terça-feira, 30 de junho de 2015

SACRO OFÍCIO

Tão calmo esse azul que observa
o entorno e tranquilo traz pra dentro
aquilo que beneficia o centro
o esquerdo canto, a alma e as fibras

Tão calmo que o corpo inteiro vibra
em ondas de energia limpa e pura
- doadas com cuidado e com ternura,
aumenta ainda mais sua reserva -

Tão calmo esse azul - fácil parece
manter a cor do céu quando ele desce
e descolore o quadro a meio palmo

Mas, fácil, só parece - sacro ofício, 
penso - requer silêncio e exercício
e por pensá-lo, calo e me acalmo



SACRO OFÍCIO - Lena Ferreira - 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

ALFAZEMADA

Foi de silêncios que compus em parceria 
a canção de reestreia desse instante

entre a inquietude quase morna da espera
e a mansidão alfazemada do encontro
segundos foram longos como eras

- braços querentes de abraços;
batutas regentes de momentos -

na demora íntima, as notas se afinizam
tocando cada canto, conhecido e estranho

e como quem adivinha saudades e delírios
inauguram cicios estreitos, longos e macios
no curto espaço entre os lábios e o juízo



ALFAZEMADA - Lena Ferreira - jun.15

sexta-feira, 26 de junho de 2015

PARA ARIADNE

Num labirinto estreito, letras seguem decididas na busca por uma palavra de estreia. Desafiando mitos, dialoga com os fantasmas nas lacunas pontilhadas rimando os ramos de rumores ralos com os rumos rasos das alucinações lunares.
Enquanto um silêncio gentil e sincero solicita um fiapo que seja do novelo de fazer sentido, essas letras estendem as suas mãos, vazias de fio e de medo, e os dedos, cheios de teimosia. Que tateiam as estantes voláteis.
Com as retinas embriagadas pelos ácaros imersos nos goles do extinto vinho, insistem nessa sina estranha.
Trôpegas, esbarram em becos, bocas, bicos e quinas. Derrubam os olhos em alguns livros, grossas laudas seculares e, vestindo suas capas, retas, rotas e mofadas, incorporam feiticeiros, mestres, magos, adivinhos. Ressuscitam umas palavras mortas, retiram-lhes o ranço e o cansaço e, vicejando-as nas entrelinhas, essas letras todas zonzas, todas tontas, todas tortas, quase, quase encontram a porta...
Mas, para Ariadne, mil esforços não importam se a ponta do novelo for esquecida. Sem o fio da meada, Teseu não encontrará a saída.

(...)

Num labirinto estreito, com os dedos cheios de teimosia, letras seguem a seta de uma sina sem senha.
Dispensando resenhas e altares, retornam aos seus ritos circulares. Ainda que sem novelo ou claraboia. Ainda que entre hiatos e paranoias. Ainda que não poetize. Ainda que não poesia. Seguem. E seguirão a saga dessa sina estranha enquanto o Minotauro não as apanha.



PARA ARIADNE - Lena Ferreira - 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

MAIS ÍNTIMOS

Travessa, uma gotinha de chuva
atravessa o telhado da varanda
e, esticando-se todinha no trajeto
entre o teto e o livreto de poemas,
cai serena sobre uns tímidos versos
e macula a folha, página de outono

Desviando a atenção dos supérfluos
dedos sem sono sobrepõem-se à mácula
descobrindo o quê que ia encoberto
entre os anseios mais fúteis, vários
entre as linhas entremeadas em flor

Olhos, mais nítidos, bebericam o necessário 
Dedos, mais íntimos, seguem o seu itinerário



MAIS ÍNTIMOS - Lena Ferreira - 

domingo, 21 de junho de 2015

NO ESPELHO

Acho graça quando a imagem se alinha
e aninha as vestes de um vento suposto
à crueza do rosto, dos fatos e dos ritos
benditos e, despindo suas comiserações,
costura uns remendos, fiapos do tempo
nas lembranças inóspitas e arrefecidas
aliando o roto reverso ao avesso da pena

É uma graça pequena que não ri nem chora
pelo ofício flácido de ninar as plangências
e as emergências dos reflexos que refreiam  
debruçados no compasso do sossego volátil
à beira do berço largo  onde a mente divaga
na vaga observância de incautas urgências
que no vento depositam as marés de desgosto
os azares dos vazios, as tardes de sorrisos
as noites sem juízo, os dias de procura,
os voos em clausura, mesuras e pirraças

Acho graça quando a imagem se alinha
e aninha as vestes que, despindo-me, não vejo
no espelho, não rio nem choro; solfejo



NO ESPELHO - Lena Ferreira - 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

ANÔNIMAS

Poeiras pré-concebidas estagnam o vento
e acorrentando-o através dos seculares dias
alimentam o pavio de guerras frias e mudas
estatísticas apreçam o custeio e os valores
e enquanto rios secam e mares transbordam
as terras sem fronteiras definidas tremem
mais pelos tementes do que pelos temidos
o caos instaurado segue dilatando olhares
santos, surdos e cegos, egos estrelam noites
em nuvens líquidas, lânguidas e passageiras
poeiras pré-concebidas estagnam o tempo
sereno e profuso, o céu nos observa e cala
a rota dos segundos apressa a transitoriedade
a reta dos minutos quase derrapa nas curvas
as horas oram por sorrisos inteiros que valham
a palha sob a chuva que o vento não move
hoje ou amanhã se transforma em fogueira
o fogo, o mesmo fogo que consome a carne
aquece as doidas almas nas vagas de frio
pés ainda tropeçam nas sombras alheias
vísceras expõem-se em translúcidos véus
o caos instaurado segue dilatando olhares
porém, mãos anônimas dispostas em auxílio
dão-se à vida outra mais que à própria vida
resgatando o fio a fio, reconstruindo lidas
- sob o texto de que nem toda lenha é sina
sob o texto de que nem todo gesto se assina -


ANÔNIMAS - Lena Ferreira -

quarta-feira, 17 de junho de 2015

DULCÍSSIMO

Dorme um sonho pequenino
nas abas do pensamento
vai coberto por um vento
vai com olhos de menino

Dorme um sono celestino
cheio de contentamento
sonho com o aprimoramento
dos passos do seu destino

Dorme, sonho, enquanto canto
um dulcíssimo acalanto
até que estejas pronto

Para um despertar maduro
no destino que futuro
paciente o nosso encontro



DULCÍSSIMO - Lena Ferreira - jun.15

terça-feira, 16 de junho de 2015

COLO

Vem de longe. Longe e lento. Lento e, leve,
socorre a noite esparramada pelo resfriado solo
onde os meus olhos teimosos, rubros, se debruçam
em lamentos incoerentes, improváveis e inúteis

Fala-me manso e cioso sobre o que quase escuto:
amnésia, lobotomia, rechaço, em falta o que parece prece
possíveis elementos para uma defesa crua e cauta
às memórias doloridas que cochilam em sono breve

Quase escuto, quase entendo, quase, quase, quase...
enquanto não aceito, sussurra macio: esquece, amor, esquece
e, recolhendo do chão os meus olhos pequeninos,
com um olhar de outono, o seu colo reaquece-me


COLO - Lena Ferreira - jun.15

segunda-feira, 15 de junho de 2015

NOITE-AVENCA

Tardes dessas, quase inverno,
uma chuva insistente cai miúda
sobre o cômodo das memórias dormentes
que se agitam e assaltam os olhos
cúmplices das nuvens mais vagas
amedrontam a noite-avenca
que despenca verde, verde e estia
apressada pelo cândido orvalho
madrugando a tez da nostalgia
estendida, extensa e extremada
novelando o fio em voz macia
alarga as gotas que iam magras
alaga o chão da avenca-noite...

...e me resfria



NOITE-AVENCA - Lena Ferreira - In Florbelescos

domingo, 14 de junho de 2015

DE BAUNILHA E MIRTO

Ao ver as mãos inertes do moinho
pôs-se a imaginar o quão bom seria
um vento liso de promessas breves
fizesse ninho em cada um dos dedos

Solicitou serviço ao senhor das horas
- que facilita o caminhar das coisas -
mandasse um sopro em seta sussurrado
em notas altas de baunilha e mirto

Envolto pelo leve aroma quixotesco
o sopro, engravidando ventanias,
beijou os nãos que assenhoram o tempo
sob um casto campo de rubras tulipas


DE BAUNILHA E MIRTO - Lena Ferreira - jun.15

sexta-feira, 12 de junho de 2015

EU TE CUIDO

Do meu amor
sei pelo que cala
enquanto ecoam pelas salas
muitos "eu te amo" por descuido
do meu amor, úmido e amiúdo,
cada toque e gesto zeloso
cada beijo, cada fluido
cada olhar silencioso
me declara: "eu te cuido"



EU TE CUIDO - Lena Ferreira - jun.15

quinta-feira, 11 de junho de 2015

SOBRE A POÇA

Sobre a poça pela noite derramada
um sol novo já com ares de inverno
trouxe nos dedos um madrigal  tão terno
pra tocar em cada gota esparramada

Cada toque, o vapor que ascendia
modificava as gotas da poça cheia
solfejando a novidade que se enleia
- feita em nuvens, a poça pro céu subia...

...lá chegando, o sol com um abraço forte
condensou dores, tristezas; fez um corte
no ventre de cada nuvem que se via -

Se pecado for, perdoe: ao ver a morte
dessa poça em cada nuvem que paria
percebi que, em volta, a vida renascia



SOBRE A POÇA - Lena Ferreira - jun.15

segunda-feira, 8 de junho de 2015

DE ONTENS

De ontens, trago direções diversas
grafitadas nas paredes da memória
acrescentando sentidos ao curso da vida
ninguém viu o grafiteiro pular o muro
embora todos saibam de sua existência

perambulando os instantes, cauteloso
conferindo verdade às fotos, aos mitos
e aos ditos, efeito prático e irrevogável
e embora alguns fatos permaneçam ocultos
seus vultos acenam gestos e verbos distintos

nada se passa sem que ele perceba, nada
não há espaço que escape de suas mãos

habilidosas, vão grafitando os corrimãos
dos segundos escorridos mais discretos
entre o ciliar dos olhinhos distraídos
ou dos cochilos entre um sim e um talvez

e enquanto vou deitando a minha escrita
debruçada nessas tolas considerações
seu hálito ciciando leve e liso
tinta um gemido como aviso:
vou grafitar isto também...


DE ONTENS - Lena Ferreira - jun.15


sábado, 6 de junho de 2015

DEUSA

Contemplemos esta noite que desfila
num vestido deslumbrante de mistérios
salpicado de brilhantes que rutilam
e transformam o momento em etéreo

Contemplemos esta dama dos segredos:
no silêncio sepulcral da madrugada
tão discreta, adormece alguns dos medos
da alma incauta que, de dia, ia agitada

Tão materna que, de uma forma estranha,
acalenta dores várias e cansaços
encobrindo com sua sombra tamanha
muitos nós dos sós e dos sóis, o mormaço

Deusa estranha, adornada pelo tempo
onde entorna-se, o poema faz seu templo



DEUSA - Lena Ferreira -

sexta-feira, 5 de junho de 2015

MARÍLIA

Penso-te oceano
e, enfunando as velas do meu peito
no vento das conquistas improváveis
que sopra rarefeito sobre as águas tranquilas,
espero ao sabor de um dia quase

Passam-se as horas, os dias, os meses
mudam-se os ciclos, as luas e as marés
sem que te preveja ancorando-me as vontades
de volume preciso, de desaguar intenso
entre o veio extenso e o dito impalpável

Ainda assim, cogito passar pelos anos... Ou eras
sob este céu claro, de expectativas esparsas,
coalhado por um rebanho de nuvens tangido a maresias
que, me acenando paciência, não chove, não chove;
mais desassossega as ondas que me correm milhas

Penso-te oceano
e isto é condição inevitável
mas, pela extensa espera, é pouco provável
que um dia espraies tuas águas
pelas areias da minha ilha...


MARÍLIA - Lena Ferreira - In Florbelescos

quinta-feira, 4 de junho de 2015

CONTÁGIO

O choro que a voz segura
talvez por orgulho frágil
corre por dentro e satura
o peito em doido naufrágio

Encharca o esterno e, dura,
faz do pulsar calmo, ágil
destilando  amargura
afunda a alma por contágio

O choro que a voz embarga
e em seguida se larga
à morte em seco mergulho

Alivia a alma e o externo
desfila o seu tom mais terno
despido de todo orgulho 


CONTÁGIO - Lena Ferreira - mai.15


quarta-feira, 3 de junho de 2015

ANTES MESMO DO INVERNO

E a distração dessas tardes mais curtinhas
- que se encolhem já prevendo o frio fino -
tem sido costurar mornos detalhes
sobre as folhas em desmaios outonais

Generosas, alinhavam temperança
nas arestas agitadas pelos sustos
num ofício paciente e solidário
que reclama anonimato e sensatez

O sereno do período, antecipado e terno,
testemunha o capricho das zelosas artesãs
e sob juras de silêncio que se cumprem
surpreende-se com o hobbie vesperal

- uma colcha salpicada de aconchegos
que aquece estrelas antes mesmo do inverno -



ANTES MESMO DO INVERNO - Lena Ferreira - jun.15

terça-feira, 2 de junho de 2015

DOIS VAGARES

Vem de vagar pelas luas risonhas
em suas fases frescas e completas
inaugurando mais rimas secretas
nos versos que todas as almas sonham

E, devagar, é bem capaz que ponha
aquelas frases, as mais que diletas
nas entrelinhas que, sempre discretas,
dão vozes às estrofes que componha

Vem de vagar, vem suspiro, vem vindo
manso e quieto, vem se distraindo
com um sopro, como boa companhia

São dois vagares - de sopro e suspiro -
os dois que, desde sempre, admiro
os dois que ventam amor à poesia



DOIS VAGARES - Lena Ferreira - jun.15

ENTRE O SILÊNCIO E O MURMÚRIO

Entre o silêncio e o murmúrio
artífice das memórias vagas
escavando velhos abismos
garimpa ruídos de estrelas
peneirando antigas frases
transitáveis como as ruas
dinamita as incertas falas
fragmentando perguntas
à resposta que, sincera,
impera, quarto e sala:
pondera, pondera



ENTRE O SILÊNCIO E O MURMÚRIO - Lena Ferreira - jun.15


segunda-feira, 1 de junho de 2015

DE ORGANZA E RENDAS

Sopro uma canção de organza e rendas
sobre as promessas que acenam nuvens
com lenços úmidos de sóis e de orvalho
algodoando suspiros nas brisas bordadas

Hão de se cumprir todas as notas sonantes
no tempo imprevisto pelo contratempo
enquanto medos contorcionam as sombras
apazíguo-me com os fantasmas e ventos 




DE ORGANZA E RENDAS - Lena Ferreira - jun.15