quarta-feira, 23 de novembro de 2016

cronos

se voltasse
como um vento sem  aviso
levantando o pó das coisas
que dormem no sol da paisagem
em cada canto conciso
encontraria em recibo
notas pelo só momento
se voltasse
como chuva de passagem
encharcando o chão da espera
das palavras, dos sorrisos
ao lado de um verbo preciso
encontraria o juízo
dos afetos, dos encantos
e o agradecimento
se voltasse
como uma brisa suspensa
sobre as coisas insuspeitas
com o intuito de quem dera
encontraria outro intento
mas, não
o arrependimento



 - Lena Ferreira -

terça-feira, 25 de outubro de 2016

as vezes

a ti que sangra as vezes que me firo
e que me escuta sem que eu nada diga
no pó da ausência que me desabriga
deixo a presença enquanto me retiro
do verso posto as vezes que deliro
- e quase sempre a mente assim me obriga -
trazendo à tona a sensação antiga
da dissonância enquanto me refiro
à toda espera de promessa isenta
e à jura idosa sobre o que apascenta
as folhas que despencam sem contrato
a ti que sangra o meu deserto longo
quisera dar o oásis de um ditongo...
...não fosse a aridez deste hiato




  - Lena Ferreira -

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

em sucessão

pudesse, dar-te-ia esse silêncio sacrossanto
que tanto e tanto e tanto, insistente, solicitas
num quase desespero que me faz plantar certezas
nas dúvidas discretas com colheita garantida
capaz de encher um silo com os grãos das mudas falas
que andam pelas salas qual correntes sem cinzel
mas, hão de concordar com este sim, ser injustíssimo
que venhas, persistente, me pedir o que não tenho
embora o desempenho faça-me mover os céus
regresso com excesso de insucesso em sucessão
pudesse, dar-te-ia ainda mais do que me pedes
dar-te-ia esse silêncio e outros tantos, todos, tudo...
mas, falta-me a vontade para abandonar a sede
e a sede que me grita, é infinita e eu não mudo
deixando o que me impede revelar-se pelos véus




- Lena Ferreira -

terça-feira, 9 de agosto de 2016

o mundo ainda é o mesmo

folhas murmuram querentes de água
não pela sede; mais pelo  vício
das mágoas passadas debaixo da ponte
não há resquícios nas margens
no meio e no fundo
o mundo ainda é o mesmo, mas é outro
o olhar que se debruça sobre um rio
perene sob um céu de um azul instável
cônscio de que as nuvens peregrinas
estendem seus rosários no horizonte
saúda uma brisa bem tranquila
que lhe responde em gestos de sereno
cordata, agua as folhas, louva o tempo
e benze o vento novo com um sorriso
calmo e profuso



- Lena Ferreira - 


quinta-feira, 9 de junho de 2016

utópica e atípica

cada um de vós que quase veloz me escapa
nos momentos mais escusos dessas horas mais dispersas
vagará pelas estradas aparentes
numa busca improfícua pelo assento
que abrigue o verbo pouco onde a ausculta é o intento
às vivas vozes que aspiram por sossegos
e que expiram seus airosos segredos
nos pulmões de um velho vento
cada um de vós que quase veloz me escapa
aos lugares mais estanques com seus frívolos andares
nos deleites insuspeitos, nos delírios, nos rumores
nos temores quase ocultos no fundo de algum peito
como um círculo imperfeito de uma busca infinita
utópica e atípica
e como outras mãos que pulularam etapas,
cada um de vós que quase veloz me escapa
retornará para casa onde há calma à leitura
e entendimento às vozes afora essa lonjura




- Lena Ferreira - 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

em silêncio e falta

celebro-te em silêncio e falta
que quase se ajustam
na ciranda eterna dos desassossegos
quase que em improviso
quase que imperfeito
quase que imprevisto
quase um desapego
e na festa, isenta de convidados,
acendo um incenso sobre as pausas mais extremas
ascendo uns versos no altar de alguns dilemas
apago as luzes que me espionam segredos
danço lua em fase incauta e, nesse enredo,
celebro-te em silêncio e falta

- amanheço pauta
das canções sem medo -




- Lena Ferreira - 

terça-feira, 5 de abril de 2016

instintivos

Sob o efeito de umas notas sussurradas
sobre a pele numa improvável conquista
quase, quase se ouvia
aplausos antecipados, infinitos
instantâneos, instintivos
caros, efusivos
dos pelos
dispostos a abraçarem o palco da voz

explorando outros acordes em detalhes
um querer tanto de impensado aprendiz
harmonizava os ventos fartos da cadência
despreocupado com excelência, perfeição

e sob o olhar de uma lua imprevista
entre a calma e uma breve insensatez
tocava notas e mais notas e mais notas
e sustenidos nos lençóis de um branco giz
até que, em êxtase, a música se fez
entre aplausos

- pausa -

mais aplausos

...e o bis


 - Lena Ferreira - in Devaneios


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

CONTO I

Recebeu o carregamento de tijolos com a mesma satisfação de criança que recebe um brinquedo novo e, sozinha, pôs-se escada acima os levando ao terraço.  Era sábado, dia de praia e shopping e ela ali, num sobe-e-desce exaustivo. Mas, nada tirava de Marinez o sorriso dos determinados, dos que acreditam que só o esforço aliado a certos sacrifícios fazem com que se alcance um objetivo firmemente traçado, embora simples. Um cômodo pequeno que, antes mesmo de nascer, ganhara o nome de Guardador de Ideias. Ali, acomodaria livros, projetos, tintas, telas, material reciclável, enfim, tudo o que inspirasse transpiração.
E os tijolos subiam. Tarefa de um dia inteiro, finalizada com o corpo robusto lavado de suor, cansaço e orgulho. Daquele orgulho bobo, sabe? Que não se compara à pretensão de se pensar melhor do que aquelas que dependem de homens para esse tipo de serviço. Mas aquele orgulho de ter vencido uma etapa da única competição proposta e possível; superar-se. Apesar da força das circunstâncias, dava ali um passo a mais na realização de seu pequenino sonho.
Com um banho frio e demorado, refez-se. Vestida de si, retornou ao terraço. Estendeu o corpo no espaço onde nasceria o quarto. A noite caída, que até então observava a pilha de tijolos, parecia redirecionar o olhar ao fundo de seus olhos como a questionar os seus ‘porquês’.
Marinez sorriu seu sorriso costumeiro, largo, honesto e inteiro, quase entendido pela noite como resposta. Satisfeita com seu ‘pra quê’, adormeceu ali mesmo sem planejar o seu domingo.
Cada coisa em seu tempo.



CONTO I - Lena Ferreira - 

domingo, 31 de janeiro de 2016

OUTRA MESMA

Interrogo
as exclamações expressas
os pontos reticentes
 
os parágrafos
e os finais:
de ontem
o que fui
sou a mesma?
Intuo
uma resposta:
em construção,
sou a mescla da de outrora
com a que está no agora
outra mesma
amanhã
a essência
e o vivido
que acrescenta
me acompanham
do mais
me despeço
me dispo
ou tento
amanhã
embora perto
é tão incerto
é como vento
amanhã
nem mesmo as pedras
serão as mesmas
é só questão
de tempo



OUTRA MESMA - Lena Ferreira -