terça-feira, 31 de março de 2015

LADAINHA

 E das cismas cíclicas em revisitas anunciadas, plantadas no extenso quintal à minha frente, as sementes espalhadas pelo vento invadiram corredores, quarto e sala. E cresceram como heras pelas falas, pelas paredes e subindo além do teto, cobriram o sol, cobriram o céu e todo o seu azul de ensaio. Desde então, busco uma escada segura e firme e com altura necessária para arrancar essas folhas de teimosia viscosa... Antes que cubram o ferrolho das portas e janelas. Antes que impeçam a passagem da brisa suave. Antes que enraízem na garganta e travem definitivamente a voz. Antes que apertem os cômodos até o seu desmaio, asfixiando sândalos, verbenas, orquídeas e outras essências várias. Antes que...

- nesse canteiro, onde faltas largas se alastram e me despoesiam, ladainham lírios e lítio disputando atenções. -

Oscilando entre o ofício e a cura, prescrevo possíveis soluções para esse estranho entrave: ou passo a foice nas mãos débeis que teimam regar inconstâncias ou  finco escora nos  pés crescidos à sombra dos abandonos.



LADAINHA - Lena Ferreira - mar.15

segunda-feira, 30 de março de 2015

FAROL

 Farol num mar que balança bem mais do que descansa,
- posto que ondula
entre a fúria 
e o recuo,
o eco,
o sussurro
e o vácuo
do grito -
deita os olhos, duas nascentes de calma, em cada um dos respingos de sal

com os ouvidos atentos às fases, às frases, às crases e às oscilações
anota cada nota da canção soprada aflita pelo hálito frio de maresia

dispondo-as aos pés da razão, germina uma a uma em sensibilidade vasta

afasta os grãos de areia - que atritam o percurso e o condena -
asserena o verbo e a língua, deitando as notas na escrita

- berço de larga entrega onde nascem versos caros,
salinização sincera que o vento logo carrega -



FAROL - Lena Ferreira – mar.15

domingo, 29 de março de 2015

IN LOCO

 I-

Poros,
campo de plantar arrepios
em semeadura de táteis declarações
florescem jardins de lírios
aroma perfeito
acordando estações
de clamores inquietos

II -

Peito,
cama de deitar afetos
cobertos com puro linho de calma
desabrocham verbenas
aroma tranquilo
adormecendo aflições
de rumores incertos

III-

Olhos,
lagos largos de poesia
em mergulhos sem susto
desafogam verbetes
aroma diverso
acalentando canções
de amores despertos



IN LOCO - Lena Ferreira - mar.15

sábado, 28 de março de 2015

NOVAMENTE

Uma palavra era o que me pedias
e, tola, dei-te a frase completa
talvez por pretensão de ser poeta
talvez por pretender ser poesia

Em linha curva era o que querias
e, boba, entreguei-te numa reta
o tiro e o alvo  ao escolher a seta
que me acertava quando te atingia

Uma palavra só, mas dei-te o verso
que o intento atingiu seu reverso;
interpretaste mal os meus motivos

Agora, o que fazer com aquela frase?
- silêncio, novamente, em nova fase
segue-me o teu  olhar com duros crivos




NOVAMENTE - Lena Ferreira - mar.15

sexta-feira, 27 de março de 2015

AMANHÃS

Um sol preguiçoso levanta-se do berço de nuvens
e caminha manso pela placidez azul

num conformismo tácito gestando futuros
galhos seminus não reclamam sede, fome ou frio

um vento acanhado, alisa ventres e circula pelo interior
acordando a copa, a seiva, o caule e a raíz

a terra orvalhada responde ao que o vento insinua
e o fato afeta o feto que sorri sementes:

amanhãs, vestindo verdes vários, vagarosos
ensaiam sua estreia marcada pra breve

- nessa calma, bebem luz e dispensam aplausos -



AMANHÃS - Lena Ferreira - mar.15

quinta-feira, 26 de março de 2015

DOS QUERERES

Esses teus lábios de fala franca e macia
escondem segredos em cada um dos cantos
e esses teus olhos, dois poços de poesia
revelam verdades da tua alma de encanto
quisera teus passos ao menos por um dia
seguir lado a lado sem medo e sem espanto
levando nos braços um mar de calmaria
capacitando a estrada em fonte de acalanto
dispensaria ouvir os teus segredos, juro
ainda que quisesses transpor esse muro
o quê que ocultas é o que te revela
só quereria os teus lábios, os teus passos
e esses teus olhos, coberta de abraços
já os segredos, jazeriam numa cela


DOS QUERERES - Lena Ferreira - mar.15

quarta-feira, 25 de março de 2015

SEARA

Além da porteira, um caminho extenso,
debaixo de uma chuva que não para
meus olhos correm enquanto eu, só, penso:
- Por que meu coração ainda dispara
quando lembro da poética seara?

- um campo em flores de versos; imenso,
desabrochado em rimas ricas, raras -

Incauto jardineiro, me convenço
de que essa chuva que cai sem dar trégua
encharcando o caminho em mais de léguas
são lágrimas do meu peito em estio

Além da porteira, meu olhar se deita
e planta um verso que, calmo, se ajeita;
espero, em breve, ver  florir o plantio



SEARA - Lena Ferreira - mar.15

terça-feira, 24 de março de 2015

DA LONJURA

Há, nesse silêncio que escuto aflita,
um tanto da escrita lisa, lassa e suspensa
que desafia a gravidade dessas coisas todas:
penso que me encontro onde penso que me perco

Circulo o cerco, teimo e não me desvencilho
como um novilho que pastoreia nuvens e lobos
apresso a pressa, o agito, o grito quase irascível
previsível deságue em passadas tempestuosas

Ruidosas quedas que o silêncio prontamente
num tom eloquente espia e se assenhora
de todas as falas, gestos e em todas as línguas
segue e me penitencia em brandíssima censura

E da lonjura que sempre me impossibilita
responder com ternuras e afagos, afogo a voz
- mesmo sendo mar, um oceano me devora
no exato instante em que esse silêncio fala -



DA LONJURA  - Lena Ferreira - mar.15

ACENO

Nos gestos, olhares e falas
nos versos, nas rimas, nas asas
nos passos, nos risos, nos cantos
nos rios, no marco e nas pedras
nas vozes, suspiros, sussurros
nas liras, nos lauros delírios
nas flores, nos ventos, nas chuvas
nas folhas ao vento, nos galhos
surpresas, ausências presentes
suspensas presenças, saudades
- nos olhos que revistam a cena
acenam duas gotas de orvalho -


ACENO - Lena Ferreira - mar.15

segunda-feira, 23 de março de 2015

ENQUANTO HOUVER

Enquanto houver gerúndio
vou estar à sua espera
pássaro de pouso incerto
instante breve
suspirado
estalo
sussurro
piscar
leve bocejo
ou brado
respirando
aspirando
o alimento
dia-a-dia
enquanto houver gerúndio
vou estar gestando
poesia



ENQUANTO HOUVER - Lena Ferreira - mar.15

ANTES DO VOO

E depois de testemunhar fotos inertes
transformarem-se em rostos vívidos, ninhos de risos
depois de ver palavras impressas dispostas em gestos
toques, beijos, abraços, afagos precisos
depois de ter sido recepcionada por ladeiras prosas de carinhos
por vozes e ventos de mornas descobertas
cumplicidade poética estendida
deslizando mansa e perene
margeando o Capibaribe liso
bebendo olhares concisos
parto, cheia de viço, revigorada
deixando parte de mim em cada
levando parte de cada em mim 
A parte que fica acomoda-se no esquerdo canto
qual semente fecundada em alegria
a parte que parte, voa em breve
levando na mente
brotos fartos da poesia
dos quatro cantos


 ANTES DO VOO - Lena Ferreira - mar.15

sexta-feira, 20 de março de 2015

QUE VENHA O OUTONO

Que venha o outono com manhãs suaves
com tardes mais curtas e noites cobertas
de estrelas mais raras e redescobertas
mais falas macias, leves como as aves

Que venha e amanse esses ventos graves
que batem as portas e a calma aperta
que venha e encontre  janelas abertas
e as que se fecharam, então que destrave

Que venha o outono e que seja bem-vindo
aceno e agradeço ao verão que está indo
cobrir outras terras de acordo com o ciclo

Que venha o outono trazendo esperanças
- nas folhas caindo, vislumbro mudanças
e, só com o vislumbre, já me modifico -



QUE VENHA O OUTONO - Lena Ferreira - mar.15

quinta-feira, 19 de março de 2015

SUAVE É A NOITE

Suave é a noite enquanto descansa
em lânguidos ares no seu romantismo
vapores de sonhos, de outras andanças
fascinante entrega num inteiro intimismo

Que cresce e cresce enquanto avança
a noite suave livre de eufemismo
conduzindo a alma além do que alcança
seu corpo desperto no seu conformismo

Suave é a noite e enquanto desfila
no céu, negro manto, serena e tranquila
salpica estrelas bem sobre seu leito

Pra quando acordar, toda suavidade
deite nos seus olhos em serenidade
e encontre aconchego dentro do seu peito



SUAVE É A NOITE - Lena Ferreira - mar.15

AURORA

Sou das manhãs com os pés na madrugada
recebo o sol bem no seu nascedouro
que doura o horizonte e como um estouro
colore o azul do céu e pinta a estrada

Sou das manhãs de ouvir a passarada
com seu trinar, que pra alma, é tesouro
livre, ao longe,  em cântico canoro,
orquestra os passos da nova alvorada

Sou das manhãs, mas se acaso anoiteço
respiro fundo e rumo ao recomeço
- abraço-me à aurora se vacilo -

Sou das manhãs, mas se disto me esqueço
num verso ensolarado me aqueço
e alvoreço em sorriso tranquilo



AURORA  - Lena Ferreira  - mar.15

quarta-feira, 18 de março de 2015

PARTE A PARTE

Parte-se o partido
que num embate tosco
finca espora além dos ossos
por ofício, fere a calma
faca na ponta da língua
fenda funda em precipício
onde a estrela estranha míngua
verbaliza o seu descarte
corte curto, tiro reto
substrato do concreto
ojeriza parte a parte


PARTE A PARTE - Lena Ferreira - mar.15


terça-feira, 17 de março de 2015

A CEIA

Beber com os olhos
nuvens e constelações
sólidos perfumes
coloridos gestos
úteis, necessários
transcendendo tons
comer com os olhos
gostos, sensações
o raso, o meio, o fundo
o profundo, os  restos
fúteis, temporários
alternando os sons
impressos
precisos
preciosos dons
comungando o pão
com  suas taças hábeis
tácteis e voláteis
porosos, sensíveis
no lastro da veia
erguem-nos um brinde
- no corpo do livro,
dispõem-nos a ceia -




A CEIA - Lena Ferreira - mar.15

CALHA

De amparar chuvas e chuvas 
fiz ofício
calha disponível
onde líquidos escorrem:
fino, espesso, fino, volumoso, até o ralo
que, com folhas, não escoa;
ressoa em verso mole
desprovido de razão
nesse meu vício
tuas nuvens armam tendas
entendas:
habita-me o princípio
muito além da profissão




CALHA  - Lena Ferreira - mar.15

segunda-feira, 16 de março de 2015

INVERSOS

Dedos vagam pelo corpo do copo
indefesos e sem nenhum juízo
umedecem segredos com o suor
do conteúdo
frio
tragam perfumes entre as marcas de batom
tatuagem da noite
arrastada à madrugada
insone insanidade entre a fumaça e a tinta
da caneta
falha
inversos,
embriagados, vadiam pelo corpo corpo,
- que sua, impreciso e em prejuízo -
buscando um gole de presença
no fundo do copo
vazio
exaustos, espasmam no espelho
espocando urros
em versos



INVERSOS - Lena Ferreira - mar.15

domingo, 15 de março de 2015

RITUAL

Num ritual bonito, em despedida,
as folhas desprendendo-se dos galhos
formam um grande tapete amarelado
cobrindo a extensão da escadaria
e, sem nenhum indício de tristeza,
da queda até o chão, leves sorrindo
obedecendo ao ciclo da natureza
dão as mãos ao outono, qual menino
que despe as árvores e veste a vida
com o bom vento das certas escolhas
- novas sementes, em contrapartida,
resguardadas estão sob essas folhas -




RITUAL - Lena Ferreira - mar.15

sexta-feira, 13 de março de 2015

NA MESMA

Por me deixa cortar na primavera
andei por um verão longo e abafado
muito ocupada com certos cuidados
que, nem no inverno, eu jamais tivera

Porém, não me arrependo; sou da espera:
aguardo pelo outono inexplorado
trazendo um vento quase suspirado
que, nesse seu soprar, sempre pondera

- medindo as consequências das escolhas
conversa, paciente, com essas folhas
amortizando o peso em cada queda -

Por me deixar cortar, não me arrependo;
escolha e não-escolha, compreendo:
duas mesmas faces na mesma moeda




NA MESMA - Lena Ferreira - mar.15

IMPERFEITO

Se eu pudesse, beberia dos teus olhos
essas lágrimas que vão dependuradas
disfarçadas por pequenos ciscos
prestes a caírem no vazio
...da voz

- mas, não posso -

Se eu pudesse, enxugaria dos teus lábios
essas queixas que escorrem silentes
disfarçadas por rios de risos
prestes a desaguarem no estio
...da foz

- mas, não posso -

Se eu pudesse, apagaria da tua alma
as lembranças de marcas indeléveis
disfarçadas por quadros floridos
prestes a trincarem as paredes
...de nós

- mas, não posso -

E diante dessas impossibilidades,
resta-me o aguardo pelo tempo clemente
dissolvendo o mal feito e o mal dito
na fumaça do vento ou no incenso
...dos sós

- mais, não posso -



IMPERFEITO - Lena Ferreira - mar.15

quinta-feira, 12 de março de 2015

NUM ÁTIMO

Há muito estive aqui sentada
observando horas e heras
que cresciam desordenadas
sobre portas, pontes e muros
sobre frestas, fendas e musgos
debruçadas no entreposto da aspiração
e, com um olhar profuso, mole e esguio
oscilando entre o riso e o pranto,
acompanhava o percurso das formigas de correição
e questionava o porque das folhas virgens
carregadas força a força, passo a passo em desrazão
mas, apesar das circunstâncias, percebia o necessário:
em algum momento imprevisto
entre um sopro e um suspiro
entre um sonho e um delírio
há de eternizar-se o verbo
que justifique esse olhar
pseudo desinteressado
que planta pelo vento
sementes de séculos
entre o ócio e o ofício
- num átimo -



NUM ÁTIMO - Lena Ferreira - mar.15

quarta-feira, 11 de março de 2015

RASCUNHO

Eis-me aqui, coberta de esperas,
diante do leito branco onde dormitam os delírios
e, com um olhar extenso, solicita-me as respostas
aos convites que o universo me envia, então, me arrisco:
tremo, temo, tento, teimo, tremo, temo, teimo; quem dera...
- silencio -
no labirinto, o conteúdo do vazio:
além dos versos que aqueço em brasa fria,
um verbo escuso recoberto de razão
...que me causa arrepio
no canto, um rascunho sonolento, já boceja
talvez durma e, tranquilo, sonde as luas surreais
dando sinais de que quando enfim acorde
traga consigo o pó da estreia e o conforto
pras mãos pedintes que soluçam enquanto esperam
pros olhos rasos que vão transbordando em ais...




RASCUNHO - Lena Ferreira - mar.15

terça-feira, 10 de março de 2015

INÉRCIA

As horas passam e ele ali, só, vendo
o movimento lento dos ponteiros
só, questionando os seus  passos rasos
enquanto o tempo vai lhe absorvendo

De vez em quando, só, respira  fundo
e nesse trago, o seu sufoco aumenta
na realidade, só, sobrevivendo
nessa inércia onde a razão não venta

As horas passam e, não lhe absolvendo,
um pouco mais, a corda arrebenta...



INÉRCIA -Lena Ferreira - 

segunda-feira, 9 de março de 2015

POEIRA DE VERSO

Enquanto não acorda, me distraio
com as rimas insensatas
as catarses inexatas
e um dos pés na contradança

Dos crivos, faço um belo buquê de cravos
pra adornar a cama branca
onde a poeira de verso
por um bom tempo, descansa




POEIRA DE VERSO - Lena Ferreira -

domingo, 8 de março de 2015

ESPÓLIO

Não,
não tenho quase nada,
nada além da palavra:

a que grava na alma
a que devolve a calma
a que tira do sério
a que veste mistério
a que brinca de roda
a que saiu de moda
a que, escrita, calada
diz bem mais que a falada

Não,
não sei bem de onde venho
nem sei bem pra onde vou
eu só sei quem eu sou
com esse pouco que tenho

Mas,
se me tiram a palavra
serei menos que nada



ESPÓLIO - Lena Ferreira - mar.15


sábado, 7 de março de 2015

A PRECE DE SOPHIA

Quando a casa de Sophia
silencia ao fim do dia
um barulho estridente
rompe todo ambiente
-interno-

Uma dose de agonia
complementa a sinfonia
entre o ranger das correntes
e o assovio entre os dentes:
-Inferno!

São gavetas que se abrem
dizendo o que ninguém sabe
são móveis que se arrastam
são certezas que se afastam
-açoite-

Como lâmina de sabre
numa alma que não cabe
no seu corpo, onde não lastra
sanidade e nem pilastra
-à noite-

Quando a casa silencia
eis a prece de Sophia:
- Por favor, acordem o dia




A PRECE DE SOPHIA - Lena Ferreira - mar.15

sexta-feira, 6 de março de 2015

BATISMO

No abismo, como quem se embeleza,
batizava em estranhas rezas
as feridas palmo a palmo
nada calmos, os pés empoçados em sangue
como procissão exangue
tropeçavam nos escombros
nos tombos, com os joelhos vermelhos,
procurava por espelhos
que lhe enviassem avisos
precisos de que mudar é preciso
- se preciso, em improvisos;
passo, pressa, piso, freio -
no meio, mergulhado em frescas águas
afogou possíveis mágoas
vãos segredos e receios
emerge murmurando um novo salmo
agora com os pés mais calmos
agora com otimismo
prossegue caminhando entre as pedras
e, levantando a cada queda,
sacramenta o seu batismo



BATISMO - Lena Ferreira - mar.15


QUATRO ESTAÇÕES

Na maciez de uma praia em fim de tarde
com seus pés firmes nas mais firmes intenções
dois corações pulsando sem grandes alardes
- porque perenes são, do amor, as sensações -

Trocando a quinta de Beethoven por Vivaldi
andavam calmos pelas Quatro Estações
descartando todo pensar que fosse fraude
- que os levassem a afundar nas ilusões -

E a lua que não se demora vem surgindo
enquanto os dois, caminho certo, vão seguindo
levando na alma o sopro bom da maresia

E as estrelas rutilando pequeninas
mais se parecem uma ciranda de meninas
comemorando tanto amor na poesia



QUATRO ESTAÇÕES - Lena Ferreira - fev.15




quinta-feira, 5 de março de 2015

VESUVIUS

Numa dessas noites quentes lavadas por vulcões
sobre lençóis claros, corpos moles, almas suspensas
duas mentes delirantes estão muito mais  propensas
aos desvarios vários em débeis alucinações

A lua espiona um tanto quanto preocupada
as vestes retiradas em aflitivas convulsões
e, soprando o seu hálito em fio frio, apiedada,
aguarda que se deitem as possíveis inversões

Mas, inversões que nada; num efeito adverso
potencializados, os delírios chamam a chama
e a lua arrependida assiste ao desfecho inverso:
duas almas liquefeitas viram cinzas sobre a cama



VESUVIUS - Lena Ferreira - fev.15


A QUE CHAMAM LOUCURA

Isso a que chamam loucura
talvez seja mais do que possam supor
é como o respirar, o abrir dos olhos a cada manhã
e bendizer a graça de cada momento
brindado pelo alimento diário, diáfano, inglório
impalpável, improvável, incrível mas, necessário

Isso a que chamam loucura
é como nuvens que correm os céus
tangidas pelo boiadeiro vento
que, de tempo em tempo, brande o seu chicote
modificando o sentido, o rumo e a direção

Isso a que chamam loucura
talvez seja mais do que possam enxergar
é como sentir sede em frente ao mar
e sedento, bebê-lo, bebê-lo e bebê-lo até a transmutação
e assim, cortar oceanos, beijar continentes
sentindo o carinho do vento na pele
sob um sol generoso espumando as ondas
do pensar só por pensar

Isso a que chamam loucura
talvez, para a loucura, seja a salvação




A QUE CHAMAM LOUCURA - Lena Ferreira - fev.15

COCHILO

Vento vinha de varrer estradas várias
suspendendo o pó dos olhos da paisagem
modelando nuvens francas, solitárias
farfalhando, às folhas da longa estiagem,
as palavras mudas mas, tão necessárias
- esquecidas por um tempo na paragem -
com lufadas leves e involuntárias,
ventou lindo o tom dessa nova linguagem
vento vinha de verter verdes amenos
vicejando seu sentir a pulmões plenos
assistiu as nuvens grávidas parindo
encantado com os filhos desse parto
debruçou o tempo no tempo feito quarto;
cochilou vento e acordou brisa, sorr(indo)...



COCHILO - Lena Ferreira - fev.15