quinta-feira, 1 de junho de 2017

quem disse?



Há tempos não visitava o sarau do Leme à beira-mar.
Ah, o mar. Não bastasse a poesia, o mar. Dois amores que carrego com zelo. O mesmo que uso agora, para que não se quebre o encanto de ter presenciado a função mais sublime da poesia. A social.
Veja, o único protocolo que sigo a risca é o do respeito. Por tudo. E por todos. Dito isto, repenso as sensações impressas e expressas no retorno ao Quiosque Estrela Azul ontem, no evento Pelada Poética No Leme Com Eduardo Tornaghi. Onde encontrei renovados amigos.
Foram tantas. Emoções, impressões e expressões.
Na minha chegada, rezavam, os poetas, suas poesias. E, por respeito, sentei-me silente para tragar uns goles. De poesia.
Um ambulante passava pelas mesas oferecendo amendoim torrado. Num papel de pão, como amostra, para que provado e aprovado, pudesse lhe render uns trocados.
Fim do dia, quase. Poucas vendas. E a poesia fluía.
Passados alguns instantes e ela, a poesia, calou-se diante de um enorme desrespeito. Ao ir-e-vir.
O ambulante, seguindo sua ronda em busca de freguês, tentou oferecer seus torrados na mesa um tanto afastada de nós. Onde uns gringos consumiam seus drink’s e apostavam conversa fora, seguros por dois ‘armários’ do hotel em que estavam hospedados.
Mas. Não foi dessa vez. Impedido pelos ‘armários’ que, literalmente o empurraram do espaço seguro, baixou a cabeça. Típico gesto de quem acostumado com os nãos da vida.
Impotente, não fosse o humanismo de um cara que, pelo ato instintivo, calou sua poesia e saiu em defesa do vendedor.
Calou sua poesia? Quem disse? Sua poesia estava lá. Em cada argumento de passe livre em livre espaço. Ao ambulante e a quem fosse.
Sua poesia estava em cada dedo que apontava o preconceito. Em cada expressão indignada. Em cada urro interno externado naquele olhar transbordante. De ideias azuis. Que eu sempre aplaudi. Por dentro.
Há tempos, não lhe via, cara. E, mesmo não seguindo a risca os enfadonhos protocolos, ainda acima do que você representa para Arte, deixo aqui registrado todo o meu respeito pelo seu gesto.
Profundo respeito. Por ter me mostrado que, além do verso, a poesia grita. Por um mundo , se não perfeito, bem muito melhor. E, possível. E pacífico.
Gratidão, Eduardo Tornaghi. Até breve.

- Lena Ferreira - 
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