segunda-feira, 26 de junho de 2017

nem é lua cheia



não é hora, creia,
de mexer no pacto
de rever o impacto
que ergueu o escudo
noutro verso mudo
que mantém intacto
sob a luz da lua
que observa a sombra
do verbo que sobra
sobre outro silêncio
estéril de gestos

não é hora, creia,
de bulir na calma
saturando a alma
nessa noite escusa
o sol ainda tarda
e outra lua aguarda
pelo verso liso
que pretende o simples
longe dessa rima:
ser só a palavra
que não desanima

- ...não é hora, creia
nem é lua cheia... - 



 - Lena Ferreira -

domingo, 25 de junho de 2017

ainda



quem disse da noite mais fria
é certo que desconhecia
que, embora não houvesse fogueira,
a chama que chama, altaneira
no peito de nós, ainda ardia


ainda - Lena Ferreira -

quinta-feira, 22 de junho de 2017

quem sabe




eu nunca digo nunca, isto é certo,
pois penso que o nunca é calvário
é peso morto, é desnecessário
é palavra que, longe, traz pra perto


uma distância que não se imagina
e uma certeza que não é bem certa
e fecha a porta que queria aberta
e abre, à força, o que não se domina


que chamo teimosia, simplesmente:
o nunca, como nunca, livremente
passeia pelas línguas, a seu jeito


mas, digo, vai rendido aos costumes
pois se deitarmos, na razão, o lume
veremos no 'quem sabe' mais proveito



quem sabe - Lena Ferreira





risco um verso no tempo arredio
e ouço a pauta pesar no seu corpo
que agitado contorce-se, torto:

tiro o verso pensado em desvio

outro verso na pele do cio
e ouço o alarme do tempo pudico
que censura, então retifico:

tiro o verbo pensado e o resfrio

outro verso no vento do instante
mau nem bom, nem mesmo consonante
vou, me arrisco nas letras a fio


o que importo é o amor pela escrita
boa ou ruim, é ela que me dita
a importância desse desafio


desafio - Lena Ferreira -


segunda-feira, 12 de junho de 2017

coincidência



incide a luz

sobre esses olhos negros
negros, negros como a noite
que a gente sempre quis


fresca das notas

que os dedos vários da lua
propiciam ternamente
as canções que ontem lhe fiz


chamando estrelas

que retocam o nosso verso
nascido na hora mais extrema
entre o riso e a calmaria


coincidindo,

essa luz que ora lhe cobre
pouco a pouco, nos descobre
mais que versos; poesia


- Lena Ferreira -

sábado, 10 de junho de 2017

arquitetura





que, pra chegar até aqui, 
atravessei muitos desertos
séculos de fome e de sede
impostos pela auto clausura
e não pense que há lamento
nos versos que vão aos pés do vento
são somente grãos de areia
que facilitaram a arquitetura
do momento onde me encontro
observando, mansamente,
o aceno brando da ternura

quinta-feira, 8 de junho de 2017

outra vez



Remexia sua bolsa como se procurasse alguma coisa muito importante. Suas mãos suavam pressa, incômodo e impaciência.

Por fim, resolveu virá-la de ponta cabeça. De lá, como vômito, saiu um sem-fim de inutilidades. Pontas de cigarro, contas por pagar, algumas ausências que por protelar a procura, prescreveram reencontro.
Uma fruta em estado de decomposição, um sim, dois talvez e três nãos. E o caos generalizado esparramou-se no chão.

Fitou o amontoado um tanto indisposta . A náusea instalou-se no seu pensamento. Mais uma vez. Vontade de virar as costas para tudo aquilo. Mas. Não podia. Não devia. Era hora de encarar os fatos. E as fotos. Que desbotadas pelo tempo esquecido, faziam alarido no espaço apertado. Do peito. 
Não deveria ter deixado tanto tempo assim. Mas. 

Assim foi. Fechou os olhos. Respirou fundo. Selecionou os trastes imprestáveis e deles se desfez.
Mais uma. E, outra vez, esvaziou sua bolsa. E, com o espaço conquistado, alma e corpos já suados, aos poucos, outra vez, o seu pequenino mundo se refez.



outra vez - Lena Ferreira -

quarta-feira, 7 de junho de 2017

e tudo dorme




a noite acorda sem grandes anseios
e o quê contido nela se apresenta
com seus andrajos que cintilam sono
entre os fiapos que soçobram viço

e assim se arrasta madrugada afora
levando estrelas nas costas curvadas
ressona as vezes do não estendido
pelas estradas do abortado sonho

da sua boca, um murmúrio escorre
arrependido pelo verbo estanque
deitado, estéril, num quintal baldio
cavando a terra que sua remorsos

- e tudo dorme enquanto isso acontece
verão só rastros quando amanhecer -

e tudo dorme - Lena Ferreira -

terça-feira, 6 de junho de 2017

sentinela



o sol desperta e, como sentinela,
defende os campos que vão distraídos
com os sinais escusos reformados
pela certeza imposta, recorrente


estica as franjas de brilho clemente
espalha o aroma que vem lá do centro
espelha rostos que já tão dispostos
abraçam a calma de ser mais um dia


e em nada disso, espraia o arremedo:
é só ciência do que oportuniza
é só ciência da mais pura essência
que, nessa vida, em nada há final



*sentinela - Lena Ferreira -

domingo, 4 de junho de 2017

na preamar do meu sorriso





contemplo-o a recitar seus rios
na preamar do meu sorriso
líquido e extenso
desembocando rimas fluídicas
nos lençóis de águas e algas
onde se agitam os desejos
das mais antigas nascentes
e seus improváveis segredos

e, no curso em que me ponho,
declamo-o meu, afluente
desaguando oníricos beijos

- lírico, fluídico e recorrente,
contemplo-o e proponho:
não me acordem tão cedo -



na preamar do meu sorriso - Lena Ferreira -

quinta-feira, 1 de junho de 2017

quem disse?



Há tempos não visitava o sarau do Leme à beira-mar.
Ah, o mar. Não bastasse a poesia, o mar. Dois amores que carrego com zelo. O mesmo que uso agora, para que não se quebre o encanto de ter presenciado a função mais sublime da poesia. A social.
Veja, o único protocolo que sigo a risca é o do respeito. Por tudo. E por todos. Dito isto, repenso as sensações impressas e expressas no retorno ao Quiosque Estrela Azul ontem, no evento Pelada Poética No Leme Com Eduardo Tornaghi. Onde encontrei renovados amigos.
Foram tantas. Emoções, impressões e expressões.
Na minha chegada, rezavam, os poetas, suas poesias. E, por respeito, sentei-me silente para tragar uns goles. De poesia.
Um ambulante passava pelas mesas oferecendo amendoim torrado. Num papel de pão, como amostra, para que provado e aprovado, pudesse lhe render uns trocados.
Fim do dia, quase. Poucas vendas. E a poesia fluía.
Passados alguns instantes e ela, a poesia, calou-se diante de um enorme desrespeito. Ao ir-e-vir.
O ambulante, seguindo sua ronda em busca de freguês, tentou oferecer seus torrados na mesa um tanto afastada de nós. Onde uns gringos consumiam seus drink’s e apostavam conversa fora, seguros por dois ‘armários’ do hotel em que estavam hospedados.
Mas. Não foi dessa vez. Impedido pelos ‘armários’ que, literalmente o empurraram do espaço seguro, baixou a cabeça. Típico gesto de quem acostumado com os nãos da vida.
Impotente, não fosse o humanismo de um cara que, pelo ato instintivo, calou sua poesia e saiu em defesa do vendedor.
Calou sua poesia? Quem disse? Sua poesia estava lá. Em cada argumento de passe livre em livre espaço. Ao ambulante e a quem fosse.
Sua poesia estava em cada dedo que apontava o preconceito. Em cada expressão indignada. Em cada urro interno externado naquele olhar transbordante. De ideias azuis. Que eu sempre aplaudi. Por dentro.
Há tempos, não lhe via, cara. E, mesmo não seguindo a risca os enfadonhos protocolos, ainda acima do que você representa para Arte, deixo aqui registrado todo o meu respeito pelo seu gesto.
Profundo respeito. Por ter me mostrado que, além do verso, a poesia grita. Por um mundo , se não perfeito, bem muito melhor. E, possível. E pacífico.
Gratidão, Eduardo Tornaghi. Até breve.

- Lena Ferreira -