sexta-feira, 19 de agosto de 2016

em sucessão

pudesse, dar-te-ia esse silêncio sacrossanto
que tanto e tanto e tanto, insistente, solicitas
num quase desespero que me faz plantar certezas
nas dúvidas discretas com colheita garantida
capaz de encher um silo com os grãos das mudas falas
que andam pelas salas qual correntes sem cinzel
mas, hão de concordar com este sim, ser injustíssimo
que venhas, persistente, me pedir o que não tenho
embora o desempenho faça-me mover os céus
regresso com excesso de insucesso em sucessão
pudesse, dar-te-ia ainda mais do que me pedes
dar-te-ia esse silêncio e outros tantos, todos, tudo...
mas, falta-me a vontade para abandonar a sede
e a sede que me grita, é infinita e eu não mudo
deixando o que me impede revelar-se pelos véus




- Lena Ferreira -

terça-feira, 9 de agosto de 2016

o mundo ainda é o mesmo

folhas murmuram querentes de água
não pela sede; mais pelo  vício
das mágoas passadas debaixo da ponte
não há resquícios nas margens
no meio e no fundo
o mundo ainda é o mesmo, mas é outro
o olhar que se debruça sobre um rio
perene sob um céu de um azul instável
cônscio de que as nuvens peregrinas
estendem seus rosários no horizonte
saúda uma brisa bem tranquila
que lhe responde em gestos de sereno
cordata, agua as folhas, louva o tempo
e benze o vento novo com um sorriso
calmo e profuso



- Lena Ferreira -