quinta-feira, 16 de julho de 2015

CANTO PRIMEIRO

Cessa o vento quando o canto ecoa
em sibilos dos mais vários cantos
a cantiga que o instante entoa
contagia os corações, os tantos

Que vagavam pela vida estreita
ressentidos, como bandoleiros
com suas liras em dores suspeitas
iam surdos ao Canto Primeiro

Cessa o vento - no efeito das notas
os sentires tomam outras rotas
olhos passam a enxergar bem mais

os ouvidos, muito mais sensíveis,
abrem-se para os sons aprazíveis
dos sibilos que lhes trazem paz -



CANTO PRIMEIRO - Lena Ferreira -

quarta-feira, 15 de julho de 2015

BRISAM-ME

Enquanto anoto as notas que a noite traz
nem noto o tempo que me olha tão atento
pudera, ando distraindo-me com o vento
com os rodopios que seu movimento faz

Nas luas que vão descuidadas, vou assaz
buscando um novo ritmo pro pensamento
na contradança, pauso a lira em contratempo
com passos de tocar na noite o que me apraz

E quando chega a vez das notas madrugadas
- aquelas que contêm estrelas já suadas
pelas distâncias percorridas céu afora –

Me pego olhando a quem me olha tão tranquilo
seus olhos deitam nos meus olhos sem sigilos
suas notas brisam-me com beijos que demoram


BRISAM-ME - Lena Ferreira -

terça-feira, 14 de julho de 2015

DOS VERDES EXCESSOS

No campo extremo dos verdes excessos
nascem palavras que espocam como tiros
entre rubros e alvos delírios, sangue; jaz
o que era paz, ensaio - mas, um ato, peço:

calçada com os silêncios mais maduros
peito aberto, desarmada e sem escudos
penso erguer uma das solidárias tendas
no esquerdo canto do campado em quase flor
com bandeiras verde-oliva tremulando
mastros que verguem ao sabor do tempo

- mesmo que não entenda o suor do vento,
mesmo que não entenda seu deslocamento,  
intento plantar azuis no chão das exceções:
o campo necessita de cuidados, não de canhões -



DOS VERDES EXCESSOS - Lena Ferreira -

segunda-feira, 13 de julho de 2015

PRIMAVERANDO NO INVERNO

Venho de plantar entre as estações
sementes várias de flores que nem conheço
- sem aguardar pelo florir que não tem preço,
levo no peito a melhor das sensações -

Vou solitário, carregado às emoções
visto sozinho em passo, triste assim pareço
imaginado que nem saiba o endereço
de onde chegar; sentido, metas, direções

- mas, do plantio, não me canso: ciclo eterno
verões e outonos, primaverando no inverno -

Entre o cuidado e o acaso sementeiro,
as flores nascem, perfumando o caminho
e o detalhe de ser visto assim, sozinho
passa distante do pensar plantar primeiro



PRIMAVERANDO NO INVERNO - Lena Ferreira -

sexta-feira, 10 de julho de 2015

MUDAS

Flor que se demora respirando culpas
em pétalas íntimas de orvalho e luz
espremida entre silêncios e esperas
anseia pelos dedos lisos do cultivador
que, alheio às necessidades férteis,
nega a rega e ainda transplanta mudas
de camélias,  de begônias e de lírios
para o terreno lasso vizinho da calma

- há de se plantar uma muda que seja
de sândalo, baunilha, de verbena ou trigo
em torno dessa rosa úmida de estrelas
para que, florescendo no tempo preciso,
suavizem o vento das ervas daninhas -



MUDAS - Lena Ferreira - In Florbelescos

segunda-feira, 6 de julho de 2015

TEU CORPO

Teu corpo
respiro
como vida
fenda, fissura, carne e fibra
detalhes ínfimos e vários
sudário íntimo, necessário
que me descobre enquanto cobre
as partes úmidas e mínimas
- sementeprecisosemente -
planto-te no ventre do afeto
as
piro
teu corpo
como vida
teu corpo
respiro
como a vida



TEU CORPO - Lena Ferreira - 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

DAS MANHÃS SOZINHAS

Ah, vento das manhãs sozinhas
vens passageiro como quase brisa
e suavizas o tom grave da saudade
que, na verdade, grita-me tão perto

Decerto, ouviste as queixas madrugadas
quando, amparada por estrelas frias,
chovia as nuvens dos dias mais largos
em pingos bem magros de desfazimento

Ah, vento das manhãs sozinhas
tranquilo e manso, vens e me abraça leve
e, mesmo que breve, faz-me companhia
despedindo a agonia, a calma toma assento

Decerto, estás somente de passagem
outras paragens de ti necessitam
e solicitam o teu sopro suave e macio
que, mesmo frio, conforta, conforta

Então, vai...

...e leva contigo o meu agradecimento


DAS MANHÃS SOZINHAS - Lena Ferreira -