segunda-feira, 17 de julho de 2017

mais te sonho




...mas, não há noite, meu bem, que se acenda
sem que o dia, embriagado por dois sóis,
traga a brasa ascendente dos teus traços
enquanto rimas delírios e quereres

ah, que tão prosa me faz este teu vento
que me galopa os campos e as colinas
e me contorna mais um dos pensamentos
bem no relevo que enleva e extasia

é dessa fonte que me traz o alimento
mas, me deserta na sede entre dois goles
quando semeia um verbo indizível
no chão de outras promessas já quitadas

ah, que tão nossa é a noite, essa, e toda
toda e tantas, e tão desritmadas
que, pra te ver, e sonhar-te, não mais durmo
pois mais te sonho, e melhor, quando acordada


- Lena Ferreira -

sábado, 15 de julho de 2017

é para lá que voo



dizem que o novo verso anda no meio do povo
varrendo as ruas, os becos e as esquinas
abrindo as bocas e as frestas das cortinas
fechando entranhas dos estranhos sinais
suturando os cortes consagrados em ais
estancando hemorragias, estocando poesias

dizem que o novo verso anda onde não anda o eco
arrítmico do ego, da cisma, do abalo sísmico 
das palmas, das plumas, dos ressentimentos

dizem que o novo verso anda entre os movimentos
das mãos na lida e dos pés na lama, descalços
entre os percalços, dúvidas e tropeços
das crianças plantadas na marra
pelos campos desertos de sonhos
apesar da mínima a idade
barrigas vazias de lua cheia

dizem que é por lá que o novo verso anda
anda e versa enquanto semeia estrelas
enquanto espera pela lua crescente

no mais, tudo é tão velho, é arremedo
dizem, apenas uma roupagem nova
para o antigo verso que surgiu mais cedo

- dizem que é por lá que o novo verso anda
então é para lá que, semente, voo -

- Lena Ferreira -

quarta-feira, 12 de julho de 2017

entre o gosto e o espanto



foi assim, entre o gosto e o espanto
que intentei seu cansaço no meu
e acolhendo a sua língua arredia
convoquei esse encanto no breu:

olhos baços num tom de outono
duas folhas que caem sem querer
e se vão com um vento indisposto
sem destino saber, sem querer

recolhi esse olhar complacente
e lavei na mais pura das águas
as três mágoas debaixo da ponte
onde a ira quebrou seus dois pés

- que o pedaço partido no espaço
pouco a pouco, parece, refez -

e, outra vez, tentativa e fracasso:
num duelo entre espada e punhal
os desejos, talvez prematuros,
os cansaços passados do tempo
e um vento invocado no meio
impedindo o compasso final

entre o desencanto e desgosto,
meu cansaço cansou-se do seu 
mas, ainda mastigo as vontades
desse olhar que nada prometeu


- Lena Ferreira - 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

notas



é certo que uma lonjura nos separa
essa, irrestrita, intocável e indefinida 
pelos séculos que se arrastam em suspiros
incalculáveis pelo tempo despedido

- mas, nós, que fomos notas tantas
um dia, transporemos si bemóis
assim, espero -

pudesse, deitava agora os meus apelos
nos pelos do compasso mais fremente
rompendo as correntes do absurdo
num grito mudo que me ecoa bem no centro

mas, na impossibilidade evidente,
cá, rego as cifras dessa espera miúda
de que, de perto, como as notas mais propícias
dedilhadas pelas mãos do clã destino
ouvir-se-á nossa canção de reencontro

- então, seremos música, novamente -

- Lena Ferreira - 

sábado, 8 de julho de 2017

menos a saudade



A noite, com passo apressado, fazia um esforço tremendo para acompanhar os céleres pés do meu compromisso.

Luzes piscavam, como fossem sinais de alerta apontando-me a seta - imprudente - e por um segundo senti-me culpada pelo que nem pequei. Peço perdão, mesmo assim.

As ruas com seus movimentos, lembravam-me o que é existir lá fora. Há tempos enclausurada em pensamentos, pouco lembrava do que era tudo aquilo. Em meio ao alvoroço noturno, me dei conta de que o percurso era o mesmo. O mesmo que, por tantas vezes, fizemos. Mãos dadas, sorrindo. 

Ah, parecia até que o vento me espionava - e me espiona tempo todo, pressinto... -

Porque, naquele exato momento, ele me abraçou como se adivinhando a lágrima que ensaiava cair.
Ela veio, porque sim, inevitável, mas ele logo a levou. E deixou-me essa sensação doce. E calma, e serena. Tranquilizando-me quanto à escolha feita de voltar à vida, à luz e à lida. Do que já não é mais um sonho. 

Desde então, sigo em frente, respirando baixinho e baixinho confesso. Que no enredo que teço nunca houve culpados, tão pouco inocentes. 

A noite é minha testemunha. 

Por aqui, tudo passa apressado. Menos a saudade que sinto de você.



- Lena Ferreira - 

terça-feira, 4 de julho de 2017

é nada



e a voz é pouca, é mínima
distante dos fatos entardecidos
sob as folhas de vertigens calmas
entre as nuvens de um céu cobalto
onde o instante, de tão raro, para
e confere o arrepio interno
que o esterno controla, aparente,
e o externo segue, lentamente,
como se, tendendo ao sobressalto,
incorresse em crime sem soltura

e a voz é pouca, é ínfima
distante dos afetos anoitecidos 
respingados de sereno e de história
de uma trajetória isenta de depois
onde o passado a limpo ressuscita
e interfere nesse verso estanque
e soluçando as rimas que inverno
planta no peito do que não foi
o verbo preciso e irrestrito
que águo da forma mais bonita
contendo as torrentes de nós dois

...e a voz é nada


- Lena Ferreira - 

domingo, 2 de julho de 2017

quase conhecida


as vezes que se vestia de vento,
varava as ruas várias avarandadas
levantando as velhas folhas avermelhadas
que voavam como voam os pássaros aflitos

e assim as folhas iam, desesperadas
iam assim, a contragosto, sem lar, destino
parar em não sei onde, mas sei porquê

capricho pouco, sacudia a cabeleira farta
dispersando o pensamento pequeno e louco
tão vento, e tão incauta e desarmada
espalhando a poeira de outros desditos

e as folhas, assentadas sei lá eu onde
observavam, quietinhas, o desatino
das vezes que ia vestida de vento em vento

mas, as vezes que se vestia de terna brisa,
refazia-se em promessas ensoladas
e acenava para folhas ainda aturdidas
que assim permaneciam, feito em cautela

e, por ter vestidos vários - incluindo a chuva -
era quase conhecida quando ia vestida
mas, passou em brancas nuvens quando despida
e, despida, despediu-se do ser inconstante

- Lena Ferreira -