quarta-feira, 28 de outubro de 2015

ANIMA

Dai-me ouvidos límpidos para a escuta
do poema que a vida me apresenta
e a palavra delicada que apascenta
um novilho tosquiado à força bruta

Dai-me mãos cooperativas na labuta
e a gota de suor que acrescenta
um grãozinho nessa caixinha cinzenta
e os pés capazes na boa conduta

Dai-me olhos que, além de ver, enxerguem
o equilíbrio e os ombros que se erguem
independente do peso oferecido

Se peço muito, dai-me força - esquece o resto - 
para casar cada palavra com seu gesto
e a leveza de um peito agradecido 



ANIMA - Lena Ferreira - *

terça-feira, 27 de outubro de 2015

CANÇÃO PARA UMA BORBOLETA

Ana,
onde a meninice vibra
a faceirice se equilibra
e a mineirice doa garra e fibra
pelas mãos de um Sol em libra
dona de um sorriso que abraça
e de um abraço que transborda
tem um olhar em transparência
que revela em pura essência
que 'apesar de'...a vida é boa:
segue e serve e, ‘se...’, perdoa
Ana,
que, fr(ágil) se fez fortaleza
qual borboleta, na sua leveza,
pousa, vibra e, livre, voa
e, acima de tudo,
ama.


CANÇÃO PARA UMA BORBOLETA - Lena Ferreira -


domingo, 25 de outubro de 2015

OUVINDO

As vozes do vento, as velozes,
confundem os ouvidos incautos
em sustos, também sobressaltos,
imputam torturas ferozes

As vozes do vento, as bravias,
iludem os olhares distantes
em compassos tão dissonantes
instauram a desarmonia

As vozes do vento, as amenas,
difundem a calma prevista
em passos de lenta conquista
evocam as coisas pequenas

As vozes do vento, as suaves,
dispersam as palavras graves


OUVINDO - Lena Ferreira -


terça-feira, 20 de outubro de 2015

QUASE

E foi assim que veio:
veio doutros meios
quase susto surdo
quase medo cego
quase que segredo
quase canto mudo
o ego em espanto
sorriu com os olhos
que reconheciam
o encanto, tanto,
de outros vagares
desaguando mares
num fluido perene
sob a luz Selene
veio doutros rios
veio doutros veios
veio unindo fios
engatou meneios
extinguiu o estio
e acordou o dia
em quase poesia   


QUASE - Lena Ferreira -

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

ALENTO

Planto gestos
e momentos
mudas, sementes
antes do fruto
afeto
é nato
Palavras empresto
ao vento
semeio o verso
em estado bruto
só feto
é fato
Os dedos cheios de letras
que cavoucam a página do dia  
e as mãos cheias de folhas
que pretendem colher poesia
águo-as nas fases da lua 
seco-as nas lágrimas do sol
rescende um aroma dessa rotina
que espanta as ânsias mais ingênuas
e perfuma as gotas cheias da retina
e prepara o itinerário que amanhece
e refaz o ciclo que tão bem conhece
- planto palavras
no vento -



ALENTO - Lena Ferreira -

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

CIRCULAR II

A mão na caneta
a caneta na folha
a folha nos olhos
os olhos pra fora
o fora pra dentro
o dentro na mente
a mente no verbo
o verbo na alma
a alma no verso
o verso na folha
a folha no vento
o vento nos olhos
os olhos na mão




CIRCULAR II - Lena Ferreira -

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

MEMÓRIA LÍQUIDA

E um rio corre manso e claro, à margem de uma casa amarela rodeada pela cerca de bambu
onde sóis se espreguiçam, onde tardes se balançam, onde luas se penduram juntamente com o futuro, estrelas e saguis.
Com os seus passos de silêncio apressado e com os seus olhos de deságue comprido, o rio observa o rolo de fumaça que sai pela chaminé de ferro e imagina: há fogo, há lenha, então, há lida.
E olhando para o quintal, flores de par em par, pássaros a cantar, roupas no varal, frutos no pomar, vento calmo, quase brisa, calmo, novamente imagina: há vida tranquila.
Concluída a inspeção, segue então o seu percurso. Deslizando macio, de leve se avoluma, levando, impregnada em sua líquida memória, a colheita do cenário desenhado, esboço a nuvem e giz.  
E então corre. Corre e vai contar ao mar tudo o que a visão em curso conhece. Mas, num deságue ligeiro, segue alheio ao que dentro da casa de fato acontece.



MEMÓRIA LÍQUIDA - Lena Ferreira -

sábado, 3 de outubro de 2015

SANTAS PARALELAS

Das promessas
feitas nas horas extremas
tal qual prece silenciosa
sobre as folhas do tempo omisso
quase todas foram remidas

Quase...

Há, ainda
em compasso de espera,
a que põe a alma em dobra, de joelhos:
caminhar sobre as santas paralelas
sem que os olhos retornem vermelhos




SANTAS PARALELAS - Lena Ferreira