ventania
sou tristeza e sou alegria
sou homem e sou mulher


- que a realidade recria
pois, no estado de poesia,
posso ser o que eu quiser -




NO ESTADO DE POESIA - Lena Ferreira - fev.15

domingo, 8 de fevereiro de 2015

TRÍADE

A primeira escuta atenta
a memória de todas as letras
cores, gestos, perfume e poeira
lendo as linhas reais ou sonhadas

A segunda, teclado ou caneta
como partículas de um cometa
do que sonha às vivências ajeita
dando vida às vidas inventadas

A terceira, com um dos pés na lua
dia a dia, desdobra-se e sua;
aula e espelho, armário e cozinha
quente e frio, amargo e doce

No descanso, unida às outras duas
complementam-se e, inteiras e nuas,
bebem chá com gotas de entrelinhas
que a leitura da vida lhes trouxe



TRÍADE - Lena Ferreira - fev.15

sábado, 7 de fevereiro de 2015

DESPEÇO-ME

Despeço-me de incertas palavras
e suas justificativas meramente fugazes
Caminho por uma estrada de chão batido
onde todos os sinônimos  ativos
são alertas em placas de pacificação

Despeço-me desse instante breve
sorvendo o segundo do seu sopro
- intenso, vibrante, ventila e vai...e voo -

Despeço-me da insistente desistência
sei que é o ranço do cansaço que a convida...

Escrevo todos os adjetivos na areia
sabendo que as ondas irão apagar
este é o intento, e o desejo:
que venham os verbos




DESPEÇO-ME – Lena Ferreira – fev.15

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

ΕΓΩ

Eu,
que, de versos vãos, vivo
livrando o peito incontido
alivio o meu mormaço


Eu,
que, de vento em não, vibro
ventilando os meus sentidos
refresco o meu cansaço


Eu,
que sedento pela vida
bebo goles fartos, cheios
sinto que a sede não passa


Eu,
que, insistente nessa lida,
traço passos pelos meios
sinto que é só por pirraça




ΕΓΩ  - Lena Ferreira -

GOTA D'ÁGUA

Gota d’água que namora com uma brisa
Flerto com vórtices e volúveis ventanias
Onde as rimas retas ricas não se atrevem
E as palavras mais macias não tem cela


Nasci sorrindo na beirada de um abismo
De onde os verbos lisos arredam dois passos
Alimentei a sede em vão do vinho verde
E na textura à tinta extinta, pinço nuvens


Pressinto longe tempestade, céu vermelho
Apronto os pés que, em ponta, aponta o precipício
Lançando-me num  seco, solto e cego salto
Redimo o peso de uma  improvável pena


E nos segundos que sucedem essa queda
-mero respingo, evaporando, evaporando -
Em tudo penso e do que penso nada sei
E antes mesmo de tocar solo,  nada sou



GOTA D’ÁGUA  - Lena Ferreira - fev.15



-para Inspiraturas - Oficina de lirismo - Quem sou?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

PELOS JARDINS DA VELHA CASA

Andei pelos jardins da velha casa
onde lembranças com asas conduziram-me
a um passado assim, não tão distante
quando os passos, que ainda eram macios,
pisavam disciplinados, repletos de cuidados
para não espantar as tímidas borboletas
enquanto as mãos, que ainda eram delicadas,
afofavam o terreno amplo, limpo e produtivo
e semeavam , zelosas,  grãos de sonhos,
de amores
de cores
de sorrisos


Andei por onde os olhos, cheios, cheios
vislumbraram um paraíso
com pontes
sem muros


Andei pelos jardins da velha casa
e apesar do corpo em brasa
e desses pés já tão pesados
e dessas mãos já calejadas
as asas dessas lembranças
em sobrevoo, à  alma lassa,
devolveram  esperanças
aos montes,
com juros




PELOS JARDINS DA VELHA CASA - Lena Ferreira - jan.15


*para a Oficina Inspiraturas - Por onde andei

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

SE

Hora de arrumar a velha estante. Abrir espaço para os novos sem descartar os antigos. Nessa tarefa complicada (porque o móvel é bem pequeno e os pobrezinhos vivem em saia justa), ao reagrupar os de Drummond, um de Rubem veio ao chão  com as suas reticências exibidas já capa provocando reflexões. "Se eu pudesse viver a minha vida novamente..."
Conseguiu o seu intento. Fora um presente generoso da amiga Stella Maris na Bienal de 2009. Lembrei-me instantaneamente do momento. E do sentido. Foi bom. Deixei de lado a arrumação e debrucei-me na releitura.
Releituras são bem interessantes. Na época, a semente do que dizia já na introdução incomodou-me um tanto, mas não cheguei a concluir se concordava ou discordava com o que o Mestre dizia:
 "Se eu pudesse viver a minha vida novamente, eu quereria vivê-la do  mesmo jeito como vivi, com seus enganos, fracassos e equívocos. Doidices? (...)"
Mas deleitei-me com o restante da leitura, repletas de traços de delicadeza e nostalgia, emprestando-me às vezes colo, às vezes mãos, às vezes asas.
De lá pra cá, um bom tempo passou. Eu passei por tantas coisas e tantas coisas passaram por mim. É certo que estou onde estou por conta das escolhas que fiz e estou feliz com alguns resultados. Outros, não. Certas coisas, faria de maneira diferente, sim. Não que me arrependa do que até aqui foi feito, mas se houve aprendizado em tudo vivido até aqui e se pudesse levá-lo para essa ''nova vida'', por que não experimentar a prática do aprendido? Por que não fazer de outro jeito? Errar novos erros, por que não? Ajustar outros planos, outros sonhos, outros medos. Faltas, excessos, exceções...
Se pudesse ler agora o que escrevo, contradizendo o seu pensamento, na certa repetiria aquela mesma palavra, agora em tom exclamativo: doidice!
Pode ser... Pode ser também que daqui a algum tempo, em outra releitura, eu chegue a uma outra conclusão. É o efeito do tempo em nós. Mas, hoje, com todo o meu respeito, Mestre, penso que talvez ''não mexer em time que está ganhando', ''não trocar o certo pelo duvidoso'', ''o medo do desconhecido'', sejam os argumentos que nos travem ou mesmo que nos levem a  dar um passo pra trás. Talvez, ultrapassando esses limites, pudéssemos aprender e apreender da vida um pouco mais...


SE... - Lena Ferreira​ - fev.2015






* Se eu pudesse viver a minha vida novamente... - Rubem Alves -  2009, SP, Verus Editora

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

DE ESQUECER

Teu nome, de esquecer, passou do tempo
dizia-me a razão desde o princípio
das alucinações em precipício
nos despropósitos ditos ao vento

[teu nome, tão sonoro, tão bonito
valsa com a língua pelo rubro espaço
chegando à alma como um terno abraço
deixando em sua pele um verso escrito]

Teu nome, esquecer, diga-me como
se quanto menos falo, mais eu somo
realidade ao sonho em que debruço?

Teu nome, viro lua, se me esqueço
e sendo tu o sol que não aqueço
deixo escapar teu nome entre soluços



DE ESQUECER - Lena Ferreira - fev.15

domingo, 1 de fevereiro de 2015

IRMÃ DO OCEANO

A concha esperando na areia
serena e tranquila pela preamar
guardou as urgências no vento
bebendo do instante o seu sussurrar
enquanto a maré na vazante
bem longe se encontra do seu transbordar
a concha preenche sua espera
com o que considera ao silenciar
quando o mar beijar toda a praia
promessas alfaias irão se quebrar
e a concha, tranquila e serena
irmã do oceano, voltará pro lar




IRMÃ DO OCEANO – Lena Ferreira - fev.15