quinta-feira, 30 de abril de 2015

AINDA QUE

Ainda que os caminhos sejam outros
e os ventos soprem em direções contrárias
e os verbos sejam conjugados em tempos distintos
e os versos do instante estejam em espaços distantes
a velha estima é um presente que embalo no esquerdo canto
e aqui, nesse outro itinerário, de tempo em tempo, desembrulho
e, quieta, acaricio - as rotas missivas, as folhas, essências, as letras revistas -
ainda que...remediando uma saudade tão doente mas que não tem alta prevista




AINDA QUE  - Lena Ferreira - abr. 15 

NO VALE

No meu lado, as folhas caem suaves
das árvores que tremem com o vento
de um outono levíssimo e satisfeito
com algumas chuvas desavisadas

No vale, as flores despencam graves
levando as casas, os homens e os templos
de uma primavera onde os escombros
brotam nos ombros; pesar sem perfume

Precipita-se a chuva nos olhos miúdos
de fome gritante e pedintes de auxílio
- onde a Terra treme, há sustos e medo
que o resto do mundo permaneça surdo -



NO VALE  - Lena Ferreira - abr.15

quarta-feira, 29 de abril de 2015

SILÊNCIOS SACROS

Há uma nudez casta que se declara
nas entrelinhas de uma fala incoerente
que, vestida de verbos simples e profanos,
sacrifica os silêncios sacros das salas

rasgando o véu das aparências frágeis
dialoga olhares com os olhares futuros
o escuro é só sobra de um passo passado
o presente é o templo dos ventos prováveis

na maciez da cena, deitam-se sedas raras
onde pérolas brincam de beijar instantes
sussurrando as frases bem intencionadas
que iam guardadas nos dois peito-amantes




SILÊNCIOS SACROS - Lena Ferreira - abr.15

PROVA

Bem que tentei me ajustar ao mundo
ser um bezerro a mais  nessa boiada
tangida por quem diz saber de tudo
- quem diz saber de tudo, sabe nada -

Bem que tentei acompanhar os passos
dos pés que alicerçaram o paraíso
mas me esqueci de anotar nos traços:
provar do inferno também é preciso

Bem que tentei provar, a todo custo,
o meu motivo, mesmo tolo, justo
quanto a vazão quando a mente engravida

Tentei provar por tanto tempo, tanto...
agora, tento exercer o entanto:
se é pra provar, eu vou provar é a vida




PROVA - Lena Ferreira - abr.15

terça-feira, 28 de abril de 2015

RECONSTRUÇÃO




Entra,
só não repare na bagunça
andei mudando incertas coisas do lugar
aliviando grandemente a confusão


Senta,
só não dispare vãs perguntas
andei ouvindo uns silêncios de perto
azulejando zelosamente a audição


Sinta,
só não compare as respostas
andei pensando antes do pesar do vento
auxiliando enormemente  na arrumação


Veja,
a casa ainda é torta e a janela, às vezes, aperta
mas sua porta, sempre, sempre esteve aberta
colaborando imensamente com a reconstrução




RECONSTRUÇÃO - Lena Ferreira - abr.15

sábado, 25 de abril de 2015

MODINHA

Anoiteceu entre as desculpas e as promessas
que as nuvens peregrinas lhe trouxeram novamente

sem sono, sem certezas e de razão já descoberta
aconchegou-as junto às juras no seu colo calmamente

logo lhes lançaram um olhar esguio e mole, mole e clemente
suspirando em ais:
 - me arrependi -

então, bordou um manto de linha em cores íntimas e úmidas
e, enquanto as agasalhava, solfejava uma modinha antiga

do solfejo, o que dizia, o meu peito abriga:

"uma vez mais
amor teci"




MODINHA - Lena Ferreira - abr.15

sexta-feira, 24 de abril de 2015

NESSAS NOITES

Nessas noites de tortura em páreo exílio
até o vento vem vestido de galopes
a distância e o silêncio são dois golpes
na saudade que no peito já fez trilho

Fora o vento, parece nada se move
além destes olhos cheios de estrelas
resguardando o orvalho pra não entristecê-las
mas, parece que o céu todo se comove

Comovido, faz do vento doce brisa
que, tão doce, chega e logo me avisa
das notícias, dos rumores mais precisos

E, rompendo a tortura do exílio páreo,
essa brisa trouxe o gosto necessário
às lembranças que acordaram meus sorrisos



NESSAS NOITES - Lena Ferreira - abr.15


quarta-feira, 22 de abril de 2015

CANÇÕES SOZINHAS

E as águas meditam certas
enquanto contornam pedras
no curso de um extenso rio

seguindo, da calma, a seta
saúdam margens extremas
bendizem os desconhecidos

nostálgicas de suas fontes
murmuram canções sozinhas
tentando auscultar o tempo

enquanto o vento escorre
ventando  tormentas castas,
as águas seguem seu plano:

gestantes, fecundas em afeto
vertido em contrações vastas
parem ternuras pelo oceano


CANÇÕES SOZINHAS - Lena Ferreira - abr.15

sábado, 18 de abril de 2015

PELA PORTA DOS FUNDOS

Era cedo e, no espreguiçar rotineiro antes de sair da cama, percebi entrar pela porta dos fundos um silêncio terno que se sentou ao meu lado. Não havia vento nem brisa, apesar da janela aberta. As cortinas iam imóveis e os móveis, parados. Não ouvia o farfalhar dos pássaros como costumeira recepção matinal, apesar de vê-los empoleirados nos galhos. Não havia um sinal de ruído em volta. Nenhum passo nos cômodos, nenhum riso de estio. Tudo era como um delicado vazio.
Nada se movia a não ser o pensamento que girava diante dessa situação intrigante. Somente eu, o silêncio e um barulho incômodo vindo de dentro que, há tempos, ensaiava uma conversa.
Sem saída, rendi-me aos seus apelos e, assistida pelo silêncio, pus-me a ouvi-lo.
Falou-me das insatisfações e dos gritos abafados que suportou calado por conveniência. Falou-me das desistências, de suas vontades e de tantas verdades que me negava a ouvir. Falou-me das somas, dos sumos sumiços e dos compromissos que sempre adiava. Falou-me das cismas, das oscilações e dos sermões escritos sem pô-los em prática. Da tática, da mística, dos mitos, dos ritos, dos ditos cheios de agonia.  Falou também da necessária competência em lidar com talvezes, senões e poréns sem fazê-los reféns.
E quanto mais falava mais me encolhia, pois no fundo sabia que tinha razão.
Falaria mais ainda nessa manhã estranha e atípica, não fosse um lenço de renda que, espichando-se para ouvir o nosso diálogo, escorregou do armário e espatifou-se no chão.
- Ainda prosseguiremos nessa conversa. - disse-me o barulho. Imediatamente concordei. 
O silêncio, afagando-me por dentro, plantou algumas de suas sementes no meu centro. E, com um aceno de até breve, saiu por onde havia entrado levando nos braços o meu mais profundo agradecimento.
A essa altura, os pássaros mais espertos faziam algazarra no topo das árvores enquanto um vento brincando com as cortinas, provocava gargalhadas nos móveis. A casa sorria novamente, cheia de ruídos.
Aos poucos, tudo voltava a ser como sempre foi.
Menos eu.



PELA PORTA DOS FUNDOS - Lena Ferreira - abr.15

quinta-feira, 16 de abril de 2015

ITINERÁRIO

Lá vai mais um pensamento
aos lugares de abandono
como folhas de outono
carregadas pelo vento

Lá vai com seus passos lentos
e razão que não tem dono
vai numa noite sem sono
vai cumprir o seu intento

E no breve itinerário
colhe os fatos mais vários
guardando-os em um surrão

No retorno à sua casa
esses fatos, já com asas,
pousam na inspiração  -



ITINERÁRIO - Lena Ferreira - abr.15 

VULNERÁVEIS

Nessas manhãs de frio discreto
galhos seminus se ajeitam
tentando o hábito com o vento

Bebericando a essência da noite
- que se deitou madrugada na relva -
raízes engordam a seiva

Aves arrulham pousadas nas copas
e, enquanto planejam viagens,
o ensaio do voo abate  as folhas poucas

No ventre dessas folhas em queda
cochilam certos versos líricos

 - que não acordam com gritos,
mas são vulneráveis aos sussurros -




VULNERÁVEIS - Lena Ferreira - abr.15

quarta-feira, 15 de abril de 2015

RECOMEÇOS

Enquanto a noite avança inteira em calma
meus passos levam-me à beira de um lago
onde respiro do instante um trago
e estaciono as dores de minha alma

Um vento morno, cheio de ternura
vem e abraça o meu pensamento
tão delicado, desfaz meu tormento
e enche meu peito de paz e brandura

Nesse momento, paciente desfaço
os nós da trama que, em embaraço,
traziam-me recorrentes tropeços

Refeitos fios, alivio no peito
um pensamento leve, à mente, ajeito:
a vida é teia eterna em recomeços


RECOMEÇOS - Lena Ferreira - abr.15


RELATOS - III

No alto, onde o silêncio não come, panelas vazias vão cheias de fome. Nos pratos, transbordam as contas de ontens alimentadas por homens bêbados de estrelas. Farinha e fumaça dão liga à fermentação.
Aqui embaixo, não vejo nenhum indício do início das construções. Promessas que sempre surgem em tempos de campanha. “Em breve, creche-escola.” Mas, o agora urge...
E, enquanto meninos dormindo ainda visitam a santa inocência, precoces vestidos de homens acendem morteiros um tanto aturdidos.
Cortam o silêncio que no alto não se aplica alvoroçando o silêncio intocável do outro alto.  Traçantes em febre respondem. Maculam a sua trajetória. Paredes choram as suas feridas. Sangram estilhaços de vidro.
Quando amanhece, jornais correm o asfalto contando por alto o quê do acontecido.

“Balas foram encontradas no peito de um futuro perdido.” diz o legista.


Da madrugada que ninguém sonha, esta é só mais uma notícia que entra na conta da estatística...

 RELATOS - III- Lena Ferreira - abr.15


terça-feira, 14 de abril de 2015

SOBRE O QUE VALE

Na noite que inicia mansa e em calma logo cresce, um vento generoso alisa as dobras do passado.  Passando o amarrotado, guarda todo o passo a passo. Da alma, faz armário onde o bom tempo o adormece. Assim, num sono leve; acorda-o quando necessita pinçar ensinamentos nos vieses das lembranças: dos tropeços aos sorrisos, das partidas às cheganças. Fio a fio, ponto a ponto, num bordar-se que não cansa...
Na noite que inicia mansa e em calma se faz plena, um vento generoso transbordante em otimismo refaz caminhos, pontes, laços, desconstrói abismos e firma os passos sobre o que, de fato, vale a pena.




SOBRE O QUE VALE - Lena Ferreira - abr.15

REESTREIA

Pálida é a manhã enquanto brota
entre as folhas por um fio em desmaio
e umas frases de estio, encobertas
pelo orvalho preguiçoso, madrugado

- derramado em essência almiscarada,
anuncia as despedidas já previstas
entre manhas e manias tão incertas
entressafra - flores, dores, riso, frio -

e, enquanto os seus galhos se esticam,
semiventos que se ocupam com as nuvens
aquarelam as bordas da tela azulada
em matizes de um alaranjado morno

- não de repente, o sol reestreia no céu
acaricia as folhas e doura a pele da manhã -



REESTREIA - Lena Ferreira - abr.15

segunda-feira, 13 de abril de 2015

LÍNEO

Quisera tanto entender esse silêncio inconcluso
e na tentativa vã de compreender teus desmotivos
desentenderam-se letras e linhas e gestos impensados
desassistidos a largo, te afastaram ainda mais; pudera... -

de essência precipitada, lancei-me em ditos absurdos e aflitos
exercendo um não sei o quê de dedos e pés pelas mãos
no mesmo solo onde desculpas infundadas germinavam
cortando as raízes das possibilidades, ralas e franzinas

- por que não e tão somente ter os passos no presente
sendo um ser tão consistente quanto és, e líneo
andando macio e puro e reto, saudando pedras e aves? -

mas, não sou nada disso por enquanto - no exercício teimoso,
aguardo um vento novo ou brisa leve ou ventania ou temporal
que me trague, consertando os passos rasos do passado

enquanto não, levo-te no colo de um pensar que me consola:
olhos fechados, embalo ainda o teu perfume amendoado
sob esta pele agridoce de esperas corrugadas



LÍNEO - Lena Ferreira - abr.15

domingo, 12 de abril de 2015

INSURGENTES

Enquanto um exército de certezas prontas
exibindo suas medalhas e conquistas
desfila num pátio extenso e movediço
recrutando soldados que, deslumbrados,
se rendem à alta patente em excelência
do outro lado, no asfalto, certas dúvidas resolutas
não se alistam, não compram suas certezas absolutas
nem se rendem às suas promessas, às suas  juras
caminham em passos ditos de loucuras
sem prestarem continência
e não só por insurgência;
nasceram para procuras




INSURGENTES  -Lena Ferreira - abr.15

sábado, 11 de abril de 2015

REMISSÃO

Deixou de maldizer o mar e a lua
- culpá-los pela alteração das rotas -
e as frases várias de instabilidade
seguiram rituais compromissados
com versos descendentes do instante


Absolvendo o vento e os seus mitos
fantasmas, monstros e assombrações
seguiram em fractais embarcações
no curso de um verbo ressonante
onde o deságue é retorno ao aprisco


- bendito todo aquele que se aceita
apesar dos pesares e dos riscos -


REMISSÃO - Lena Ferreira - abr.15


VERSUS PATHOS

Se o intento é me entender, esqueça os versos:
são, muitas vezes, verdades que invento
quando ouço estórias de nuvens, de ventos,
de espelhos d’agua, de fatos diversos

Se o intento é me entender, vem que converso;
olhos nos olhos, mãos no pensamento
mas, não sendo possível, só lamento
a impressão passada em controverso

(teimosa em escrever versos doentes
que ora choram, ora vão contentes
deixo sinais de insano transtorno)

Mas, se quer me entender, volte às quadras:
primeira e segunda bem se enquadram
à realidade onde não cabe adorno




VERSUS PATHOS - Lena Ferreira - abr.15

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ORBITAL

Dos astros que a noite fez junção
os rastros espocavam nos lençóis
estrelas estreavam nas paredes
e a sede insaciável era de sóis
e a fome incontrolável era de mais

enquanto a lua cheia se omitia
temendo o testemunho ocular
do crime insuspeito, sem delito
faíscas em murmúrios e fluídos
fremiam gestos como oblação

- no entanto, a madrugada prosseguia -

cortinas engravidavam nas janelas
de um vento amolecido que ressonava
num uivo solitário além da rua
à lua, como um lobo imponderável

dos astros, a noite gestou cometas
gametas da combustão por atrito
riscando o teto em feixes cadentes
que orbitavam pelo quarto em chamas

e, abrasados pela consumação,
aguardavam pelas mãos do dia
que viessem recolher as cinzas
- dessa explosão -


ORBITAL - Lena Ferreira - abr.15


JARDIM SUSPEITO

Gosto de pensar que me espias
embora saiba-te assim, indiferente
aos gestos infantes, pueris, matinais
aos versos tolos, todos sem sentido
aos  avessos avulsos expostos na lua
aos nãos que oscilam entre o sim e o talvez
aos vãos tão vazios que te descompletam
às cismas, pretendendo-me o ser poeta
num equilíbrio inútil às vagas que tremulam
sustentando o vento em todas as estações
parafraseando, com essência de lírios,
as gotas de orvalho na ponta dos cílios

E assim,  imagino o teu riso aberto
destilando liras, loas, madrigais
à esse sorriso débil de entranha
de muitos quereres, todos  abissais
e, embora saiba-me só mais uma estranha
à esse teu querer, muito, muito incapaz
confesso, não importo nenhum dos pesares
não meço o desvio, sigo com os pensares
circulo e circulo em alucinações
pelas vias de um jardim suspeito
onde, só, cultivo flores e ilusões 



JARDIM SUSPEITO - Lena Ferreira - abr.15

quinta-feira, 9 de abril de 2015

VOA

Vai, voa que eu nunca lhe quis preso
a porta da gaiola está aberta
sacuda de suas asas esse peso
dissipa a dor que a garganta aperta

É triste ouvir seu canto indefeso
que, mesmo triste, todo dia oferta
e não me olhe com esse ar surpreso
entenda que é a decisão mais certa

Prender quem nasceu para liberdade
é mais que egoísmo ou vaidade
é sufocar as asas do encanto

Vai, voa que aqui fico e Deus me prive
da tentação: castrar seu voo livre
vai, voa que ouvirei daqui seu canto


VOA - Lena Ferreira - abr.15

INCONFESSO

Não é a ti que espero; espero as horas
que se arrastam, parecem não passam
até parece que, só por pirraça,
quanto mais peço passem, mais demoram

Lá fora, a noite corre... Corre e chora
num choro copioso que embaça
completamente todas as vidraças
e essa visão, é certo, me apavora

Mais o relógio que, posto a parede,
põe a espera incerta numa rede
mortificando o pensamento em ais

Minto; te espero, seja tarde ou cedo
só não confesso por ser grande o medo
de que não chegues nunca, nunca mais



INCONFESSO - Lena Ferreira - abr.15
  

quarta-feira, 8 de abril de 2015

VENTO MOÇO

Vento moço, filho de uma brisa constante, começou sua jornada há pouco tempo. Mas, já varre tristezas e lamentos como um adulto robusto, ventania. Levantando o pó de incertas verdades, recolheu as folhas bucólicas do outono e, prevendo o estio do próximo inverno, forrou o caminho, resguardando sementes. Tangeu nuvens cinza no céu, seu rebanho. Plantou riso farto ao chorar no plantio. Tirou pra dançar meias, lenços e lençóis estendidos nos varais no fundo dos quintais. Seguindo a jornada, espantou amarguras, sacodiu poeiras, cansaços, manias, secou a umidade que mofa as gavetas, mudou o sentido de umas setas tortas e, abrindo janelas, fechou certas portas.
Bem...Depois de ventar e ventar, mais sereno, limpou suas mãos e num afago às letras, soprou de levinho uns versos de ternura. E como uma despedida sem aceno, virando-se, caminhou calmo e tranquilo, deu um suspiro de missão cumprida e voltou para o colo da mãe pra descansar por brevíssimo instante.




VENTO MOÇO - Lena Ferreira - abr.15

NOITES VIRÃO

Observando as nuvens gordas em lilases
desviei do tom  grave imposto pelas crases
que, alargadas, circulavam  pelo céu

Rodopiando num balé envolto em gases
declamei com o coração diletas frases
que o vento morno carregou levando ao léu

- noites virão que chegarão ao seu destino
os versos que brincam no vento qual meninos -





NOITES VIRÃO - Lena Ferreira - mar.15

terça-feira, 7 de abril de 2015

LEITURAS

Corpo
...livro de estreia que conhece linha a linha
onde aninha um verso novo em cada estrofe
em cada página, em cada capítulo e sumário
onde nascem poemas vários, sussurrantes

...quando mergulha nos vãos ainda encobertos
descobrindo os desvãos que vão sob os poros
brotam leituras que estendem madrugadas

...sorrindo às rimas, passeiam livres, língua e olfato
enquanto murmúrios percorrem moles pelos apelos
e, quando perto o verso se aproxima do abstrato,
envolve-o em vaporosas e azuladas frases

...é quando esquece os seus dedos de leitura
e decl[ama] o livro, inteiro em poema concreto -




LEITURAS - Lena Ferreira - abr.15

segunda-feira, 6 de abril de 2015

CANÇÕES DE EMBALAR SILÊNCIOS

Pássaros arrulham madrugadas
com suas asas suaves, afagam a orla da lua que se veste em despedidas
sussurrando promessas castas para mais uma alvorada
que, com um leve suspiro de brisa, pronuncia juras em cores

folhas discretas, cobertas de orvalho, observam a vaga do intento
e, sustentando o peso em cada galho,
sorriem de canto a canto aguardando o desfecho

gérberas e tulipas bocejam em seu terceiro sono
gramíneas despertas sacodem o manto de sereno

enquanto um aroma frutado e fresco dança
fei
to dan
ça
do ven
tre
no entorno de olfatos dormentes
alguns olhos sem ponteiros ainda percorrem o seu centro

o céu já quase aberto inaugura um tom noviço

é rala a plateia

pássaros pautam a linha do horizonte em notas que se nota logo o viço:
dão luz às líricas canções de embalar silêncios frágeis, serenando seus indícios





CANÇÕES DE EMBALAR SILÊNCIOS - Lena Ferreira - abr.15

quinta-feira, 2 de abril de 2015

- pausa -

porque 
os pés também têm sede...

...de descanso. 

- LF -

PREZO

Prezo a palavra:
a feia, a pobre, a bonita
a áspera, a úmida, a delicada
a comportada, a esquisita
a que tudo diz, mesmo calada
a que falada, não diz nada
a que derruba
a que levanta
a que planta
a que aduba
a que encanta
a que abala
a que embala
a que cala
a que cresce
a que enternece
a que estremece
a que me é restrita
a que não fala, grita
a que intimida, silencia
a que intimismo propicia
a que lamenta
a que fermenta
a que estranha
a que entranha
a que barganha
a que enruga
a que encharca
a que enxuga
a que estica
a que edifica
a que chora
a que cora
a que ora
a que, ontem, amanhã ou agora
se articula
e circula
sem bula
nem via
e se vira
e delira
e corteja
e se atira
e me beija
e me beija
enquanto  rezo
 para que, dia após dia,
ao menos uma delas  seja
o que não desprezo
- poesia -



PREZO - Lena Ferreira - abr.15



TALVEZ

Andei pesando perda, ganho e dano
pensando onde e como me valeria
teimar e insistir com um insano plano
que a nenhum lugar me levaria

Andei pesando o dia, o mês e o ano
pensando onde e como mudaria
o rumo a desviar dos desenganos
mas, será que assim conseguiria?

Talvez devesse só deixar a vida
andar com pernas de voltas e idas
e não tentar com ela fazer média

Talvez deixar que siga o próprio curso
- que tem de tudo em seu breve percurso -
sem ter a pretensão de lhe por rédeas


TALVEZ  - Lena Ferreira -  jan.15


quarta-feira, 1 de abril de 2015

TATUAGEM

Das tardes silenciosas de outono, passadas entre o ócio dos ossos e a carne em agito, o grito oculto é somente um apêndice insuspeito. Dono de si, sujeito raro e dileto, há tempos não me visita posto que, clamando por liberdade, corre solto pelas salas. E fala. Dos aromas imprevistos para o inverno, das manias flutuantes em anis, dos amores inventados em cristais e dos copos encorpados de geleia onde, vez por outra, esbarra e espalha os cacos pelo chão. Onde me corto ainda e ainda me hemorragia. Não deveria, já que me são tão familiares. Olhares ralos em desvio, vagas de interpretação numa leitura não tão clara. Logo sara, diz. Mas, a cicatriz que poderia servir-me de lição, não passa de temporária tatuagem. Bobagem!? Tudo bem. Um dia, aprendo. Um dia, quem sabe, sem descuido, dê abrigo permanente a um silêncio assim, estéril, discreto e irrestrito. E pouparei  as tardes de todas as estações das tarefas arrastadas em pacífico conflito entre o que fora pressuposto e o que jamais fora dito.




TATUAGEM - Lena Ferreira - mar.15