quarta-feira, 31 de maio de 2017

à outra pauta



da dúvida plantada no espaço
onde se debruçavam os meus dias
colhi, certeiro e claro o teu pecado
que, impávido, privava a alforria


do meu, embora curto e tão lasso,
vivido de tentar, noites e dias
de tanta tentativa, acabrunhado
desfez-se em rima pobre, quem diria


mas não desisto fácil, estejas certo
embora assim desfeita do deserto
embora ainda assim, um tanto incauta


remeço o passo, então chego mais perto
futuro um horizonte, então desperto,
e entrego minha certeza à outra pauta



- à outra pauta - Lena Ferreira - 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

extremos



tínhamos os meios
mas, absurdamente,
optávamos pelos extremos:
trêmulos temores
dúvidas exatas
clausuras insensatas
greve à sensatez
que, por sua vez,
maculando o instante
trocava o constante
por outro talvez



- Lena Ferreira -

quinta-feira, 25 de maio de 2017

cor de fogo




é um mar
esses teus olhos cor de fogo
acesos incensos seculares
olhares que vagam pelo corpo
poemas, dois dos espetaculares

em ondas
que chamam, atrevimento
em notas de fina quintessência
são folhas dançando contra o vento
com passos beirando a excelência

é um mar
esses teus olhos cor de fogo
que acendem o rubor da minha tez
ah, se eu permaneço nesse jogo
bem certo é que me afogue de uma vez



- Lena Ferreira - 

terça-feira, 23 de maio de 2017

e 'stato già scritto



mas, estava escrito que assim seria
se te esquecesse, reencontrar-te-ia
não diferente do ser que lembrava
 indiferente ao constrangimento

que lembrança certa, imune ao degredo,
desperta e esperança o reconhecimento
e acorda os medos tão bem conhecidos
dos tempos idos - salvo engano ledo -

mas, estava escrito que assim seria:

eu compondo loas que dedico ao vento
tu dispondo afinco ao distanciamento


- Lena Ferreira -

domingo, 21 de maio de 2017

quando tu vens




sei bem quando tu vens
antes mesmo de chegares
a faceirice dos olhos ruboriza
ondas variantes pelas curvas
e setas indicando o porto certo
mostra-me um cais seguro de atracação

sei bem quando tu vens
a brisa mole traz o teu perfume
lenta, a mente queda os pensares
e a alma desmaia em sensações
imprevistas, surpreendentemente

sei bem quando tu vens
pássaros cantam ao longe
anunciando a tua chegada
asas cansadas de voos incertos
por nuvens densas, carregadas de ais

sei bem quando tu vens
o vento para e, no vão do seu silêncio,
o teu silêncio me fala bem baixinho
da paciência em reserva que é amar

sei bem quando tu vens
e antes de chegares, eu me apronto
pausando a ansiedade, eu me deito
na tua calma que traz bem e mais



- Lena Ferreira -

sexta-feira, 19 de maio de 2017

licor



ouço o teu instinto
borbulho voraz
que embriaga a paz
tal qual vinho tinto

que desta vez perfaz
o momento exato
do ambiente intacto
onde, em mim, te sinto

- náufragos desejos
afogam-se nos beijos -

perfume de lírios
exalando, apraz
ciciando o mais
chama o arrepio

e outra vez perfaz
com o mesmo impacto
mas, tão, tão distinto
que, completo, em paz
espasmado, jaz
o licor do cio



- Lena Ferreira - excerto do livro "Dedo de Moça"

terça-feira, 16 de maio de 2017

atrasa




pouco adianta apontar o defeito
observado no comportamento
de quem caminha contrário ao seu vento
e que não pousa a mão no mesmo peito

pouco adianta o vago julgamento
que, inútil, tenta imputar o efeito
de que o outro siga o mesmo jeito
que enxerga a vida e tome o seu assento

pouco adianta indicar-lhe a trilha
que toda trilha é feita amiúde
em passo estéril ou passo fecundo

pouco adianta dar-lhe uma cartilha
dá-lhe o exemplo em cada atitude
*seja a mudança que quer ver no mundo

- Lena Ferreira -


*Mahatma Gandhi


sexta-feira, 12 de maio de 2017

e, quando me poesia




és tal qual seda que, macia,
nirvaniza, num abraço,
o broto de ventania
que plantei em um mal passo

és tal qual brisa que alivia
o peso do meu cansaço
no findar de cada dia
sobre tudo o que não faço

ah, tanges toda a agonia
dessa nuvem algodoada
no céu que te apropria
risca a estrofe calada

e, pra nossa alegria,
chove a rima esperada
 - e, quando me poesia,
eu não preciso mais nada -




- Lena Ferreira -

quarta-feira, 10 de maio de 2017

dois ímpares estranhos




dois ímpares estranhos
em provável  reconquista
noite média, em lua alta
alta e cheia e imprevista

mesmo céu, órfão de estrelas
divagando, corpo-espaço
bebendo da  maresia

como as ondas, tempo-esparso
língua entranha, essa que minha
liquefeita e inquisitiva
assunta o peso da lida
escrita

e, à pergunta em descompasso
pela pressa nada urgente
sussurrando em tom de brisa
tão modesto e complacente,
me dita:

“corte a barriga da vida”

- Lena Ferreira -


crédito da imagem: Jorge Ventura




terça-feira, 9 de maio de 2017




reestreia nesse palco azul
ardente, embora discreto,
e o fato por si só
é motivo pra festa

um evento calado
sem flashes
ou confetes
às janelas abertas

mas, ah, o seu autógrafo
é uma notícia certa
nas folhas da derme
das gentes despertas



- Lena Ferreira -

segunda-feira, 8 de maio de 2017



e, nos instantes que já não preciso,
colhi manhãs um tanto prematuras
para enfrentar as partes mais escuras
das noites que ergueram um paraíso

com um sono pouco mais que improviso
o riso quase era caricatura
no peito, fundo tal qual sepultura,
dormiam a fala, a razão, o juízo

- por conta do enterro de alguns sonhos
despejei, pelos olhos, um infinito
desesperando a vaga do contrito -

mas neste instante, onde me disponho
bem diferente do que fora escrito,
futuro a vida num tom mais bonito



- Lena Ferreira -

quinta-feira, 4 de maio de 2017



toma-me o corpo
já que a alma nasceu tua
antes mesmo da existência
das horas em que anoiteço

na ausência onde me esqueço
vez ou outra por cansaço
teu abraço é meu descanso
tua boca é um berço manso

onde dorme o teu silêncio
há um canteiro da palavra
que lava, que leve, que livre
livra a língua dos pudores
que estrangeiravam as luas

- toma-me o corpo
já que a alma é livre, e sua -




- Lena Ferreira -

terça-feira, 2 de maio de 2017



acordar a noite
para um papo ameno
sentindo o sereno
descer tão macio

nem sentir o frio
que já se anuncia
nem lembrar do dia
vivido em açoite

acordar a noite
e namorar a lua
que vai seminua
desfilando, bela

ah, o brilho dela
lembra os olhos teus
deitados nos meus
acordando a noite



 - Lena Ferreira -