domingo, 31 de maio de 2015

DESEMBARQUE

Das viagens feitas com um só destino, despachei certas bagagens sem descuido.
O conteúdo fora conferido atentamente ordem a ordem. Não há nada nos Achados & Perdidos. Tudo o que está contido possui autonomia de voo.
Trago o mesmo sorriso guardado no bolso dos lábios. Ainda se abre facilmente ao mínimo aceno das delicadezas mornas e improvisadas.
O vento é outro. É outra a brisa. O mar, suspenso. Não há estrelas, é dia.
Lembranças chegam como um bálsamo aerado entre sussurros. Rasgam o bolso em risos de  canto a canto. E debulham as pétalas da alma arredia. E alisam a calma em conquista suave.
Acaricio a lista das permanências e, respirando mais leve, flutuo.
Pouso sob um céu reconhecido que me abraça e me faz blues.  Sopros sibilantes trazem para perto, vozes e vozes equidistantes.
Desembarco. Entre os diálogos tranquilos e sem pressa. Saudade é bicho que se mata devagar.



DESEMBARQUE - Lena Ferreira - mai.15

sábado, 30 de maio de 2015

PASTOREANDO AUSÊNCIAS

Ah, vertentes de constâncias e alívios,
águas deslizantes em perenes sossegos
que margeiam certas sedes insolventes...

- com aquelas que, pastoreando ausências,
alisam os seus umbigos proeminentes
dolentes num descampado modesto -

...tendes complacência

- grávidas de gestos, miram distâncias  
e aguardam pelo parto dos convívios -



PASTOREANDO AUSÊNCIAS - Lena Ferreira - mai.15



sexta-feira, 29 de maio de 2015

PARA AQUIESCER SILÊNCIOS

Há sussurros madrugados de inverno
passeando sobre a derme macia
dos silêncios que dormitam bem tranquilos
no vão das vãs palavras que disperso

Aconchegue o ouvido de sua alma
e acompanhe cada um dos passos deles
que arrepiam pelos, peles e sentidos
desgovernando rumores e direções

Uma gota dessa calma generosa
que alaga os seus olhos de infância
tranquilizaria alguns desses apelos
nus em cada um dos doidivanos versos

Então, traga urgentemente a sua demora
na colheita destes lábios que, enquanto esperam,
murmurarão cântaros de cânticos ternos
para aquiescer silêncios às sensações




PARA AQUIESCER SILÊNCIOS - Lena Ferreira - mai.15

terça-feira, 26 de maio de 2015

RENDA

Vem de novo o teu nome rendar meu sono
como quem pensa vestir todas as noivas de maio
rico em detalhes, fia os fios delicados de prata
no entremeio estreito entre o peito e a razão
a agulha que conduz cada linha é suave
e a mão que me diz o teu nome é esguia
e o amor, que será desse amor que sonho
se não mais do que renda que se desfia



RENDA - Lena Ferreira - mai.15

segunda-feira, 25 de maio de 2015

UTOPIA

Era um andar com sede farta de horizonte 
e cada passo sussurrava: adiante, adiante
como a lembrar pros pés de estradas várias
que desistir é ressaca de embriaguez tardia
ia assim na caminhada, ora cheia, ora vazia
ia alternando a marcha: ora rasa, ora funda
ora lenta, quase escassa em caça e pressa
em tempos de cansaço expresso no olhar vago
duvidando do limite imposto ao  imaginário
vincava a linha tênue entre sonho e realidade
para acordar mais tarde, já refeita de ideias
de sopro, de vozes e de vigorosas vontades
solfejando às saias do vento: adiante, adiante
oh, sede oásis, deserto, sede a sede, utopia
sede água para os pés além dos desérticos dias



UTOPIA - Lena Ferreira - mai.15

domingo, 24 de maio de 2015

ASA

Água contida
recebe o vento
em ronda e fenda
vidra o espelho
turva miragem
reflexo outro
que não o certo
por ele dito
e feito
vaza

Água vertida
percebe o tempo
em roda e renda
dobra o joelho
curva passagem
molde volátil 
conceito aberto
no verso escrito
efeito
asa



ASA - Lena Ferreira - mai.15

sábado, 23 de maio de 2015

DIA APÓS DIA

É nessas horas em que o sol sai do seu berço
e se prepara pra mais uma reestreia
sem se importar com convidados ou plateia
que, refletindo no seu gesto, amanheço

Saio da cama, me espreguiço e bebo um terço
do sopro bom com notas frescas de azaleia
o outro terço, é do café que acorda a ideia
um banho fecha o ritual e agradeço

Sigo à rotina - livros, provas, exercícios -
onde o final ainda parece com o início
onde o cansaço vem tentando uma vaga

E nessas horas, miro o sol no seu ofício:
por mais estranho que pareça, e mais difícil,
dia após dia, reestreia e não se apaga



DIA APÓS DIA - Lena Ferreira - mai.15

sexta-feira, 22 de maio de 2015

RELEVE

E diante daquilo que lhe cerceia
não vale a pena a plena ocupação
se sim, há de prender-se numa teia
viscosa onde não mora a redenção

Releve o dito, o feito e prateia
as mãos, os pés e o peito em oblação
absolvendo assim o que permeia
nesse espelho de compleição

Instantes haverão de breve estio
bem capaz que por isso sinta frio
enquanto outros se cobrem de razão

Mas, diante daquilo que lhe quer rente
demonstre, com semblante sorridente,
o que revela a alma ao coração


RELEVE - Lena Ferreira - mai.15


quinta-feira, 21 de maio de 2015

REVOADA DE VESTÍGIOS

Daqui da varanda, vejo uns gestos certos
pastoreando palavras com esmero
um rebanho de pelos claros e macios
que caminha tranquilo por um campo extenso
levemente umedecido por estrelas e orvalho 

basta-lhes  um discretíssimo aceno
e a nuvem da expectativa se arrobusta
se outro, justa,  se desfaz  em chuva
e a voz entorna limpa em cantares sacros
e os passos, firmes em louvores profanos

aos pés dessa varanda em que me ponho
há um jardim de florescência contínua
onde ramos de lírios dançam com o vento
impregnando o olfato, os poros e a visão

aspiro, expiro, inspiro-me:  aroma, perfume, essência
e toda a nota sentida sem fazer nenhum sentido
é uma canção a mais, é revoada de vestígios
que cantarolo,  quase serena, considerando os gestos
enquanto o vento prossegue soprando a desrazão


REVOADA DE VESTÍGIOS - Lena Ferreira - mai.15



quarta-feira, 20 de maio de 2015

NAS MANHÃS VERDES AINDA

Nas manhãs verdes ainda
os seios das sementes trazidas pelas aves
amamentam  a sutilíssima promessa
em juras de colher diálogos claros

de vento isentas, assistem ao ensaio  
de uma brisa que adolesce, risonha  e macia
enquanto sussurra umidades para o campo
ervado estranhamente em brevidades e hiatos

tudo é espera suave
adubo, rega, zelo e capina

Nas manhãs verdes ainda
o sol, preocupado, se ocupa a mais nessa campina:
amadurece a brisa e amortecendo os silêncios graves
a promessa da colheita logo está pronta a ser cumprida



NAS MANHÃS VERDES AINDA - Lena Ferreira - mai.15

segunda-feira, 18 de maio de 2015

SEMÍNIMA

Úmidas, 
as palavras que proferes
dançam com a língua o bolero de Ravel
provocando rubores castos e imprevistos
nos lábios, na face, nos olhos, nos cantos, 
alteram expressões
desconcertando a timidez estreita e concisa
da vaga precisa entre a pausa fugidia e o dó maior
como a adivinharem o mais ínfimo e íntimo desejo
as palavras que proferes,
úmidas,
úmidas,
mais parecem beijos



SEMÍNIMA - Lena Ferreira - mai.15

domingo, 17 de maio de 2015

CORAGEM LEONINA

Venho de amparar líquidas mágoas
que cutucavam a visão de hora em hora
e, espiãs das lágrimas nascidas cedo,
sorriam secretamente da indiscrição
de cada parto, melancólico e sem fim
circundando rotas e velhas respostas
todas senhoras de certezas seculares
lancei outras perguntas em segredo
silenciando cada ruga de expressão
de cada vírgula entre o sim e o talvez
outro hiato então se fez nesse ofício
e foi difícil prosseguir na trajetória
já que a história reprisava o enredo
já que, sem medo, desejava ir além
quase rendida pela circunstâncias
toda rendada por desimportâncias
bebi todo silêncio que me oferecia
e nessa afonia  incômoda, sobrevivi
farto foi o fardo dos velhos cansaços
que suaram nesse exercício inútil e tolo
onde o dolo tinha odor de recompensa
em frascos longilíneos e inesgotáveis
entre o desisto e o sigo em frente
a claridade duelava com o puro breu
sob o olhar isento das mansas águas
numa batalha sem glórias ou garantias
ao fim, uma coragem leonina tomou posse
de tudo daquilo que se perdera entre as mágoas
e, embora venha  com as duas mãos vazias,
o que já me pertencia voltou a ser meu




CORAGEM LEONINA - Lena Ferreira - mai.15

sábado, 16 de maio de 2015

MISSIVA

As notícias das tuas pegadas
em terras tenras então estrangeiras
pousaram bem calmas nestas mãos aflitas
desdobrando o viés de uma saudade latente
letras lidas ponto a ponto com a ponta dos dedos
trouxeram para perto a ilusão do teu quê tão distante
na desdobra, um aroma almiscarado sossegou os sentidos
- mesmo que por um raro e brevíssimo instante -
num aconchego terno, a missiva abrasou o meu peito
enquanto um azul ultramarino testemunhava as nuvens
que passeavam vagarosamente pelo meu céu
logo choveu... uma chuva quieta e fininha
pelos olhos miúdos  em gotas de esperança
de que na volta de tantas andanças
outras nuvens virão carregadas
pela tua alegria tranquila


MISSIVA - Lena Ferreira - mai.15


sexta-feira, 15 de maio de 2015

OFERTA

Oferto-te os meus olhos cônscios
debruçados nas horas tranquilas
quando os desassossegos cochilam
e a calma beija os cílios por dentro

Há tempos espero-os assim
leves e silenciosamente expressivos
espelhando os motivos do instante

Oferto-os em detalhes mansos
debruçados nas horas discretas
que tanto pedem a tua presença
e tanto pendem se de ti distantes

Ah, este é o momento perfeito
toma-os para que me pertença
o que, no fundo, levo no  peito




OFERTA  - Lena Ferreira - mai.15

DE PAPEL E NUVENS

Um barco feito de papel e nuvens
barco pequeno que se atreve ao mar
enfuna as dobras nessas águas frias
corta oceanos, contorna os naufrágios
lança suas sedes pescando  ilusões
singra a sua saga, sangrando as marés 
desafiando medos, faróis e rochedos
engole as ondas de arenosas espumas  
e, pagando o preço pelo atrevimento,
breves avarias ancoram o seu cansaço
retorna ao porto nos braços do vento
atracando os fracassos aos pés da areia
desdobra as nuvens num quase descanso
desfeitas em chuvas de refazimento



DE PAPEL E NUVENS - Lena Ferreira - mai.15

quinta-feira, 14 de maio de 2015

ENTRE OS SUORES CEGOS

Certas notícias forasteiras trazem
a impressão de rumores precisos
às cidadelas e, fabricando os tipos,
fomentam bocas com as suas ilusões venais

Correm as vielas, sobem escadarias
degrau, degrau, entre os suores cegos
negritando os pingos da não-novidade
saciam sedes secas fartas desestruturais

O pó do tempo a tanto tempo escasso
desfaz seu riso gestado à surpresas
desce as escadas e, imprimindo pressa,
despensa o que só interessa a esses jornais  



ENTRE OS SUORES CEGOS - Lena Ferreira - mai.15

quarta-feira, 13 de maio de 2015

SOBRE OS ARCOS

Com passos de espera inverniça
caminho leve, apreciando a paisagem
de um outono morno e tão incerto
como os meus pensamentos vãos

as folhas no caminho, semimortas
esboçam um sorriso enraizado
contrafeitas com o destino natural:
foram escolhas?
foram escolhas?

divago nessas interrogações
enquanto os meus passos se amiúdam
como adivinhassem necessário o instante
pondo-me diante da ponte imponente

meus olhos se enchem sobre os arcos
bebendo a visão majestosa ao redor
um cheiro de estiagem passeia por mim
enquanto uma brisa temperada me abraça

sob a ponte que separa os meus mundos
um córrego, manso, frio e fino
recolhe as folhas despidas dos galhos
levando-as para muito além do mais

ao longe, ouço ainda alguns murmúrios
e os assovios não consentem o abafar:
foram escolhas?
foram escolhas?



- o inverno não tarda em chegar -



SOBRE OS ARCOS - Lena Ferreira -

A ESTUFA

Uma estufa que só orvalho produzia
recebeu o suave sopro de um bom vento
renovando o ar com nobre sentimento
acordou a rica semente que dormia

Ia alta a noite, mas bem parecia
que o sol havia entrado porta adentro
vicejando raízes, talos e o centro
respondendo como quem amanhecia

Da semente fez-se muda e, germinada,
gerou outras mudas, todas replantadas
onde a florescência tende à fartura

A estufa que só produzia orvalho
hoje está replena em flor e cada galho,
grato ao vento, exala essência de ternura


A ESTUFA - Lena Ferreira - mai.15


sábado, 9 de maio de 2015

ÉRAMOS SEIS

- às mães de ontem, de hoje e de amanhã, que sejam felizes as homenagens de todos os dias! -




Éramos seis. Nascidos e morando numa vila pequena e carente da Rua Goiás, na Pavuna, onde sofríamos com as enchentes ano após ano. A última, a de 1970, havia levado praticamente todo o pouco que nos restara.  Seu Russo, dono da vila e padrinho de minha irmã mais velha, cedeu uma de suas tantas casas espalhadas pela Baixada Fluminense para morarmos. Uma casa pequena, com quintal e poço, em Nova Iguaçu.
Para lá mudamos no mês seguinte, eu, meus cinco irmãos e meus pais levando, numa carroça, o estrado da cama de casal, dois móveis de sala, um colchão, uma cadeira, algumas mudas de roupas e nossa dignidade.
Lembro-me bem do dia da mudança, apesar de tão pequena. Não foi difícil me adaptar na nova residência. Mais foi para mamãe. Na Pavuna, ela era conhecida, tinha clientela para suas lavagens de roupa e costura.  Era o trabalho que mais se ajustava à sua condição de cuidar de uma filha deficiente, a Rita. Ritinha, como todos nós chamávamos. O dinheiro era pouco e a comida escassa. Logo a vizinha, d. Margarida, que também tinha seis filhos, se achegou e ofereceu auxílio. Seu marido trabalhava numa escola e sempre trazia alguma coisa da cantina e dividia conosco. Assim foi por muito tempo. Meu pai perdera o emprego e a situação que já não era confortável, piorou bastante e como não encontrava outro, mamãe arregaçou as mangas e foi à luta, deixando-nos, e principalmente Ritinha, aos cuidados de minha avó Binda, mãe de papai, que viera morar conosco.
Foram anos e anos assim. Mamãe saía de casa antes mesmo do sol e retornava já bem tarde, sempre calada, sempre cansada, olhos preocupados.

Nos finais de semana, minha diversão passou a ser ir com ela ao mercado. Lista na mão anotava o valor de cada item e fazia a soma pra não ultrapassar as contas do caixa. Certa vez, um deslize e a quantia da carteira não satisfez a quantia da nota e notei seus olhos cheios enquanto retirava alguns itens da sacola pra ajustar a conta.
Minha mãe pouco falava, mas seus olhos sempre disseram muito.

Finalmente meu pai arrumou emprego e assim, pensei que mamãe sairia do dela e estaria mais presente, mas não. Havia se acostumado com a rotina. E com o salário, com o qual custeou escola particular para todos nós, sonhando um futuro melhor que o dela.  Pouco comia, mas fumava muito e, sobrecarregada de trabalho e silêncios, sofreu um AVC. Recuperada, retornou ao trabalho, agora mais falante e embora com sequelas, podíamos contar com um sorriso no seu rosto. Um sorriso vitorioso sobre a doença, talvez. Mudou alguns hábitos, mas a vontade de nos ver vivendo em melhores condições sempre a empurrou pro batente.

Ritinha, dizia, era caso perdido. Porém, cuidávamos com carinho e zelo, como criança fosse apesar de ser bem mais velha que eu. Apesar dos cuidados, deixou-nos depois de uma longa e triste pneumonia. Sofremos todos, claro. Mas sinto que mamãe tenha sofrido mais. Afinal, não é natural que um filho parta antes que seus pais.

 Por essas passagens descritas e outras tantas que também não caberiam, digo que minha mãe foi e é uma guerreira. Venceu batalhas solitárias, chorou suas lágrimas sozinhas, deixou de comer para que os filhos comessem. Foi e é nossa fortaleza e nosso abrigo. Educou e ensinou mesmo que por necessidade se mostrasse distante e calada e, muitas vezes, ausente. Minha mãe, que hoje é também avó e bisavó, sempre foi uma mulher de verdade e da verdade. Até hoje nos ensina a lutar pela vida, com dignidade, seja qual for o peso da nossa bagagem.

Queira Deus que assim continue por muito, muito mais tempo entre nós, amando e sendo amada e servindo-nos de exemplo para que sigamos, por tudo que fez e que ainda tem feito rendendo-lhe justas, merecidas e diárias homenagens.




ÉRAMOS SEIS - Lena Ferreira - mai.15

sexta-feira, 8 de maio de 2015

INQUILINO

Moro em mim. E quando abro as janelas, às vezes, a paisagem me assusta e o medo do conhecido me espanta. Às vezes, palavras graves derrubam portas e o baque perturba ainda mais a razão em prejuízo. O juízo, já tão ralo, desce a galopes pela escada.  Às vezes, nada, nada, nada me decora ou me ilumina. Então, fecho as cortinas e durmo um pouco ou procuro um quarto escuso e escuro onde guardo os meus bilhetes - os mais secretos e os mais estranhos e os mais confusos - aos quais recuso dar a luz do esquecimento por apego mero.
Espero por um milagre vindo de fora, que não chega enquanto... Enquanto não mudo.
Outros cômodos aguardam por faxinas que não faço... Por preguiça ou cansaço ou descaso ou já nem sei - janelas fechadas, espero, espero -
É alto o preço de um aluguel pago por tanto tempo estacionado na vaga do senão.
Moro em mim. Cheguei até pensar em me mudar, abrindo mão do espaço em vão. Mas, misturado aos meus bilhetes, encontrei este curto recado: abra as janelas, deixe a luz entrar, limpe o sótão e o porão!

(...)

Mudança na mão. A hora é agora... Afeto ao fato e à renovação  do contrato.  



INQUILINO - Lena Ferreira - mai.15

quarta-feira, 6 de maio de 2015

ENQUANTO ESPERAS

Inquieta-te quando pressentes desmaios
entre a crescente lua e a lua cheia:
amanheces quase  morna e anoiteces fria
seguindo a sina da estação corrente

desabita-te rápido entre as oscilações;
lunares rumores e humores  polares
que flutuam no entorno, não te pesam
tanto quanto as palavras ausentes

das distâncias, fizeste proximidades curvas
das chuvas em ensaio, criaste aragem certa
umedecendo o campado vasto e imprevisto
nos meses ralos em brevíssimos soslaios

aquieta-te; quando a lua ajustar a sua rota
decerto a varanda será  só passagem aberta
para os raios que não antecedem trovões
para as nuvens que não transportam m’água

- enquanto esperas, semeia flor no teu deserto -




ENQUANTO ESPERAS - Lena Ferreira - mai.15

terça-feira, 5 de maio de 2015

TOCHA

Nem bem preciso fechar os meus olhos
adivinho fácil o seu semblante plácido
- e enterneço -
sorriso tranquilo, verão  luminoso
tocha perene num túnel escurecido e desértico
rimando luzes de astrais seculares e  claros
nos gestos profusos em cores e verbos
e modos e tempos e gostos e versos atemporais
tateia sentires distintos e equidistantes
cruzando, dos oceanos remotos, seus tênues limites
semeia luz na luz e na sombra e a soma do seu lume
espelha e espalha entre chuvas e vendavais
de quem se fez ombro, abrigo e seta
de quem desfez a clausura e a censura
de quem refez o traço, curso e a meta
usando  puramente o amor e a ternura

Nem bem preciso fechar os meus olhos
adivinho fácil o seu semblante plácido
- e agradeço -



TOCHA - Lena Ferreira - mai.15



segunda-feira, 4 de maio de 2015

CONSERTOS FRÁGEIS

Cumpre-se mais um dia
pincelado em novidades sobre as coisas antigas
fadigas são esquecidas sob os consertos frágeis
das habilidades improváveis e desinteressadas
a noite vem e deita um tom descansado e flácido
sobre as vozes de fora e adormece as de dentro
no centro aveludado, a chuva não cai nem garoa
entoa um cancioneiro nu, extremo e extremado:
onde as notas reajustam-se pelos suspiros avulsos
os impulsos seguirão desarmonizando a sinfonia

- contratempos acordam na pauta do concerto
e tocam as síncopes dos consertos  palatáveis -




CONSERTOS FRÁGEIS  - Lena Ferreira - mai.15 

sábado, 2 de maio de 2015

SOLITUDE

Enquanto as mãos alisam inquietudes
os pés vão suando em dúvidas calmas
cada gota enxuta é como breve conforto
passagem certa para suspiros abertos

Palavras nascem sem serem gestadas
e deitadas no berço de um vento tardio
desaprendem as canções mais antigas
enquanto humores escorrem tórridos

Aqui embaixo, tudo me observa e cala:
não estou contente e nem estou triste;
estou quieta e um acaso abriga a alma

- enquanto sugo o sumo da solitude vária,

há silêncios nascendo pelo excesso de fala  -



SOLITUDE - Lena Ferreira - mai.15