segunda-feira, 30 de novembro de 2015

EVOCARE

Os dias que evoco
não listam o sol nem a chuva
não chamam riso nem pranto
não acertam retas nem curvas
não servem servos ou santos
não clamam brisa ou vento
não pedem juízo ou loucura
não falam à dor nem ao alento
não dizem veneno ou cura
Os dias que evoco
não têm certezas nas folhas
mas, sei que o seu epicentro
é fruto das minhas escolhas
somadas ao que carrego por dentro



EVOCARE - Lena Ferreira -

sábado, 21 de novembro de 2015

SAMSARA

Pelas ruas espessas
caminham as respostas
apressadas, apreçadas
e as compromissadas
com o fio, o do meio
entre elas, passeio
sem receio ou espanto
vez ou outra, me expresso
sim, às vezes, tropeço
entretanto, levanto
e retorno ao passeio
onde busco em samsara
sem demora e sem pressa
o que me interessa:
a pergunta mais clara



SAMSARA - Lena Ferreira -

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

NO ALTAR DO VENTO

O que tenho, e que me alivia,
são os versos que, humanamente, teço
esses que, de tempo em tempo,
despretensiosamente, ofereço
acesos, aos pés do altar do vento

Enquanto queimam, observo:
a qualquer noite ou qualquer dia,
um de seus fragmentos,
para a  minha alegria,
há de se tornar
verbo


NO ALTAR DO VENTO - Lena Ferreira -


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

SIM, EU SEI

Sim, eu sei que a vida corre a galopes. E sei também que, às vezes, nos dá duros golpes. E por saber dessa dureza é que me encontro diante do mar que sempre, sempre está pronto a me receber, a qualquer hora ou sentimento. A me perceber, sem o peso da censura ou julgamento. A me envolver, seja na tristeza ou na alegria. E a me devolver, ao sabor da maresia, as notas da canção que tão bem me faz à alma. As mesmas que depois carrego bem no meio da palma da mão que tenta segurar a barra da saia onde uma onda ensaia aconchegar espuma e sais.
Permito. Justa é a troca, é pelos ais das manhãs estendidas numa elevada quentura. Pelas tardes minguadas na espera da brandura. Pelas noites cumpridas em lua quando, em teima, insisto.
Sim, eu sei que a vida margeia o imprevisto. Entre perdas e ganhos, sins e nãos, riscos e danos. Desobediente às regras e aos arquitetados planos, é a vida e é assim: corre a galopes e o tempo tempo, evapora, mas diante do mar, corpo, mente e alma se revigoram.



SIM, EU SEI - Lena Ferreira -


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A4

Lança sobre mim
esse olhar de outono
e, com suas letras instintivas
na dança do impulso sobre a linha
da vida, da morte, do meio e na sina
precipita-se em inventadas verdades
abismando mágoas reativas
ilusões macias e realidades
duras, cítricas, sereno e curas
paixões fugazes e fantasias
deita amores, dores e euforias
e, com dedos de um pulso abandono
planta em minha virginal alvura
as sementes sazonais e nativas
que o vento traz, não sei de onde,
revelando enquanto, pensa, esconde
em verso avulso pelas entrelinhas,
o ramo, o remo, o rumo e a mira
que o impulso expulsa; livre ou rima




A4 - Lena Ferreira -

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

REPRISE

Passou por mim como se fosse um vento
Que estica o arco e sua flecha lança
Ingênua, imaginei que, tão criança,
Corria em busca de divertimento

Mas, na *Avenida em congestionamento,
Lastrava os traços de suas andanças:
Cordões, relógios, carteira, alianças
Iam, do dono, a um compartimento

Localizado entre a cintura e o bolso
Onde uma faca, sem nenhum esforço,
Ferramentava o célere ofício

Como reprise em salas de cinema
Quem vai dispor atenção ao problema
Que mata a infância depois do princípio?


REPRISE - Lena Ferreira -


*Avenida Presidente Vargas - Centro - RJ

terça-feira, 3 de novembro de 2015

ECO

Fosse só essa certeza que não tenho
tudo o mais seria facilmente resolvido
o prognóstico dormiria a sono solto na gaveta
juntamente com os sintomas e as premissas

As frases todas, desconexas, insensatas
não reclamariam bengalas nem aros
nem convocariam receitas ou resgates
e as taxas seriam bem menos notadas

O eco voltaria um pouco mais preciso,
esquecido do estreito e rouco pigarrear
e a torrente dos internos desgastes
ciciando por socorro, já estaria extinta

Mas não...

A teimosia veio anexa ao pacote
onde o simples suspirar é exercício tão difícil,
o vício debruça-se qual dança do ventre
sem música...
...em brasa

Resta-nos a espera
pelo tempo-remédio
ou
uma dúvida mais certa




ECO - Lena Ferreira -

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

ÀS TRISTEZAS DESTE DIA


Elevo o pensamento aos que já não estão neste plano, mas, que fizeram parte da minha jornada deixando marcas, ensinamentos, lições... E agradeço sinceramente pela oportunidade do convívio e da troca que nos foi permitida até o momento da passagem. Certo que uma ponta de tristeza pela ausência física nos abate, principalmente neste dia (de finados).
É fato que nada conseguirá preencher o vazio deixado, mas saber que compartilhamos alegrias, sorrisos, abraços e vida, se não sara a ferida, ao menos suaviza a dor da perda e com a lembrança de tudo o que vivemos juntos, deixo escapar um sorriso tímido mesmo com o peso de uma saudade infinita, mas tão bonita... Que, de certa forma, me consola.
Meu profundo respeito às tristezas deste dia acompanha a quase certeza de um reencontro mais adiante.




ÀS TRISTEZAS DESTE DIA  - Lena Ferreira -